Al Di Lá

Você se lembra do filme Candelabro Italiano?

sábado, 31 de janeiro de 2009

Os Vaqueanos

Ano de 1784. Rafael, com a luneta expandida, olhou para o leste. Conseguiu vislumbrar algo que teria sido um forte, agora em ruínas, na embocadura do Piratinin. Depois, correu o olhar pela extensa planície do sul, ao longe, onde se fundia o céu com a linha do horizonte. Corria o óculo de alcance ora para o oeste, ora voltando lentamente para o outro lado. Por fim, olhou abaixo o arranchamento do Passo da Maria Gomes que, dali do cerrito, onde subira com o Alferes Guilherme, era visto em toda a sua plenitude. Passou a luneta para o outro e sentou-se na raiz de uma caneleira frondosa que lhes dava sombra. Quedou-se, pensativo, com o olhar perdido naquele verde à sua frente, do outro lado do rio serpenteante. Novamente aquela idéia obsessiva o obrigava a uma confidência com seu companheiro de tantas incursões pelas pradarias da Província. – Sabes, Guilherme, é muita judiaria uma região tão bonita como essa, além do rio, não ter dono e nós não termos coragem para conquistá-la?... O Alferes, que olhava para os lados das Asperezas, fechou a luneta, vagarosamente, colocando-a sobre o alforje que estava no chão a seus pés. Caminhou em volta da árvore onde estavam e voltou com três pedrinhas e dois galhos pequenos de vassoura vermelha. Sentou-se defronte ao Coronel que, quieto, cuidava sua movimentação. Desgalhou os ramos. Amontoou as três pedrinhas dizendo: - Vê, amigo, se estou errado. Estes são os três cerros que vemos ao poente, mais à esquerda daquele cerro chato. Do lado desta pedrinha nasce aquele arroio grande que morre lá embaixo, nos pantanais, quando encontra a Mirin – e apontou com o braço na direção da lagoa. E este é o Piratinin – continuou – encostando à outra pedra o outro galho, em paralelo ao primeiro. Tirou da algibeira um fuzil, que usava para acender o pito, colocou-o lá embaixo, em pé, à direita do rio, como se fosse o antigo Forte de São Gonçalo, e continuou a sua fala: – Rafael, nós conhecemos, como ninguém, estas paragens. Daqui, até além do Tacoary, são como a palma da nossa mão. Vamos aproveitar que os espanhóis não conhecem a região e estão atrapalhados, peleando com os charruas, lá no Rio da Prata, para fazermos um acampamento num daqueles três cerros. Depois, se o Vice-Rei deles der em grito, o nosso pode responder, com cautela, que estamos na nascente do arroio a que alude o tratado. E, rio e arroio nascendo juntos, e paralelos correndo em direção à Mirin, ajudam a nossa vontade e a nossa Coroa. Tomemos conta dessas pradarias que ficam entre essas duas linhas. Não é o que tanto cobiças?... Quem sabe?! Longo tempo e os dois calados. O alferes insistiu: – Que lhe parece, Coronel? O silêncio foi maior enquanto se acomodavam para voltar. Desceram o cerrito. Dois meses depois Guilherme, comandando oitenta e seis soldados, cumprindo ordens do Governador da Capitania, levantava um acampamento numa coxilha onde eram abundantes os ervais. Levara carpinteiros, pedreiros, oleiros, latoeiros, padeiros, víveres, folhas-de-flandres, pregos e ferramentas para o trabalho pesado de construção. Quando a Vila já estava consolidada, o Coronel, ainda Governador, distribuiu terras para seus fiéis soldados, todas do lado direito do arroio grande que nascia nos cerros. Só Guilherme não aceitou dádiva nenhuma. Queria voltar para a sua terra natal nos Açores. Contava quarenta e oito anos, a mesma idade de Rafael Pinto Bandeira quando, em 1788, pegou carona num brigue que levava o Coronel até a Corte de Lisboa. Fizeram escala na Ilha de São Jorge onde Rafael passou uns dias na casa de pedra construída por Wilhelm Van der Hagem, fidalgo de linhagem flamenga, um antepassado do seu Alferes. Na Vila do Topo, de onde saíra para se aventurar na Colônia do Brasil o vaqueano Guilherme da Silveira.

Cartuxo

O Cartuxo e o Turco Elias tomaram, juntos, bebedeiras memóráveis. Numa delas, em que iam em direção à venda do Miguel Aliodes, caiu a roda da carroça do Cartuxo. O contratempo, no entanto, custou a ser notado pela dupla. Condutor e passageiro estavam mais preocupados era com o trago. A garrafa passava da mão de um para a do outro e os sucessivos goles de cachaça davam vasão a uma conversa interminável. Os dois, num dá-le trago que dava gosto, bebiam desmedidamente. Quando a canha chegou ao fim, eles quase caindo do veículo, e nada de chegar na venda, o Turco Elias, nas águas, olhos já pequenininhos e embaciados - com a carroça ali, paradinha, paradinha, ladeada -, perguntou: Cartuxa, essa descida braba da rua não vai ter fim???.

sábado, 8 de novembro de 2008

Sol a pino

Verão brabo. Dentro da minúscula casinha de máquinas a polia da bomba d’água quase não deixava espaço para que um homem se movimentasse. A pouca sombra que havia dentro mal cobria a figura enorme do Bertolino que se sentara num toco de eucalipto. Era chegada a hora em que os aguadores, sempre em dupla, trocariam o turno. Os da vez, já perto, se aproximavam do levante. Na frente, vinha um loiro baixote, barbudo, com um boné na cabeça, aspecto de desleixado e cara de poucos amigos. O outro, que vinha há uns metros atrás, era mais novo, aparentava uns trinta anos, era também baixo, porém moreno, cara imberbe, jeitão alegre. Como seu companheiro, trazia uma bolsa a tiracolo com a garrafa de café que mais tarde tomariam, já frio, com bolachas.
Bertolino, esperando a largada do serviço, estava sem camisa e seu corpo negro, quase azulado, brilhava com o suor que lhe corria pelos poros. Colocara a marmita sobre os joelhos para almoçar a comida trazida pelo loiro. Como de costume, os que eram rendidos no serviço ali mesmo se alimentavam, pois, do levante até o alojamento da granja, havia um eito de terço de légua pela frente.
Junto com o Bertolino, no mesmo turno, seu companheiro, um homem de formas abugradas e que parecia regular de idade. Não mais que cinqüenta anos. Tinham dado com os costados na zona das Capoeiras, quase na mesma época, e sempre foram amigos. Volta em meia, quando o serviço rareava por ser entressafra, eles se separavam por uns tempos. O amigo partia em busca de serviço pelas redondezas, enquanto Bertolino acabava ficando, como agregado, na volta do patrão antigo, como se fosse uma instituição da propriedade. Mais uma vez estavam juntos sorvendo, dia a dia, aquele cheiro bom que a lavoura de arroz exala.
O amigo, terminado o almoço, deixara-se ficar, à sombra de um salso chorão, na beira do açude. Enquanto fazia a digestão esperava o Bertolino almoçar para seguirem juntos até o alojamento. Tudo sem pressa. Mais tarde, quando o dia morresse, a janta, a cama... De manhã, bem cedinho, estariam ali de volta cuidando para que não faltasse água na lavoura.
Dentro da casinha a polia não parava de rodar. Na sombra escassa, o Bertolino, com a maior calma do mundo, dava uma colherada no prato e perdia-se em devaneio mastigando a comida. Sem dar atenção aos dois que haviam a pouco chegado, ele almoçava com aquela paciência infinita que a Virgem Maria, sua protetora, lhe dera. Paciência era o que o Bertolino mais tinha, depois, é claro, da beleza infinita dos dentes de porcelana.
Foi quando, nem bem começado o turno de trabalho, o loiro e o outro estavam se contrariando. Da contrariedade para a altercação foi um passo. Iniciaram os desaforos de parte a parte, com as vozes alteando cada vez mais. Bertolino, sem deixar de mastigar, ignorava os dois que discutiam. Levemente, sem mexer com a cabeça, de quando em quando, ele dava uma levantada nos olhos, em direção a eles, parecendo não se dar conta do que ocorria à sua volta, acostumado às arruaças a que já assistira. Levantou mais outra vez os olhos, baixou-os, outra colherada, e seguiu mastigando, mastigando. Mais outras colheradas...
Dava para ver que em boa coisa não ia terminar aquilo.
Os arruaceiros, de repente, se atracaram a socos e pontapés em direção à porta da casinha do motor onde o Bertolino almoçava. Assim como vinham entraram. Sem espaço para braços e pernas se agredirem, entraram num corpo-a-corpo e apareceram as facas. A polia em movimento, zunia. As facas cortavam o ar a centímetros, a milímetros, do Bertolino, e ele ali, colher no prato, colher na boca, mastigando...
Só quando o cabo duma das facas raspou a sua carapinha grisalha e um cotovelo desviou a colher da sua boca foi que ele, voz grossa, sem perder a calma, sentenciou os homens: - Se virá a minha bóia, vai tê!!!
Sol a pino. Verão brabo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Caro Amigo








Foi sempre com muita atenção que ouvíamos os mais velhos discorrerem sobre velhos assuntos como o desaparecimento do absinto, do rapé, do rum creosotado, dos corsos de carnaval, da 914, do a saúde da mulher, dos aguateiros e nem por isso nos melindrávamos. Os que vieram bem antes de nós contavam histórias em que os veículos se limitavam aos faetons, aos Modelo-T, aos dirigíveis e apreciávamos ouvir que existiram tais velharias. Agora, caro amigo, a ninguém deveria cair mal saber que já foi de brisque andar pelas ruas da cidade a correr numa Lambretta, numa Vespa, numa Java, numa Douglas, só para ficar nas vovozinhas da Bizz, ou passear num Sinca Chambord ou num Gordini quando eles eram o it na metade do século passado. Sabes? Antes, quando ainda estavas na Bolívia, a gente tirava retrato, usava espelhinho no bolso traseiro da calça far-West, pente de osso no bolso da volta ao mundo, usava guides, ia ao cinema ou a uma brincadeira. Às vezes, também se ía aos bailes do Beca, do Doca ou do Chico Barros. Se chovesse, colocávamos galochas para não embarrar o calçado. Na noite, tomávamos Fogo Paulista puro, ou misturado com Crush, Guaraci ou 17. Não chegamos a nos afeitar com navalhas, claro, já havia lâminas, mas, no cabelo usávamos Glostora, Gumex, e, antes de inventarem o Stilleto, primeiro, havia o Amor Gaúcho, depois, mais modernamente, o Toque de Amor da Avon para passearmos cheirosos. Fumávamos Belmonte, Elmo, Continental e apreciávamos comida feita com camarão seco e café com açucar mascavo. Para a fraqueza tínhamos o Wa-Ka-Mo-To e o Elixir de Scott; para mal-estar o Alka Seltzer. Íamos a presépios-vivos, usávamos conga e, por pura exibição, piteiras quando o cigarro ainda não vinha com filtro. Pois é, foi assim que assistimos chegar na cidade a primeira televisão trazida pelo seu Mércio, ouvimos o primeiro rádio da faixa cidadão do seu Otavio, vimos o Marcos Prestes montar o primeiro computador e o João Saraiva nos apresentar a um telescópio. Põe paciência no que lês, meu caro. E não te queixes das velharias que escrevo, pois, pior, foi vivê-las vendo este teu maravilhoso mundo de hoje.

Anistia

Aula de sociologia. O Professor Gilberto Gigante discorria sobre o momento histórico que o País vivia naqueles estertores da ditadura. Na penúltima fila da classe estava sentado o Dedé. Na última fila, atrás dele, o Caluxo Gastal e eu. Do início da matéria até quase o horário de fim de aula o professor tinha, à exaustão, repetido umas trezentas vezes a palavra anistia. Lá pelo meio da aula eu sentia que a cabeça do Dedé tentava se virar para falar conosco, fosse para entrar no nosso assunto de fim de fila, enfadado, talvez, com a chateação do Gigante, ou, quem se animaria a duvidar?, fosse para trocar algum comentário sobre as intenções do Governo Figueiredo. Assim, a aula se arrastava como uma coisa que não tinha fim quando, não se agüentando mais, com a mão em concha na boca, ele se virá para traz e nos pergunta, quase sussurrando: Guris, o que é afinal essa tal de anistia? Eu, me chegando para perto do cogote dele provoquei: o quê!!! Tu ainda não sabes o quê qui é???... Não deu outra. O Dedé, se virando novamente para trás, com o queixo bem encaixado no ombro, revirando e piscando os olhos, me sentenciou: Te mete a esparramar que eu não sei. Te mete...

Tité & Tetê

O Seu Tetê é o motorista com o maior número de histórias desastradas que se tem conhecimento na história do município. Morava na cidade e trabalhava na campanha, onde se locomovia com um fusquinha ano 77. Quando ía, no início da semana, para o local de serviço, sempre causava uma estrepolia na estrada. Na ida, havia sempre um incidentezinho. E, na volta, para não desmerecer a fama de mau condutor, também o Seu Tetê criava uns probleminhas de direção. O normal, já era costume, ele deixar o fusca no chapista, às sextas-feiras, para pegá-lo, restaurado, sem nenhuma arranhão, na segunda, quando ia fazer a pegada na granja. Na estrada, com o automóvel flamante, quando alguém o ultrapassasse, de certeza certa ele dava uma guinada no volante e estava feita a porqueira sobre um barranco. Quando era alguém que se aproximava em sua direção, ele, muito noveleiro, com a curiosidade de conhecer o outro motorista, e cumprimentá-lo, pensando que estava tirando um fininho, lá ía-se um espelho, ou outro dano fatal à lataria. Num fim-de-semana, após a largada, abastecendo o fusca no Posto do Tité, este, já com pistola no tanque de gasolina, perguntou: - Ué, Seu Tetê, o seu carro da última vez que veio aqui não tinha este amassão, no para-lama... Foi, então, que ele, como quem conta uma coisa admirável, entregou sua última barbeiragem: - Tu não acredita, tche!, a ursada que este carro me aprontou... Não vê que eu soltei a embreagem dando uma marcha-à-ré, para sair no portão, e ele disparou ao contrário, para a frente, se planchando na parede da garagem!!! Tava em primeira, o louco!!! Que ursada ele me aprontou... Como nunca... Que ursada!!!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

DOCA & CIA

Digamos que o tempo voltou atrás e que no próximo sábado haverá um baile no Salão do Doca. Você arriscaria um palpite sobre a quantidade de gente que iria, hoje?... Mas, naqueles idos, seria temerária a pergunta frente à pronta resposta. Na verdade, tudo mudou como muda a água para o vinho. Não há mais bailes do Doca. Para os saudosistas é como gato miar em tapera. Babaus! Foram-se, juntos, na mesma fornada do tempo os bailes do Beca, os do Chico Barros, os do Salvador e os do Tirso, na estrada da Costa do arroio. Vizinhos um do outro. De roldão, foram-se os bailes do Tailor, os da Casa Queimada, os do Diomar, estes na estrada do Herval, na Airosa Galvão, nos pontilhões da Ceguinha e na Divisa, nesta ordem. Os da Granja São Paulo, os do Seu Willi Peter, para os lados do Chasqueiro, e os da estrada das Capoeiras, lá no Lauro Cavalheiro, lá na Granja dos Conceição, lá no Paulo Mello, lá nos dos Mata-Burros, do Seu Pedrinho Nunes. Nunca mais os bailes do João Freitas... Quié deles, Meu Deus?! Como o tempo nos consome... Tenham piedade e não nos levem a mal: não lamentamos a falta que nos fazem, até por que hoje existem muito mais bailes, e melhores que os de antanho. O que lamentamos é este desgaste que o tempo nos legou e não nos entrega enxutos, como éramos, para as picardias. Hoje, somos pura sucatama e carregamos uma enorme saudade dos ardis que usávamos para entrar, sem pagar, nos salões de dança. Imaginem, sem profundidade intelectual, o que era assistir ao Neneco chegar, num Doginho Polara, do ano, no Salão União da Mossidade (letreiro na parede de fundo da copa) do Diomar e abrir a tampa de combustível do gerador que alimentava o som do José Iaks, para despejar um copo de cerveja? E, depois, quase ao ponto de levar uma sova dos músicos, o Felipe se apresentar como mecânico e eletricista? Era o caos total e nós todos lá dentro, por conta do imbroglio provocado. E assistir ao Doca afrouxar a vigilância na cancela do salão? Como? Simples. Para cada estação do ano um ardil. No verão levávamos uma garnisé do João Duarte para gritar até o Doca enlouquecer... Na primavera, roubávamos rosas da Praça para despetalar no portal do salão. Mais loucura... No inverno, bergamotas da Fruteira A Maluquinha, do Sílvio, para espargirmos o soro das cascas nas narinas do Doca ou inteiras, rolando salão a dentro. Loucura Total... Liberação total da cancela do salão... Quando não eram as galinhas que ele pensava estivéssemos roubando, eram as rosas, ou o assalto à quinta. E no outono, para entrar? perguntarão... Ora, para que existe a batata inglesa, cortada ao meio, e um canivete para falsificar o carimbo na mão, ou da senha, se tínhamos o Pachola para levar as almofadas, de tudo que era cor, lá do Tabelionato do Levi?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A COBRA

A tarde cálida morria mostrando um sol vermelho lá para os lados da Barragem do Chasqueiro. No açude do Trajano os amigos ordenavam as tralhas da pescaria. O Padreco - mal chegado -, fominha por pescaria, estava com água pelos joelhos, e com o caniço de lambaris, já tirara isca para umas duas linhas. O Padreco é que providenciava linhas para todos e eles ainda estavam às voltas com a barraca, a caipirinha, o carvão, os espetos e a carne - esta o motivo maior da noitada. Quem eram os outros? O Neri, o Agrelo e o Monterinho. Cada um na sua tarefa, e todos no religioso ofício de se preparar para o churrasco que viria. Súbito, de dentro do açude, um grito do Padreco suspendeu os afazeres. Tinha sido mordido por uma cobra, dentro d’água, e, assustado, mostrava indícios de um provável desfalecimento. O Neri se prontificou a levar o quase moribundo ao Pronto Socorro da Santa Casa, enquanto os outros esperariam. Na ida o Padreco – branco - não pela picada, mas de susto, com voz sumida de doente assumido, fez um seu último pedido ao Neri: Que ele - e o pedido era feito precedido de um Por Amor de Deus - cuidasse da sua família, mormente do estudo da filha, pois, previdente, tinha economias para tanto na Caixa Econômica Federal. O Neri, que cuidava da direção dada a correria, ouvia atento e atenciosamente prometia cumprir o pedido do amigo. Chegados, examinado o doente pelo Jeorge Vernes, foi ele dado a pronto por ter sido mordido por uma cobra inofensiva e não peçonhenta. Lépido e faceiro, pronto para voltar à pescaria, o Padreco sentou-se no carro e o Néri tocou para a Associação do BB. Chegando, desceu do carro, fez a volta e abriu a porta do carona dizendo: - Pronto, estás em casa... O Padreco, não entendendo a deixa, argumentou: - Ué, não vamos voltar para a pescaria? - Não, lascou o Neri, que estava de gerente do Banco, à época. E arrematou: - Então, que qui tu tás pensando? Trabalhas comigo todo este tempo e vais prestigiar a Caixa Econômica com as tuas poupanças. Desce... Tchau!!! Com uma lua por testemunha, meia hora depois (ninguém sabe até hoje se eles sabiam lidar com linhas e anzóis), estavam os três, em companhia do churrasco e da cerveja gelada, rindo da sacanagem que o Néri aprontou ao investidor Padreco.

SETE QUADRAS

Sete Quadras, Querido, Espada Nua, Catão... Seres que povoam a minha cachola e dos quais guardei o jeito de andar, de vestir, de falar, sem nunca ter me preocupado em saber os nomes de batismo. Hoje, taí..., tenho precisão e não acho quem me socorra nesta terra do Irineuzinho. No entanto, como nem tudo ao santo, nem tudo ao diabo, fiquei com a nostálgica lembrança dos momentos em que nossos destinos um dia se cruzaram. Quem esqueceria a figura do Querido, carregando um porrete que era para sua apresentação de armas. Sempre vestido com uma túnica militar, toda bordada de condecorações. Tempos em que as garrafas traziam rolha por dentro da tampinha e era só prender no tecido - por dentro uma, por fora a outra - para colocarmos mais uma medalha no peito do nosso General. Quem, dos da nossa geração, não tem uma passagem, uma pequena historia sobre o Querido? Mas, deste, e dos outros nos ocuparemos noutra olada. Agora, a figura que veio a minha lembrança foi a do Mingau da Coxilha do Fogo. Desenhozinho de estatura baixa, estranha, mala vuelta, braba que nem zorrilho, sempre carregando um relho na mão, escorada no ombro a argola e a trança de seis caindo pelas costas: era só chamar de Mingau e estava feita a porqueira. Rebolava o relho e a gurizada deitava o cabelo. Nos idos de cinqüenta, teatino lá das Cacimbinhas, veio ainda moço, morar na cidade, o Timotéo, pessoa de estatura alta, enorme, e de índole arruaceira. Vai daí que, sabedor do apelido do baixinho entonado lá da Coxilha, resolveu implicar para ver no que dava. E assim foi feito. Um dia, o Timotéo esperou ele descer a Doutor Monteiro, entrar na venda do Seu Hernandez e, à sua saída das compras, implicou: - E aí ô Água Com Farinha?... Tamanho não é documento, hein?... Não prestou! O ofendido tirou a maleta do ombro, passou o relho para a mão direita, e com um olhar de fúria, de cima para baixo acompanhando a altura do outro, entesou: - Aquece a água e mistura com a farinha. Aquece, aquece... Mistura, mistura... que tu vais ver o que é bom prá tosse...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O latinista (Ad argumentandum tantum)

O Doutor Lauro Medeiros de Albuquerque, advogado, professor, criador, pessoa de proeminência na cidade, era um apaixonado por história e por latim. Dava gosto ouvi-lo quando o tema em aula era a Guerra do Paraguai. Só ele se referia à Batalha de Tuiuti, a mais sangrenta de todas, com tanta vibração, com tanto enlevo nos gestos. Osório, o vencedor de Tuiuti; Caxias, o comandante vencedor das forças brasileiras, em Itororó, Avaí, Lomas Valentinas e Angostura. Vibrava quando se referia aos Voluntários da Pátria, à armada brasileira, às famosas retiradas, aos ataques majestosos do exército imperial. Tudo, na voz desse saudoso professor, mexia com o nosso ufanismo. Só ele esparramava latim com tanta propriedade. A nossa atenção às suas explanações sempre valiam boas notas, muito mais que as sabatinas. Como causídico, também brilhava com seu latim pelos plenários de Júri. Num deles, no Herval, em que abraçava uma tese de legítima defesa, o Doutor Lauro exaltava, em latim, um episódio sobre Assis Brasil, tido em seu tempo como um exímio atirador de arma de fogo: Atacado em campo aberto por um touro, errava os disparos contra o animal. – E olhem que era o Assis Brasil – repetia o orador... O plenário silencioso escutava atento. Atuava na parte contrária o Doutor Cândido Norberto que, em dado momento, lá pelo quinto tiro errado, não se conteve e lascou a pleno pulmão: - Eh! Touro de sorte!... Assim era. Vagam pela nossa lembrança, ainda com o mesmo vigor daqueles tempos ginasianos, as expressões latinas que ele tinha paixão em apresentar com as prontas traduções. Brocardos que ele cultivava, além das suas lides forenses, nas aulas de história, no encontro com amigos. Aforismos que brotavam com naturalidade, com exagero, até. In illo tempore, dizia, quando se referia ao passado. Se alguém o cumprimentasse, quando a caminho do Foro, lá vinha latim: Hoc opus, hic labor est. Frente às situações ou provocação entre estadistas, nas notícias de jornal, nascia um abyssus abyssum invocat... Contava o poeta Lauro Machado, que estando um dia o seu cunhado Mário à porta de casa, ao sol, cumprindo a tarefa de colocar remédio no nariz do Paulinho Carriconde, à época um menino de cinco anos, foi surpreendido pelo cumprimento do Doutor Lauro, que por ali passava: - Bonus pater familiae, que fazes? O Doutor Mário, sem largar o queixo do filho, espremendo o conta-gotas, calmamente respondeu, em bom latim: - Butare remedius nauseans infantibus. Só para argumentar...

O Mediador

O desfecho da briga do Otacílio da Currucha com o Cabeça, na década de cinqüenta, serviu de mote para terminar outra encrenca que aconteceu, muitos anos mais tarde, entre contendores diferentes. O motivo desta desavença foi um comodato de terreno entre o Velho Pereira e a Dona Joana, mãe do Ataíde Pipoqueiro. Quando ela ficou velhinha o filho pipoqueiro resolveu por em dia os teres e haveres da mãe. E, dentre eles, havia uma nesga de terreno que ela cedera ao Seu Pereira, para que o caminhão deste pudesse manobrar melhor ao entrar na garagem. Ora, o Velho, já não tendo mais o caminhão, acreditava que o terreno, que nunca tivera cerca, pela perda da serventia, também estivesse fora de sua posse, sem necessidade de entrega solene. O outro, preocupado com o patrimônio da mãe, acreditava que o Velho ia ficar de dono do terreno. E foi assim, num clima de animosidade por parte do Ataíde, que ele procurou o Velho para por em dia a questão. Com conversa daqui, conversa dali, num rodeio verbal já indo longe, o Ataíde enfim entra no assunto que o Castelhano Pereira já esperava. Não terminou de falar e começou a xingação em portunhol, e dali foi tudo rapidinho para as vias de fato. Depois de dar uns quantos tapas no Ataíde, o Velho se enfureceu e passou a atacá-lo com pedaços de tijolos que havia no aterro da rua. Com um último tijolaço no peito e todo lanhado no rosto o Ataíde Pipoqueiro acabou indo para o plantão da Santa Casa. E foi lá que o Tité, sabedor da briga do pai e preocupado com a confusão que redundaria em processo, foi levar seus cuidados e apoio ao infeliz pipoqueiro. Prontificou-se a acertar despesas com curativo e analgésico tudo para ver se dourava a pílula. Mais, queria levar o ferido para casa poupando-o de uma dolorida caminhada. Desculpava-se pela ação errada que o pai praticara, e, sobretudo, enaltecendo a harmonia que sempre existiu entre vizinhos, aplicou um golpe de misericórdia no Ataíde: Agradecia-o por ele não ter sovado o Pereira, que já era um velho e coisa e tal. Resultado, dando uma bomba dessas no Ataíde, a coisa morreu por ali, sem inquérito, sem polícia, numa boa...

Tio Julio

Tio Júlio, ou Vô Júlio, como o chamava. Na verdade era um tio-avô. Da sua figura o que mais lembro eram os óculos parecidos com os que imortalizaram a figura do John Lennon: lentes redondas e com um aro fininho. Ah! Não esqueci também o permanente uso de colete. Num bolso ele trazia o relógio com a corrente de ouro, presa na casa do botão e, no outro, a faquinha para picar o fumo crioulo. E dá-lhe palheiro! Até hoje, ao lembrar a sua figura bonachona, meus sentidos parecem entrar em contato com o agradável cheiro daquela fumaça e o aroma daquele pito. Era criador e, como paixão maior, gostava de lidar com Frutos do País, como eram chamados os couros e pelegos que ele saía a comprar pelo interior do município. Tinha como ajudante o Cirilo, um dos filhos solteiros que estava sempre à sua volta. Certa feita, quando o Seu Amaro Caetano, também comprador de couros e pelegos, comprou um Modelo A, da Ford, para substituir a carroça, o Vô Júlio observou ao Cirilo, apontando o cano da descarga do automóvel: - Vês, Cirilo, aquela fumacinha? Pois ali vai todo o dinheirinho dele! Mas, uma semana depois da observação, quando pai e filho puseram o faeton na estrada para comprar couros sentiram a dura realidade dos tempos: O Seu Amaro, no guarda-louça, já tinha comprado primeiro tudo que era pelego e couro da campanha, numa passadinha, já que agilizara o modo de negociar. Não deu outra. Foi de imediato que o Vô Júlio mandou o Cirilo para a cidade, com dinheiro no bolso e uma recomendação: - E não volta sem me trazer um automóvel do ano, e faeton, para a gente driblar a concorrência. Comprado o carro os negócios prosperaram, por anos a fio. O Cirilo foi o seu motorista, também, quando adquiriu um moderno caminhão da marca Fargo para continuar envolvido nos negócios de Barraca, como ele dizia. Lembro o dia em que o Cirilo, já madurão de idade, casou. A Cerimônia foi na Igreja. Na hora H chegaram para o casamento os dois, pai e filho, acompanhados do Tio Olívio. Desceram a calçada da Praça e o Vô Júlio, manheiro, ainda deu uma fumada no puxo de palha, antes de amassá-lo na areia da rua. Atravessaram na diagonal e subiram, proseando, os degraus da Igreja. Quando entraram, ai Minina! O Vô Júlio, cara-a-cara com aquela imensidão do templo, admirado, olhando a nave arredondada, lá em cima, não se segurou: Mas, Olívio, que Barraca bem linda dava isso aqui! O que ia caber de couro e pelego... Já viste, tchê?

quinta-feira, 19 de junho de 2008

CAFÉ CAPRI

Anos sessenta. Estávamos reunidos numa mesa ao canto, com o janelão à nossa frente, numa roda de cafezinhos e martelos. À espera, claro, dos bolinhos de carne da Maria da Currucha que o Dé trazia, costumeiramente, ainda bem quentinhos, aos fins da tarde. No balcão não estava nem o Tritri, nem o Aldi para atender-nos. Apenas o proprietário, o Seu Ciro, a olhar para a nossa mesa com um olhar perdido. Nada falava, nem nada perguntava. Nós, também em flirt, nada solicitávamos embora precisássemos de um pequeno abastecimento de água ardente. Foi quando surgiu uma idéia: Vamos fazer um requerimento pedindo mais outro martelinho? E, nele, dando ao Seu Ciro um largo tempo para nos servir? Dito. Feito. Com o escritório bem pertinho do Café, em minutos o documento foi elaborado e protocolado no balcão: Ilmo. Sr. Ciro.... Nós (Sérgio Canhada, Marta Rocha, Renato Müller, e Outros), vimos pelo presente, respeitosamente, perante Vossa Senhoria, requerer, dentro das próximas quarenta e oito horas, se não for incômodo, seja trazido até nossa mesa mais um martelinho. Pedem atendimento, Arroio Grande, etc... À medida que lia o velho foi perdendo a cor e, brabo, deixando o papel em cima do balcão, saiu para os fundos do salão. Para a nossa cabeça estava a porqueira feita... Voltaria armado para uma briga? Era esperar para ver no que daria a picardia. Minutos depois, quando voltou, para a nossa surpresa, trazia um copinho que encheu com a branquinha. Depois, vindo em direção à nossa mesa, antes de colocar o martelinho sobre ela - e olhando, justamente para mim -, lascou: Isso só pode ser coisa tua!... Mais outra doma ali no Café?... Bem, aquela tinha passado! Mas, aconteceram outras passagens, inúmeras... Como a da noite em que tinha baile no Doca e o Aldi estava de atendente. O Macksoud, sabendo que o Arnaldo se dirigia para o Café, sem um tostão no bolso, avisou-nos - os mesmos de sempre -, da molecagem: atara numa nota de dinheiro, à época de importância considerável, um fio de náilon, quase invisível de fininho. Abrira uma fresta nas portas internas do balcão que tinha vidro na sua frente e, dali, observaria a nota de dinheiro no chão de jeito a pescá-la antes de ser agarrada e acabar em prejuízo a brincadeira. Não deu outra. O Pila chega, avista a nota no chão, espertamente segura no osso do peito, e pede um cafezinho. Em seguida, disfarçando ajeitar a meia, faz a primeira tentativa. Dali donde fresteava o desfecho o sacana, vendo a mão do outro aproximar-se da nota, dá uma puxadinha no fio e coloca-a mais para baixo do balcão. Mais um trago no cafezinho e o Pila dá a segunda investida: Disfarça para arrumar a outra meia e passa a mão no chão. De novo, não vem com nada... O bandido, lá do outro lado do balcão, tinha dado mais um puxãozinho para dificultar a manobra. Resultado: Não demorou muito e o coitado, noutra tentativa desesperada, tendo perdido toda a noção do ridículo, estava, de terno e gravata, como viera vestido, deitado no chão, agora, com todo o braço embaixo do balcão, procurando a nota que salvaria o seu baile no Doca. Não lembro quem não agüentou, e riu. Mas, não esqueci a cena. Ofendido, o Arnaldo foi para a porta do Café. De lá, brabo, numa sujeira lamentável, bradava: Aqui não tem homem... Se tiver que saia que ele vai aprender a não fazer gracinhas... Filhos disto, filhos daquilo, e mais uma centena de frases impublicáveis. Saiu alguém? Não saiu ninguém. Que ninguém era bobo, mesmo. Éramos só moleques e tínhamos acertado outra.

MEUS TIPOS (Yo quisiera...)


O Gilberto Alves foi a pessoa mais alegre e brincalhona que conheci. Foi funileiro e latoeiro naqueles tempos em que o plástico ainda não tinha invadido nossas vidas. Canecas, bacias, calhas e uma série de objetos, que hoje encontramos em matéria plástica nas prateleiras das lojas, saíam de suas mãos, em folha de flandres ou zinco, com um perfeccionismo impressionante. O Gilberto era mais conhecido pelo seu apelido de Picão. Sempre tinha uma história engraçada para contar e quando a iniciava, já rindo, preparava a gente para o seu desfecho hilário. Mesmo quando um causo merecia seriedade ele inseria, sério evidentemente, aquela graça que cativava os ouvintes. Figuraça. Nas suas histórias, quando os olhinhos brilhavam, podíamos esperar que vinha chumbo, e do grosso... Foi um dos melhores amigos do Papaco Velho. Juntos aprontaram à vontade e cultivaram a irreverência por esta terra do Irineuzinho. Desses dois, uma das simploriedades que mais apreciávamos era um ajudando o outro a relembrar as comemorações pelo fim da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente o discurso do Seu Miguel Aliodes. Contava o Picão que quando noticiaram a Paz, o povo foi para as ruas fazer o carnaval de sempre. Justo nesse dia, o 14 de agosto, o Prefeito Mário Correa inaugurava um gerador a diesel na Usina. E foi depois de cortar a fita que o povo se manifestou, num púlpito colocado na esquina sextavada do prédio. O Seu Miguel, que era desembaraçado para qualquer coisa, pediu a palavra e lascou um discurso: Quando Mussussolini (o Duce) invadiu a Missisalbânia (Abissínia), em el año de mil ciento e siete... Nesta altura da louvação havia a intervenção do Papaco para dizer que, fazendo as contas direitinho, havia um erro de data de oitocentos e tantos anos. Mas, o discurso inflamado prosseguia: Em esta hora, em esta hora, yo quisiera ser la gran cachorra de la Inglaterra para pisotear los alemanes y para dar uma mordida no calcanhar del Japon... E se entusiasmava o Seu Miguel exibindo a sua careca: Yo quisiera... Yo quisiera... Do jeito que discursava ele deixou a bola quicando, quicando. Quando repetiu Yo quisiera... pela terceira vez, lá do fundão, sabe? O castelhano Espanton, entrando de gaiato completou: Uma peruca postiça... E detonou o célebre discurso que ficou gravado, até então, na oralidade, como uma das mais bonitas peças do nosso anedotário.

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