Digamos que o tempo voltou atrás e que no próximo sábado haverá um baile no Salão do Doca. Você arriscaria um palpite sobre a quantidade de gente que iria, hoje?... Mas, naqueles idos, seria temerária a pergunta frente à pronta resposta. Na verdade, tudo mudou como muda a água para o vinho. Não há mais bailes do Doca. Para os saudosistas é como gato miar em tapera. Babaus! Foram-se, juntos, na mesma fornada do tempo os bailes do Beca, os do Chico Barros, os do Salvador e os do Tirso, na estrada da Costa do arroio. Vizinhos um do outro. De roldão, foram-se os bailes do Tailor, os da Casa Queimada, os do Diomar, estes na estrada do Herval, na Airosa Galvão, nos pontilhões da Ceguinha e na Divisa, nesta ordem. Os da Granja São Paulo, os do Seu Willi Peter, para os lados do Chasqueiro, e os da estrada das Capoeiras, lá no Lauro Cavalheiro, lá na Granja dos Conceição, lá no Paulo Mello, lá nos dos Mata-Burros, do Seu Pedrinho Nunes. Nunca mais os bailes do João Freitas... Quié deles, Meu Deus?! Como o tempo nos consome... Tenham piedade e não nos levem a mal: não lamentamos a falta que nos fazem, até por que hoje existem muito mais bailes, e melhores que os de antanho. O que lamentamos é este desgaste que o tempo nos legou e não nos entrega enxutos, como éramos, para as picardias. Hoje, somos pura sucatama e carregamos uma enorme saudade dos ardis que usávamos para entrar, sem pagar, nos salões de dança. Imaginem, sem profundidade intelectual, o que era assistir ao Neneco chegar, num Doginho Polara, do ano, no Salão União da Mossidade (letreiro na parede de fundo da copa) do Diomar e abrir a tampa de combustível do gerador que alimentava o som do José Iaks, para despejar um copo de cerveja? E, depois, quase ao ponto de levar uma sova dos músicos, o Felipe se apresentar como mecânico e eletricista? Era o caos total e nós todos lá dentro, por conta do imbroglio provocado. E assistir ao Doca afrouxar a vigilância na cancela do salão? Como? Simples. Para cada estação do ano um ardil. No verão levávamos uma garnisé do João Duarte para gritar até o Doca enlouquecer... Na primavera, roubávamos rosas da Praça para despetalar no portal do salão. Mais loucura... No inverno, bergamotas da Fruteira A Maluquinha, do Sílvio, para espargirmos o soro das cascas nas narinas do Doca ou inteiras, rolando salão a dentro. Loucura Total... Liberação total da cancela do salão... Quando não eram as galinhas que ele pensava estivéssemos roubando, eram as rosas, ou o assalto à quinta. E no outono, para entrar? perguntarão... Ora, para que existe a batata inglesa, cortada ao meio, e um canivete para falsificar o carimbo na mão, ou da senha, se tínhamos o Pachola para levar as almofadas, de tudo que era cor, lá do Tabelionato do Levi?Quem sou eu
Al Di Lá
Você se lembra do filme Candelabro Italiano?
terça-feira, 19 de agosto de 2008
DOCA & CIA
Digamos que o tempo voltou atrás e que no próximo sábado haverá um baile no Salão do Doca. Você arriscaria um palpite sobre a quantidade de gente que iria, hoje?... Mas, naqueles idos, seria temerária a pergunta frente à pronta resposta. Na verdade, tudo mudou como muda a água para o vinho. Não há mais bailes do Doca. Para os saudosistas é como gato miar em tapera. Babaus! Foram-se, juntos, na mesma fornada do tempo os bailes do Beca, os do Chico Barros, os do Salvador e os do Tirso, na estrada da Costa do arroio. Vizinhos um do outro. De roldão, foram-se os bailes do Tailor, os da Casa Queimada, os do Diomar, estes na estrada do Herval, na Airosa Galvão, nos pontilhões da Ceguinha e na Divisa, nesta ordem. Os da Granja São Paulo, os do Seu Willi Peter, para os lados do Chasqueiro, e os da estrada das Capoeiras, lá no Lauro Cavalheiro, lá na Granja dos Conceição, lá no Paulo Mello, lá nos dos Mata-Burros, do Seu Pedrinho Nunes. Nunca mais os bailes do João Freitas... Quié deles, Meu Deus?! Como o tempo nos consome... Tenham piedade e não nos levem a mal: não lamentamos a falta que nos fazem, até por que hoje existem muito mais bailes, e melhores que os de antanho. O que lamentamos é este desgaste que o tempo nos legou e não nos entrega enxutos, como éramos, para as picardias. Hoje, somos pura sucatama e carregamos uma enorme saudade dos ardis que usávamos para entrar, sem pagar, nos salões de dança. Imaginem, sem profundidade intelectual, o que era assistir ao Neneco chegar, num Doginho Polara, do ano, no Salão União da Mossidade (letreiro na parede de fundo da copa) do Diomar e abrir a tampa de combustível do gerador que alimentava o som do José Iaks, para despejar um copo de cerveja? E, depois, quase ao ponto de levar uma sova dos músicos, o Felipe se apresentar como mecânico e eletricista? Era o caos total e nós todos lá dentro, por conta do imbroglio provocado. E assistir ao Doca afrouxar a vigilância na cancela do salão? Como? Simples. Para cada estação do ano um ardil. No verão levávamos uma garnisé do João Duarte para gritar até o Doca enlouquecer... Na primavera, roubávamos rosas da Praça para despetalar no portal do salão. Mais loucura... No inverno, bergamotas da Fruteira A Maluquinha, do Sílvio, para espargirmos o soro das cascas nas narinas do Doca ou inteiras, rolando salão a dentro. Loucura Total... Liberação total da cancela do salão... Quando não eram as galinhas que ele pensava estivéssemos roubando, eram as rosas, ou o assalto à quinta. E no outono, para entrar? perguntarão... Ora, para que existe a batata inglesa, cortada ao meio, e um canivete para falsificar o carimbo na mão, ou da senha, se tínhamos o Pachola para levar as almofadas, de tudo que era cor, lá do Tabelionato do Levi?segunda-feira, 18 de agosto de 2008
A COBRA
A tarde cálida morria mostrando um sol vermelho lá para os lados da Barragem do Chasqueiro. No açude do Trajano os amigos ordenavam as tralhas da pescaria. O Padreco - mal chegado -, fominha por pescaria, estava com água pelos joelhos, e com o caniço de lambaris, já tirara isca para umas duas linhas. O Padreco é que providenciava linhas para todos e eles ainda estavam às voltas com a barraca, a caipirinha, o carvão, os espetos e a carne - esta o motivo maior da noitada. Quem eram os outros? O Neri, o Agrelo e o Monterinho. Cada um na sua tarefa, e todos no religioso ofício de se preparar para o churrasco que viria. Súbito, de dentro do açude, um grito do Padreco suspendeu os afazeres. Tinha sido mordido por uma cobra, dentro d’água, e, assustado, mostrava indícios de um provável desfalecimento. O Neri se prontificou a levar o quase moribundo ao Pronto Socorro da Santa Casa, enquanto os outros esperariam. Na ida o Padreco – branco - não pela picada, mas de susto, com voz sumida de doente assumido, fez um seu último pedido ao Neri: Que ele - e o pedido era feito precedido de um Por Amor de Deus - cuidasse da sua família, mormente do estudo da filha, pois, previdente, tinha economias para tanto na Caixa Econômica Federal. O Neri, que cuidava da direção dada a correria, ouvia atento e atenciosamente prometia cumprir o pedido do amigo. Chegados, examinado o doente pelo Jeorge Vernes, foi ele dado a pronto por ter sido mordido por uma cobra inofensiva e não peçonhenta. Lépido e faceiro, pronto para voltar à pescaria, o Padreco sentou-se no carro e o Néri tocou para a Associação do BB. Chegando, desceu do carro, fez a volta e abriu a porta do carona dizendo: - Pronto, estás em casa... O Padreco, não entendendo a deixa, argumentou: - Ué, não vamos voltar para a pescaria? - Não, lascou o Neri, que estava de gerente do Banco, à época. E arrematou: - Então, que qui tu tás pensando? Trabalhas comigo todo este tempo e vais prestigiar a Caixa Econômica com as tuas poupanças. Desce... Tchau!!! Com uma lua por testemunha, meia hora depois (ninguém sabe até hoje se eles sabiam lidar com linhas e anzóis), estavam os três, em companhia do churrasco e da cerveja gelada, rindo da sacanagem que o Néri aprontou ao investidor Padreco. SETE QUADRAS
Sete Quadras, Querido, Espada Nua, Catão... Seres que povoam a minha cachola e dos quais guardei o jeito de andar, de vestir, de falar, sem nunca ter me preocupado em saber os nomes de batismo. Hoje, taí..., tenho precisão e não acho quem me socorra nesta terra do Irineuzinho. No entanto, como nem tudo ao santo, nem tudo ao diabo, fiquei com a nostálgica lembrança dos momentos em que nossos destinos um dia se cruzaram. Quem esqueceria a figura do Querido, carregando um porrete que era para sua apresentação de armas. Sempre vestido com uma túnica militar, toda bordada de condecorações. Tempos em que as garrafas traziam rolha por dentro da tampinha e era só prender no tecido - por dentro uma, por fora a outra - para colocarmos mais uma medalha no peito do nosso General. Quem, dos da nossa geração, não tem uma passagem, uma pequena historia sobre o Querido? Mas, deste, e dos outros nos ocuparemos noutra olada. Agora, a figura que veio a minha lembrança foi a do Mingau da Coxilha do Fogo. Desenhozinho de estatura baixa, estranha, mala vuelta, braba que nem zorrilho, sempre carregando um relho na mão, escorada no ombro a argola e a trança de seis caindo pelas costas: era só chamar de Mingau e estava feita a porqueira. Rebolava o relho e a gurizada deitava o cabelo. Nos idos de cinqüenta, teatino lá das Cacimbinhas, veio ainda moço, morar na cidade, o Timotéo, pessoa de estatura alta, enorme, e de índole arruaceira. Vai daí que, sabedor do apelido do baixinho entonado lá da Coxilha, resolveu implicar para ver no que dava. E assim foi feito. Um dia, o Timotéo esperou ele descer a Doutor Monteiro, entrar na venda do Seu Hernandez e, à sua saída das compras, implicou: - E aí ô Água Com Farinha?... Tamanho não é documento, hein?... Não prestou! O ofendido tirou a maleta do ombro, passou o relho para a mão direita, e com um olhar de fúria, de cima para baixo acompanhando a altura do outro, entesou: - Aquece a água e mistura com a farinha. Aquece, aquece... Mistura, mistura... que tu vais ver o que é bom prá tosse... quinta-feira, 26 de junho de 2008
O latinista (Ad argumentandum tantum)
O Doutor Lauro Medeiros de Albuquerque, advogado, professor, criador, pessoa de proeminência na cidade, era um apaixonado por história e por latim. Dava gosto ouvi-lo quando o tema em aula era a Guerra do Paraguai. Só ele se referia à Batalha de Tuiuti, a mais sangrenta de todas, com tanta vibração, com tanto enlevo nos gestos. Osório, o vencedor de Tuiuti; Caxias, o comandante vencedor das forças brasileiras, em Itororó, Avaí, Lomas Valentinas e Angostura. Vibrava quando se referia aos Voluntários da Pátria, à armada brasileira, às famosas retiradas, aos ataques majestosos do exército imperial. Tudo, na voz desse saudoso professor, mexia com o nosso ufanismo. Só ele esparramava latim com tanta propriedade. A nossa atenção às suas explanações sempre valiam boas notas, muito mais que as sabatinas. Como causídico, também brilhava com seu latim pelos plenários de Júri. Num deles, no Herval, em que abraçava uma tese de legítima defesa, o Doutor Lauro exaltava, em latim, um episódio sobre Assis Brasil, tido em seu tempo como um exímio atirador de arma de fogo: Atacado em campo aberto por um touro, errava os disparos contra o animal. – E olhem que era o Assis Brasil – repetia o orador... O plenário silencioso escutava atento. Atuava na parte contrária o Doutor Cândido Norberto que, em dado momento, lá pelo quinto tiro errado, não se conteve e lascou a pleno pulmão: - Eh! Touro de sorte!... Assim era. Vagam pela nossa lembrança, ainda com o mesmo vigor daqueles tempos ginasianos, as expressões latinas que ele tinha paixão em apresentar com as prontas traduções. Brocardos que ele cultivava, além das suas lides forenses, nas aulas de história, no encontro com amigos. Aforismos que brotavam com naturalidade, com exagero, até. In illo tempore, dizia, quando se referia ao passado. Se alguém o cumprimentasse, quando a caminho do Foro, lá vinha latim: Hoc opus, hic labor est. Frente às situações ou provocação entre estadistas, nas notícias de jornal, nascia um abyssus abyssum invocat... Contava o poeta Lauro Machado, que estando um dia o seu cunhado Mário à porta de casa, ao sol, cumprindo a tarefa de colocar remédio no nariz do Paulinho Carriconde, à época um menino de cinco anos, foi surpreendido pelo cumprimento do Doutor Lauro, que por ali passava: - Bonus pater familiae, que fazes? O Doutor Mário, sem largar o queixo do filho, espremendo o conta-gotas, calmamente respondeu, em bom latim: - Butare remedius nauseans infantibus. Só para argumentar...O Mediador
O desfecho da briga do Otacílio da Currucha com o Cabeça, na década de cinqüenta, serviu de mote para terminar outra encrenca que aconteceu, muitos anos mais tarde, entre contendores diferentes. O motivo desta desavença foi um comodato de terreno entre o Velho Pereira e a Dona Joana, mãe do Ataíde Pipoqueiro. Quando ela ficou velhinha o filho pipoqueiro resolveu por em dia os teres e haveres da mãe. E, dentre eles, havia uma nesga de terreno que ela cedera ao Seu Pereira, para que o caminhão deste pudesse manobrar melhor ao entrar na garagem. Ora, o Velho, já não tendo mais o caminhão, acreditava que o terreno, que nunca tivera cerca, pela perda da serventia, também estivesse fora de sua posse, sem necessidade de entrega solene. O outro, preocupado com o patrimônio da mãe, acreditava que o Velho ia ficar de dono do terreno. E foi assim, num clima de animosidade por parte do Ataíde, que ele procurou o Velho para por em dia a questão. Com conversa daqui, conversa dali, num rodeio verbal já indo longe, o Ataíde enfim entra no assunto que o Castelhano Pereira já esperava. Não terminou de falar e começou a xingação em portunhol, e dali foi tudo rapidinho para as vias de fato. Depois de dar uns quantos tapas no Ataíde, o Velho se enfureceu e passou a atacá-lo com pedaços de tijolos que havia no aterro da rua. Com um último tijolaço no peito e todo lanhado no rosto o Ataíde Pipoqueiro acabou indo para o plantão da Santa Casa. E foi lá que o Tité, sabedor da briga do pai e preocupado com a confusão que redundaria em processo, foi levar seus cuidados e apoio ao infeliz pipoqueiro. Prontificou-se a acertar despesas com curativo e analgésico tudo para ver se dourava a pílula. Mais, queria levar o ferido para casa poupando-o de uma dolorida caminhada. Desculpava-se pela ação errada que o pai praticara, e, sobretudo, enaltecendo a harmonia que sempre existiu entre vizinhos, aplicou um golpe de misericórdia no Ataíde: Agradecia-o por ele não ter sovado o Pereira, que já era um velho e coisa e tal. Resultado, dando uma bomba dessas no Ataíde, a coisa morreu por ali, sem inquérito, sem polícia, numa boa... Tio Julio
Tio Júlio, ou Vô Júlio, como o chamava. Na verdade era um tio-avô. Da sua figura o que mais lembro eram os óculos parecidos com os que imortalizaram a figura do John Lennon: lentes redondas e com um aro fininho. Ah! Não esqueci também o permanente uso de colete. Num bolso ele trazia o relógio com a corrente de ouro, presa na casa do botão e, no outro, a faquinha para picar o fumo crioulo. E dá-lhe palheiro! Até hoje, ao lembrar a sua figura bonachona, meus sentidos parecem entrar em contato com o agradável cheiro daquela fumaça e o aroma daquele pito. Era criador e, como paixão maior, gostava de lidar com Frutos do País, como eram chamados os couros e pelegos que ele saía a comprar pelo interior do município. Tinha como ajudante o Cirilo, um dos filhos solteiros que estava sempre à sua volta. Certa feita, quando o Seu Amaro Caetano, também comprador de couros e pelegos, comprou um Modelo A, da Ford, para substituir a carroça, o Vô Júlio observou ao Cirilo, apontando o cano da descarga do automóvel: - Vês, Cirilo, aquela fumacinha? Pois ali vai todo o dinheirinho dele! Mas, uma semana depois da observação, quando pai e filho puseram o faeton na estrada para comprar couros sentiram a dura realidade dos tempos: O Seu Amaro, no guarda-louça, já tinha comprado primeiro tudo que era pelego e couro da campanha, numa passadinha, já que agilizara o modo de negociar. Não deu outra. Foi de imediato que o Vô Júlio mandou o Cirilo para a cidade, com dinheiro no bolso e uma recomendação: - E não volta sem me trazer um automóvel do ano, e faeton, para a gente driblar a concorrência. Comprado o carro os negócios prosperaram, por anos a fio. O Cirilo foi o seu motorista, também, quando adquiriu um moderno caminhão da marca Fargo para continuar envolvido nos negócios de Barraca, como ele dizia. Lembro o dia em que o Cirilo, já madurão de idade, casou. A Cerimônia foi na Igreja. Na hora H chegaram para o casamento os dois, pai e filho, acompanhados do Tio Olívio. Desceram a calçada da Praça e o Vô Júlio, manheiro, ainda deu uma fumada no puxo de palha, antes de amassá-lo na areia da rua. Atravessaram na diagonal e subiram, proseando, os degraus da Igreja. Quando entraram, ai Minina! O Vô Júlio, cara-a-cara com aquela imensidão do templo, admirado, olhando a nave arredondada, lá em cima, não se segurou: Mas, Olívio, que Barraca bem linda dava isso aqui! O que ia caber de couro e pelego... Já viste, tchê?quinta-feira, 19 de junho de 2008
CAFÉ CAPRI
Anos sessenta. Estávamos reunidos numa mesa ao canto, com o janelão à nossa frente, numa roda de cafezinhos e martelos. À espera, claro, dos bolinhos de carne da Maria da Currucha que o Dé trazia, costumeiramente, ainda bem quentinhos, aos fins da tarde. No balcão não estava nem o Tritri, nem o Aldi para atender-nos. Apenas o proprietário, o Seu Ciro, a olhar para a nossa mesa com um olhar perdido. Nada falava, nem nada perguntava. Nós, também em flirt, nada solicitávamos embora precisássemos de um pequeno abastecimento de água ardente. Foi quando surgiu uma idéia: Vamos fazer um requerimento pedindo mais outro martelinho? E, nele, dando ao Seu Ciro um largo tempo para nos servir? Dito. Feito. Com o escritório bem pertinho do Café, em minutos o documento foi elaborado e protocolado no balcão: Ilmo. Sr. Ciro.... Nós (Sérgio Canhada, Marta Rocha, Renato Müller, e Outros), vimos pelo presente, respeitosamente, perante Vossa Senhoria, requerer, dentro das próximas quarenta e oito horas, se não for incômodo, seja trazido até nossa mesa mais um martelinho. Pedem atendimento, Arroio Grande, etc... À medida que lia o velho foi perdendo a cor e, brabo, deixando o papel em cima do balcão, saiu para os fundos do salão. Para a nossa cabeça estava a porqueira feita... Voltaria armado para uma briga? Era esperar para ver no que daria a picardia. Minutos depois, quando voltou, para a nossa surpresa, trazia um copinho que encheu com a branquinha. Depois, vindo em direção à nossa mesa, antes de colocar o martelinho sobre ela - e olhando, justamente para mim -, lascou: Isso só pode ser coisa tua!... Mais outra doma ali no Café?... Bem, aquela tinha passado! Mas, aconteceram outras passagens, inúmeras... Como a da noite em que tinha baile no Doca e o Aldi estava de atendente. O Macksoud, sabendo que o Arnaldo se dirigia para o Café, sem um tostão no bolso, avisou-nos - os mesmos de sempre -, da molecagem: atara numa nota de dinheiro, à época de importância considerável, um fio de náilon, quase invisível de fininho. Abrira uma fresta nas portas internas do balcão que tinha vidro na sua frente e, dali, observaria a nota de dinheiro no chão de jeito a pescá-la antes de ser agarrada e acabar em prejuízo a brincadeira. Não deu outra. O Pila chega, avista a nota no chão, espertamente segura no osso do peito, e pede um cafezinho. Em seguida, disfarçando ajeitar a meia, faz a primeira tentativa. Dali donde fresteava o desfecho o sacana, vendo a mão do outro aproximar-se da nota, dá uma puxadinha no fio e coloca-a mais para baixo do balcão. Mais um trago no cafezinho e o Pila dá a segunda investida: Disfarça para arrumar a outra meia e passa a mão no chão. De novo, não vem com nada... O bandido, lá do outro lado do balcão, tinha dado mais um puxãozinho para dificultar a manobra. Resultado: Não demorou muito e o coitado, noutra tentativa desesperada, tendo perdido toda a noção do ridículo, estava, de terno e gravata, como viera vestido, deitado no chão, agora, com todo o braço embaixo do balcão, procurando a nota que salvaria o seu baile no Doca. Não lembro quem não agüentou, e riu. Mas, não esqueci a cena. Ofendido, o Arnaldo foi para a porta do Café. De lá, brabo, numa sujeira lamentável, bradava: Aqui não tem homem... Se tiver que saia que ele vai aprender a não fazer gracinhas... Filhos disto, filhos daquilo, e mais uma centena de frases impublicáveis. Saiu alguém? Não saiu ninguém. Que ninguém era bobo, mesmo. Éramos só moleques e tínhamos acertado outra.MEUS TIPOS (Yo quisiera...)

O Gilberto Alves foi a pessoa mais alegre e brincalhona que conheci. Foi funileiro e latoeiro naqueles tempos em que o plástico ainda não tinha invadido nossas vidas. Canecas, bacias, calhas e uma série de objetos, que hoje encontramos em matéria plástica nas prateleiras das lojas, saíam de suas mãos, em folha de flandres ou zinco, com um perfeccionismo impressionante. O Gilberto era mais conhecido pelo seu apelido de Picão. Sempre tinha uma história engraçada para contar e quando a iniciava, já rindo, preparava a gente para o seu desfecho hilário. Mesmo quando um causo merecia seriedade ele inseria, sério evidentemente, aquela graça que cativava os ouvintes. Figuraça. Nas suas histórias, quando os olhinhos brilhavam, podíamos esperar que vinha chumbo, e do grosso... Foi um dos melhores amigos do Papaco Velho. Juntos aprontaram à vontade e cultivaram a irreverência por esta terra do Irineuzinho. Desses dois, uma das simploriedades que mais apreciávamos era um ajudando o outro a relembrar as comemorações pelo fim da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente o discurso do Seu Miguel Aliodes. Contava o Picão que quando noticiaram a Paz, o povo foi para as ruas fazer o carnaval de sempre. Justo nesse dia, o 14 de agosto, o Prefeito Mário Correa inaugurava um gerador a diesel na Usina. E foi depois de cortar a fita que o povo se manifestou, num púlpito colocado na esquina sextavada do prédio. O Seu Miguel, que era desembaraçado para qualquer coisa, pediu a palavra e lascou um discurso: Quando Mussussolini (o Duce) invadiu a Missisalbânia (Abissínia), em el año de mil ciento e siete... Nesta altura da louvação havia a intervenção do Papaco para dizer que, fazendo as contas direitinho, havia um erro de data de oitocentos e tantos anos. Mas, o discurso inflamado prosseguia: Em esta hora, em esta hora, yo quisiera ser la gran cachorra de la Inglaterra para pisotear los alemanes y para dar uma mordida no calcanhar del Japon... E se entusiasmava o Seu Miguel exibindo a sua careca: Yo quisiera... Yo quisiera... Do jeito que discursava ele deixou a bola quicando, quicando. Quando repetiu Yo quisiera... pela terceira vez, lá do fundão, sabe? O castelhano Espanton, entrando de gaiato completou: Uma peruca postiça... E detonou o célebre discurso que ficou gravado, até então, na oralidade, como uma das mais bonitas peças do nosso anedotário.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Meus Tipos
O Rosalvo Pitanga, negro retinto, como o apodo explica, prestou serviços, por muitos anos, na Wilson & Sons, multinacional inglesa que operava com Barraca em nossa cidade (para os mais novos, as atividades destas barracas consistiam em comprar couros vacuns, pelegos e lã de ovinos denominados de frutos do País). Rosalvo, após desligamento do emprego, ganhou de presente dos ex-colegas uma carroça bem pintadinha, com os letreiros de “Faço Frete”, nas laterais, com a qual se iniciou no ramo de fretes. Assim, passou a ganhar seu sustento, e mais o da sua prole, ali mesmo, defronte à casa que lhe empregara por longos anos, onde faria fretes para a casa de materiais de construção do Andres, que ficava, à época, a bem dizer, porta com porta. Corriam os dias... Diariamente, o Rosalvo estacionava seu veículo na calçada e ali ficava, sempre vigilante, lagarteando ao sol, à espera dos fretes. Certa vez, manhã linda de sol, com a carroça, por um motivo desconhecido estacionada um pouco adiante, à porta da garagem do Jorge Soares, acabou vítima de uma molecagem que ilustra o anedotário da cidade: O Rosalvo Pitanga, encostado na janela da barraca, observava seu veículo. Petiça atrelada, com os corriames ainda em forma, e as letras que anunciavam a sua atividade. Distraído, apreciava o presente ganho e matutava sobre o futuro... Sorria, mostrando a quantidade imensa de dentes que - como dizia o Seu Venâncio - Deus lhe dera por natureza. Foi, assim, que o Jorge, vendo que ele estava meio longe, saiu à porta, quase de costas para ele, como se ninguém estivesse na calçada e se chegou para perto da carroça. Com a mão na testa, como se o sol o atrapalhasse, e simulando dificuldade em ler o que estava escrito na lateral do veículo, soletrou, em voz alta, para que fosse ouvido pelo Pitanga: “Es-ta-ca-rro-ça-é-de-um-vi-a-do. Dito, sem se virar para o lado onde estava o Rosalvo, entrou para sua garagem. Entrou e ficou esperando o efeito da frase que soletrara. Não deu outra. Foi prá já e o Rosalvo, de fininho, subiu na carroça e deitou o cabelo em direção à oficina do Adão Bidiva. Sumiu por coisa de meia hora. Na volta estacionou a carroça no mesmo lugar. Mas, agora, com os letreiros todos borrados e apagados com tinta preta: O Rosalvo Pitanga, por não saber ler, tinha embarcado na gozação do Jorge e tirado o letreiro que, supunha, dizia muito mal do seu estado de feliz carroceiro!!!A Visita
Figueirinha, manhã bonita. O cordeiro mamão recém carneado esfriava enganchado na trave do galpão. O Velho Lauro fazia uma enorme fogueira de branquilho à espera da carne e o Nitinho, o aniversariante, falquejava uns espetos de pitangueira. Tinham combinado um churrasco e a canha já rolava a bom pedaço. Nisso, numa falha do valo de árvores da beira da estrada, deu pra avistar o Irani, conhecido deles e morador lá do Quilombo, montado no rosilho magro. Chegaria, como sempre, para matar a bóia. Acostumado no expediente, ele era useiro e vezeiro em dar uma passada na casa dos vizinhos, ou conhecidos, da beira da estrada, perto da hora de almoço. Então, quando tinha milharal na vizinhança, disfarçadamente, ele metia o matungo numa lavoura alheia e se chegava com as garras nas costas, com a desculpa de que o animal ficara pastando no corredor. Nesse dia, os amigos, que broma! Olharam-se no maior desânimo do mundo pela inusitada visita. O Irani, faceiro por ter enxergado fumaça, e a cachorrada brigando por uns bofes perto da mangueira, se chegava para a sombra da figueira onde se pendurava o charque. Desceria do cavalo e afrouxaria o basto, devagarinho, sem muita pressa... O Velho, amuado com a visita, não pensou duas vezes e arriscou um plano: recepcionou o Irani com dois latões de querosene, daqueles de vinte litros, dizendo: Que bom! Foi Deus quem te mandou, cara! Vamos matar a porca – e deu uma olhada em direção ao chiqueiro -, estamos precisando de ajutório... E saiu com as latas à espera do resultado. O Irani, paralisado, olhando para o chiqueiro, para a enorme porca, que não caminhava de tão gorda, pegou o peão na unha e emendou uma saída honrosa: Tchê! Cheguei só pra dar um cumprimento e apertar a cincha, tenho de chegar à cidade antes do meio-dia... O Lauro, no açudezinho, fazendo que enchia as latas de água, por cima do ombro apreciava a cena... O Irani nem chegou a ver o Nitinho e já estava na estrada... Com o rosilhinho a trote frouxo, de certeza certa, foi matar a bóia logo ali, no primeiro conhecido que tivesse milharal por perto. Eta, Figueirinha!Os Macacos
Apelidos. Aqui, onde existe uma grande diversidade da fauna com ratos, gralhas, galos - vários deles suficientemente repetidos -, temos muitos macacos: o louco, o gordo, o pedreiro, o rabão e outros... Pois, para supremo gozo da molecada, o Seu Alvim tinha dois apelidos: Um da fauna e outro da tecnologia da época: Macaco e Caminhão. E nós, que, seguramente, não o poupávamos, temos muitas histórias na lembrança. Uma delas:Domingo. Fim de uma invernada braba, tapete verde completamente encharcado, no campo de futebol do Esporte Clube Arroio Grande. O Seu Belinho Hernandez, debruçado na cerca do campo, olhando uma partida do seu time, que enfrentava um adversário castelhano daqui da Coxilha, vendo que o Alvim Caminhão se aproximava devagarzinho, como era costume, cumprimenta-o muito respeitoso. Ato contínuo, com o humor, olhando para o chão, avaliando aquele imenso lodaçal, aquele barreiro de dar medo em galochas, lascou: - tu deves ter chegado aqui com muita facilidade, Alvim... Prestou atenção para uma jogada em que o Tritri atrasou a bola para o Jamel, e completou: Foi só colocar umas correntes nas rodas e vieste no bem bom... Ao que o Alvim Caminhão, em enorme desamparo, se lamentou: - Pô! Até o senhor, Seu Belinho!
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Negro, com tez amulatada, vindo das bandas do Herval, o Alvim era maleiro na estação rodoviária e tinha como paradeiro uma pequena peça cedida no Hotel do Seu Chico Bonneau. O Alvim era baixo, gordo, com a testa achatada e os braços pendidos ao longo do corpo. Suas pernas tortas em ganchos, em tudo davam razão ao outro apelido, principalmente por seus olhinhos pequenos e redondos, muito juntos do nariz, no meio dum carão imenso. Sempre com as mãos torcendo pedaços de arame a envelopes de sonrisal jogados fora. Xingava meio mundo quando era chamado por apelido. Às vezes, com preguiça de soltar o verbo – por que não havia nenhuma mulher por perto, para ouvir as bandalheiras que saiam da sua boca - até deixava passar nossas brincadeiras quando buzinávamos a sua passagem. Mas, para nossa saudade - saudade mesmo -, se o chamássemos de Macaco Rabão, ele diminuía o passo e se postava virado para o rumo da zombaria, desfiando uma infindável coleção de bandalheiras... Minha Nossa! Valia a pena!
quarta-feira, 21 de maio de 2008
A Lixa
O Cidoca, a despeito de não saber ler nem escrever, tinha como recurso uma muito boa memória. Seguidamente ajudava o Jaime, seu cunhado, no armazém que este tinha na rua Dr. Dionísio. Neste mister, as latas de compotas, sardinhas, leite em pó e outros artigos, quando as prateleiras eram arrumados pelo Cidoca, corriam o risco de se apresentarem de pata para cima, posto não ter ele a mínima idéia de que as letras tinham uma determinada regra para serem lidas. Para ele o que bastava para conhecer o produto era o desenho da lata. E, neste particular, a figura de um pêssego, duma sardinha, ou de uma rodela de abacaxi, sempre estaria corretamente disposta em qualquer sentido que se apresentasse o que não deixava de ser lógico, em se tratando de estampas. E, no affair de caixeiro, quando se enquadrava de apontar os pedidos de livreta, ele usava o recurso da boa memória e ditava, para o Jaime, quando este voltava ao armazém, sem errar tin-tim por tin-tim, qual cliente e a mercadoria que deveria ser anotada. Vai daí, o Cidoca, além da memória, como atributo, era muito brincalhão e não era avaro em esparramar seus chistes no trato com as pessoas. Prova disso, um dia, a Dona Tetê, vizinha e freguesa da venda, aproveita a oportuna presença do seu afilhado Toquinho, que lhe acompanhava em casa, para que ele fosse até a venda do Jaime para trazer, na livreta, um rolo de papel higiênico - e que fosse correndo. Pede e se manda para o banheiro, dor de barriga, sei lá... O guri, bem mandado, chegando à venda, faz o pedido ao Cidoca, que no momento estava de balconista. Sem calcular a pressa do Toquinho, que viera em correria, o balconista improvisado enrola uma lixa de madeira, nº 100, e lhe alcança. Assim que botou a lixa na mão o Toquinho deita o cabelo de volta como viera, sem dar tempo ao Cidoca de desfazer a brincadeira que iniciara. Bem, o guri, chegando dentro de casa, com a encomenda, bateu na porta do banheiro e entregou o pedido para a madrinha... O resto da história conte o afilhado da Dona Tetê que está aí, são de lombo e foi o protagonista!A Rifa
O Dé foi garção, por anos, no Restaurante da Dona Maria Camerini. E, como havéra de ser, muitas vezes, incontáveis vezes abusávamos da sua ingenuidade. Mais, abusávamos da bondade dele. No entanto, diga-se, a bem da verdade, ele também se aproveitava da situação e tirava a sua casquinha. Constantemente, ora apresentando um Livro de Ouro, ora oferecendo uma rifa para ajudar o Clube Guarani, ou fosse promovendo um evento que exaltasse as mulatas - sempre lindíssimas -, ele chegava e dava a facada. Certa feita, hora de almoço no restaurante, ele já tinha vendido vários números de uma rifa e eu estava sentindo que chegava a minha vez de também marchar com um número, sem que me assaltasse uma idéia para fugir da situação. Lá pelas tantas, às escondidas do Dé, perguntei ao Zé Antônio Franco, que na oportunidade tinha a rifa na mão, fazendo seu palpite, se o treze já estava vendido. Estava. Avaliada a informação, antes que chegasse a minha vez de comprar, chamei a atenção do Dé para que ele reservasse o treze para mim, e esperei. Quando a rifa chegou às minhas mãos, enquanto dava a desculpa de que o único número que me servia já estava vendido, li o nome da compradora: Maria do C. Rosado - com o prenome abreviado -, pessoa a quem eu não tinha a mínima idéia de quem fosse. Vendo o nome, tão sugestivamente grifado, perguntei ao Dé, sacanamente, fazendo um gesto de rosquinha com o polegar e o indicador, quem era a compradora que tinha o cê rosado, que eu gostaria de conhecer. Lembro que fui levando na brincadeira e acabei não comprando nenhum número daquela rifa. Passaram-se os anos... um dia, prestando favor a uma amiga, busquei uma torta de amendoim na casa da Dona Carminha, que morava na esquina da Praça da Matriz. Foi bater na porta e ela, atendendo, olhou-me, surpresa, e lascou: u quê?! Ainda ti animas a pisar no meu portal? - Esqueceste aquela vez que o Dé veio chorando me contar aquela sem-vergonhice tua? -Eu, Dona Carminha?... E ela: - Sujera, no meio de um mundo de gente, lá no restaurante do Caixeiral, mexendo que eu tinha aquilo vermelho?! Ti manda daqui!... Maria do Carmo Rosado, Dona Carminha, número treze naquela rifa... (Depois me queixava que as coisas estouravam sempre em mim...).domingo, 27 de abril de 2008
Destinos
O Seu Alcidezinho foi famoso como relojoeiro na cidade. Sua primeira pergunta de cunho profissional ao cliente com o relógio emperrado tinha três partes: Este relógio caiu no assoalho, no chão duro ou na areia? Frente a qualquer das respostas vinha à luz, invariavelmente, sempre o mesmo diagnóstico: - Então, enredou o cabelo... E, assim, não havia surpresa nenhuma quando um gozador saía com uma sugestão de colocar um pouco de glostora, de óleo de mocotó ou da seiva fervida de babosa, para ver se a máquina desempacava. O relojoeiro ficava amuado, mas não repugnava o ministério se atirando com suas ferramentas ao conserto da máquina. Fuçando daqui e dali, fosse ou não fosse o cabelo, cada vez que um relógio botava para funcionar o cliente saía elogiando, cada vez mais aumentando a fama profissional do Seu Alcidezinho. Mas, deixa, que certa feita, a compostura de relógios andou por baixo e o nosso amigo teve que inventar um bico para sair da situação. Deu-lhe na telha, pois, de fazer baile de campanha. Tudo num belo salão de leiva que construiu para tal fim, lá no Passo do Simão, bem ali na entrada do Corredor da Dona Bibica, meio de esguelha com a venda do Telista. Num dos bailes, lá pelas tantas da madrugada, com o lampeãozinho Colemann afiadíssimo, como ele mesmo dizia, depois de um check up, e os pares levantando a poeira do chão batido, ele notou que uma rapaziada dali mesmo do Passo fazia algazarra em tom de deboche. Não deu outra. Irritado, pede para o Planchão parar a gaita de botão em que fazia dupla com o Bernardo ao violão. Pôs bem no centro do salão uma barrica de rapadura que ganhara na venda do Miguel Aliodes, subiu nela e começou um interminável discurso em que descascarreava os moços inconvenientes. Súbito, o Nenê do Abílio, de conversa com o Volmer, debochando do chazinho, deu uma gaitada, a todo pulmão, que ressoou pelo salão. Foi a deixa para que do discurso em que falava no benefício que o divertimento de um baile fazia aos pobres, o Seu Alcidezinho se enfurecesse soltando impropérios ainda hoje impublicáveis. Foi tamanha a virulência do discurso e os pulos que ele dava que a barrica acabou desfundando. Baixinho do jeito que ele era só ficara aparecendo seu corpo dos ombros para cima. Na ridícula posição em que foi parar, tendo as pernas e braços imobilizados, de dentro da barrica lançava aos circunstantes um olhar de súplica por socorro. Em sua ajuda uma boa alma teve a idéia de virar a barrica. Deu certo. Ele se safou rastejando, fazendo senha e gritando para os músicos: Dê-lhe uma valsa. Aquela do Pedro Raimundo... Depois, ante as perguntas que lhe faziam sobre o incidente do baile - cumprindo um destino inexorável - ele acomodava a resposta: - Aquele baile não foi nada disso. Ele tava que era um relógio, com o cabelo bem azeitadinho...
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