Al Di Lá

Você se lembra do filme Candelabro Italiano?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Conto Curto

Eram três irmãos... Chico, Zé e Mário. Éramos mais chegados ao Mário por ser ele frequentador do Café. Isso quando estava na fase de euforia bipolar. Na fase depressiva ele ficava na janela de casa, bem defronte ao Clube do Comércio. Passasse quem passasse e desse seu cumprimento, o Mário nem sequer piscava um olho, não mexia a sobrancelha. Mas, quando saía da depressão... Nossa!!! Falava pelos cotovelos. Ladainha para ouvido nenhum botar defeito. Emendava períodos e mais períodos numa cantilena sem fim. Não era de muito brinquedo. Quando a coisa engrossava para o lado da molecagem ele nos dava um trancasso soltando as patas. Porém no geral era um cara doce. Quando ficava de presidente do Clube deixava a gurizada taluda entrar sem pagar as mensalidades. Era um pai... Circunstância que, inobstante a bondade, não nos impedia de sacanearmos ele: Um dia, dos de euforia, chegou no Café a cavalo. Gaúcho de gosto, mesmo: aperos de prata no pingo reluzente pelo trato do milho, rebenque com talo de prata e ouro, defeito nenhum... Desceu, soltou as rédeas no chão, deixou-o desmaneado. Da vitrine vimos a chegada dele. Entrou já pedindo um cafezinho para o Tritri. Pedi ao Canhada para fazer-lhe uma indagação qualquer que o distraísse e desse tempo de roubar o cavalo para escondê-lo no pátio da Usina Velha. Não era bola de futebol, era cavalo, mas ele deixou a coisa quicando... quicando... Era só dobrar a esquina. Era vapt-vupt e não tinha vivente que perdesse uma oportunidade tão gloriosa. Não deu outra... O ruim de ser o protagonista nessas picardias é que eu não assistia aos desfechos. As coisas nasciam com uma velocidade extrema. Havia um átimo para a realização da molecagem. E, feita, a gente tinha que desaparecer. E não passar na frente do desgraçado por dias. Precaução necessária para que as vítimas, à simples vista da gente, não lhe desse na telha a descoberta duma autoria qualquer. A cidade, por ser pequena, e não nos brindar com os entretenimentos que hoje estão por aí, nos obrigava a ser criativos, mesmo que cáusticas fossem as molecagens. Outra vez, na mesa do Café com o poeta Lauro Machado, o Canhada e o Marta, chegou o Mário que recém descera do ônibus. Dependendo da fase ele aparecia. Vinha de Pelotas. Tinha ido a filha para lá e ele seguiu-a mudando-se para outra cidade. Sem dó da Terra Natal. Sentou numa mesa ao lado da nossa e começou a cantilena dizendo que ia para o peixe... Tia Rosa, Cizica, Marina ou o que viesse... Ia só tomar um cafezinho para depois chamar o carro-de-praça do Oscar ou do Nelson. Alto e bom som dizia que não haveria de ter puta pobre... Já tinha pedido ao Tritri para guardar a malinha quando se lembrou de tirar um lenço: teria a Diva colocado um na mala? Abrindo-a, a primeira coisa que cai: um babeiro. O Beto da Heloísa era de colo, ainda. O babeiro viera no meio das roupas. O Seu Lauro olhou para nós como quem pedisse socorro: Que cena: o assunto era um e o objeto caído da mala outro. Mas bem que podiam entrar num contexto. O Seu Lauro tinha uma ruga em cada canto dos lábios: na expressão do descontentamento as rugas tomavam tristes formas, desciam para o queixo. Nas ocasiões ridículas as mesmas rugas se invertiam e subiam em direção às orelhas. Era fácil ver que ele já tinha intuído uma bobagem qualquer. Só que não seria tão logo ele a implicar com o Mário. Ele o mais velho na mesa. Sobrávamos nós... O Marta, que tinha os olhos para dizer o que pensava nos olhava... Tinha molecagem para dar e vender naquele corpo... Então, só fez uma senha e levantou-se enquanto eu, rodava o babeiro com o dedo indicador esperando a arrumação da malinha. Ía embora o Marta. Da porta, vendo o Mário juntando os últimos mijados para fechar a mala, pediu: - Seu Mário, não se esqueça de trazer o babeiro de volta. E me dê ele de presente, que eu quero usar um, também, quando for no puteiro. E deitou o cabelo...
Os Irreverentes

Deixando de lado os irreverentes da literatura, por serem ficções, guardo lembrança de quatro que foram de carne e osso: O Doutor Chico, o Zé Amaro e o Paulo Brasil do Amaral, todos de Pelotas e, daqui, o João Fernandes, por apelido Marta Rocha. Todos frequentadores do Café Aquarios. O Paulo foi advogado e jornalista. Freguês cativo do antigo Cherri, onde se deliciava, depois do trago, com o famoso Colchão Alemão, que era o carro-chefe da casa. Dias de chuva ele desfilava pela Quinze com uma capa preta com forro de baeta vermelha. Tirava o chapéu Prada para cumprimentar, principalmente os transeuntes femininos. Tinha verve o Paulo. Era amigo dos outros três irreverentes citados. Mas, era mais amigo, do Marta Rocha. O Paulo, quando a Rádio Nacional era o top de linha da comunicação, a rede Globo de hoje, mais famoso meio de comunicação do Rio e do Brasil, forçou uma despedida, com direito a indenização: Certa tarde, encerrando uma programação em que ele era o comunicador, despediu-se do público com uma frase super debochada: E aqui se despede o loirinho mais gostoso do Sul do Brasil... Rá, ré, ri, ró, rua!!!

..............................................................................

Depois, deste, falo no Zé Amaro. Filho da famosa cantora lírica Hervalense, Zola Amaro. Nas andanças pelo mundo, quando a mãe fazia suas temporadas nos grandes teatros europeus, o filho sempre a acompanhava e de cada um desses cantos do mundo trazia os seus conhecimentos. Era extraordinário quando falava. Prendia a atenção dos amigos. O Zé, não sei se poderíamos chamá-lo de rapaz divertido, ou entendido: gostava só de rapazes... Era espirituosíssimo. Pegava o pião na unha, sempre. Poderíamos, também dizer que ele era, como se diz hoje?, Bucha... Era Bucha meter com ele... Na época das ignóbeis ditaduras do Cone Sul, o Zé Amaro passava na calçada defronte ao Aquário, quando ouviu um dos gozadores do Café dar-lhe a pecha de Tupamaro - que era a marca registrada do terrorismo uruguaio. Nem pensou para revidar: Virando-se para trás, com o dedo sentenciando o gracioso que lançara o apelido, soltou sua graça: Tupamaro, não. Puto Amaro, Tá??? Outra vez, caçando na Praça Pedro Osório, naquele cantinho dos laguinhos, das carpas vermelhas, onde nasce a Butuí, foi surpreendido por uma batida policial à prostituição. Fugindo, subiu num frondoso jacarandá que até hoje existe, e tá lá de prova... O brigadiano, perdendo a paciência, àquelas alturas, brandindo um cassetete vituperava: - Se tu não desceres daí, te baixo a pau... O Zé Amaro, nas alturas respondeu: - Calma, Seu guarda! Não vê que eu sou fruta?... Espera que eu amadureça e caia... Era de morte! Dele, também, outra: Caçava ele um garoto de programa, na época chamados de michés, e acertavam o contrato verbal de prestação de serviços. Difícil se acertarem no preço!!! O bolso do Zé Amaro não tinha mais que uns trocados. Mal davam para comprar uma porção de loló. O moço estava renitente. O Zé, cargoso, soltava lábia pra cima do miché. - Tudo bem, disse o garoto. Por essa mixaria eu vou, mas só boto a cabecinha... Mais que isso só vendo os pilas na mão. Senão, não... E se foram para o banheiro do Aquários... Pois, em dado momento, um cliente estouvado abre a porta, porta de banheiro, privada ou patente só abre prá dentro. Segurança é isso... Pois, como dizia, o cara abriu a porta e deu um safanão na bunda do guri. Minha Mãe de Deus!!! Ah! Se a coisa tivesse ombro, não vinha tanta gente ao mundo... O Guri afogou o ganso até a cola. O que não estava no trato... O Zé Amaro, espirituoso e correto com o garoto só teve a saída de dizer: - Tô endividado pro resto da vida!!!

..................................................................................

Outro irreverente impagável foi o Doutor Chico. Os pelotenses que o digam. Eles o conheceram bem. Tratava as gonorreias de estudantes da Agro e da Técnica sempre sem cobrar nada. E ainda não os deixava ir embora sem as amostras grátis de remédio. Consulta e remédio nunca faltou para guri engalicado enquanto o Doutor Chico prestou seus serviços médicos. Só tinha uma coisa. O estudante entrava pela porta, mas saía pela janela. Depois da consulta ele dizia, abrindo a janela do escritório: - Agora, pula prá calçada que eu te alcanço os remédios... E vê se te cuidas mais desses cavalos de crista, Seu Safado. E dizia com um prazer e um carinho desmedido quando tratava os guris. Quando a Aidil matou o Zé Correia, no consultório deste, nos altos do Itatiaia, ninguém ficou dentro do Aquário. Todo mundo dando fé dali da calçada do Café. Com os populares assistia à movimentação policial o Doutor Chico. Depois, de tudo dado fé, dirigiu-se para o seu consultório, a poucas quadras dali, na Voluntários. Chegando, já atrasado no escritório, por força das circunstâncias, antes de atender a clientela, despejou num canto da sala de espera tudo que tinha dentro da bolsa duma cliente. No outro canto, abriu outra bolsa de mulher e despejou tudo no chão. Depois deu a desculpa: -Não me entram aqui dentro mulheres sem que eu reviste as bolsas... Vocês tão matando os homens...O Doutor Chico era daqueles médicos de família. Coisa rara hoje em dia. Sabia curar, também! A uma cliente muito idosa que ele tratava desde a sua formatura como médico, ele curou um reumatismo e paraplegia só com susto. Que nem soluço: A idosa, chamou o Doutor Chico em sua residência. Entrevada que estava, há dias, cheia de dores reumáticas... Não deu outra. Ele entrou no quarto da velhinha, fechou a porta, deu uma volta na chave. Ela só olhando... O Doutor aprochegou-se de uma cadeira à beira da cama. Sentou e tirou os sapatos. Ato contínuo, levantou as cobertas e vapt! Se tapou... A doente, mesmo com o ossamento carcomido saltou da cama e deitou o cabelo em direção à porta. Cruz! Credo! Que louco! Mas melhorou da paraplegia instantaneamente...

................................................................................

Por fim, a irreverente cria da casa: o João Fernandes. Quando menino, numa noite de jogo de pôquer no antigo Clube Instrução e Recreio, época em que dávamos valor desmerecido aos concursos de misses, o José Karan, médico conceituado na cidade, deu-lhe o apelido que ele carregou até os fins de seus dias: Marta Rocha. O Marta era um mocinho de dezesseis anos e trabalhava como garçon no restaurante do clube. O Karan pediu um sanduíche ou outra coisa qualquer e, ao ser servido, com as cartas na mão, olhou para o João e soltou a exclamação: Tche! Como tu és parecido com a Marta Rocha... A miss estava em alta. Recém tinha perdido o título de Miss Universo por ter duas polegadas a mais nas coxas. O apelido pegou e ele nem se importou com ele. Era a irreverência da irreverência cultivar o apelido. Rapazote, ainda, trabalhou de secretário do Doutor Aimone Carriconde. Distanciaram-se por questões políticas. O Marta bebeu desmedidamente até morrer, precocemente, com trinta e cinco anos... Era inteligente. Tinha memória fotográfica. Uma vez o Getúlio Dias escreveu um poema, na mesa do Bar do Élvio, e o João passou os olhos por cima dele. Em seguida, quando pediram para o Getúlio ler o que escrevera - parece que era um soneto -, o Marta disse: Quié isso Getúlio... Isso fui eu que fiz... Tu me roubaste um poema? E recitou-o inteirinho, a título de molecagem, deixando o poeta num papel de impostor. E boquiaberto pelo plágio. Discursos políticos, então, dava gosto escutar um comício junto ao Marta. Orador que ela já tivesse escutado em comício anterior, ele dizia antes do político as palavras que sairiam da boca deles...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Fragmentos de uma correspondência amorosa

Vamos dar ao amigo o nome de Semildo, ou “S”, simplesmente. Ao menos não conheço ninguém com esse nome o que já é uma grande chance de não ter uma futura dor de cabeça. Já que estou tatuado de tanto que me cascotearam nesta terra do Irineuzinho – merecido fruto desta minha incorrigível irreverência. Pois, quando S. se apaixonou pela L., a Lúcia, a maravilhosa Lúcia, daquelas eras, lá da vizinhança da Voz Rural, ou Voz do Pau, como eram conhecidos os alto-falantes que tinham seu endereço na saudosa Sete Portas, nós fomos testemunhas do seu calvário. Tudo começou numa quermesse dos quartanistas do Ginásio, lá no Depósito do Engenho do Seu Daciano. Primeiro, S. mandou prender L. na cadeia que ficava ao lado do bar. Ali, ora levando as mãos ao rosto, ora pondo as mãos na cintura, com toda aquela vaidade peculiar à sua adolescência, a L, curiosa, queria saber qual o admirador que lhe pregara aquela peça. Logo, logo, a própria carcereira, quando a soltava das grades, levou-lhe um telegrama do S. que dizia: “Vidinha. Meu eterno amor nesta noite primaveril cresce desmedidamente no meu coração. S.” Durante aquela noite foram incontáveis os telegramas que L. recebeu do seu desconhecido apaixonado. Nenhum deles conseguiu, apesar da sua curiosidade, da insistência em perguntar à mensageira quem lhe cortejava, revelar o nome do jovem apaixonado. Passaram-se os dias, as semanas, os meses, e o nosso amigo S. resolveu apelar para os amigos. Buscava ideias, luzes, caminhos que levassem seu amor, com um nome, até sua musa. Amor infinito e sufocado no anonimato... Inda mais, ter que esperar uma próxima quermesse, coisa que ninguém merecia. Foi desta forma, numa mesa do Café, sempre à hora santa da Ave-Maria, que nós, seus amigos, estudávamos uma maneira de ajudá-lo. E, neste mister, a única ideia que nos ocorria era uma bem elaborada e romântica carta que nos propusemos a redigir em socorro dele, S., o apaixonado. A princípio, para sua apreciação, listamos o que poderia ele dizer como tratamento, para o caudal das primeiras e melosas linhas: “Minha Amada!”, “Nobilíssima estudante!”, “Meu amor!”, “Meu único amor!”, “Inesquecível L.!”, “Grande amor da minha vida!”, “Vida minha!”, “Dona do meu destino!”, “Prezada jovem!”, “Meu amor e meu sonho!”, “Riqueza da minha alma!”, “Luz dos meus olhos!”, “Alegrias do meu coração!”, “Minha grande paixão!”, “Meu grande sonho!”, “Adorada L.!”, “Sacerdotisa do meu amor!”. “Minha querida!”, “L., querida!”, “Deusa minha!”, “Minha primavera!”, “Primavera do meu coração!”, “Mimosa flor!”, “Meu anjo!”, “Formosa senhorita!”, “Querida L.!”, “Carinhosa L.!”, “Meu lírio branco!”, “Felicidade minha!”, “Meu coração!”, “Querida amiguinha!”, “Único amor da minha vida!”, “Meu imenso amor!”, “Minha fada!”, “L. queridíssima!”, e por aí ía a nossa modesta contribuição. Aliás, tarefa que nos levou muitas tardes, e muitos martelinhos de vodka com bolo de carne da Maria Umbelina. Vai daí, certa tarde, S. entrando no Café, numa alegria pueril, nos deu uma boa nova: Já se decidira. Escolhera um início para a sua declaração de amor pelos alto-falantes da Voz Rural, na voz do saudoso Sérgio Chaves, desde as antigas dependências do Bar Honra e Glória, aos quatro cantos do mundo: “Atenção jovem da esquina...’! Quando penso em te escrever, não sei como começar. As emoções atropelam-se em minha alma e eu, entre mil palavras não encontro uma que traduza a festa do meu coração...” Era o amor! Era não, É, ainda. Daquela mesa de escribas do Café foi ele o único que casou com quem queria... Mais, dá gosto vê-los, de mãos dadas, diariamente, fazendo as caminhadas matinais.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Caro Juninho

Creio que a mensagem recebida pelo nosso amigo, ontem, em que dizes ser ele incomparável, tem sua gênese numa janta no segundo piso do Clube do Comércio. Sentei à mesa contigo e a Verônica. Vocês, lembro bem, ficaram de costas para as mesas onde colocariam o buffett. Lá pelas tantas, eu, de lado, apreciava a chegada dos acepipes que estavam sendo postos à mesa. Já o nosso incomparável amigo J.A., para seu deleite, estava de cara com uma incalculável quantidade de travessas, pratos, e tinha chegado a hora de nos servirmos daquele verdadeiro banquete. Lembras? Foi aí que começou a bobagem: Não lembro qual de nós começou a série de adjetivos que aplicávamos ao amigo. Depois eu prometi que aumentaria a série. Pois bem, além de incomparável, creio que ele era também afável, amável, incurável, indomável, durável, louvável, inegável, notável; e, de certa forma, pecável, embora nunca palpável, visto que a ocasião não se apresentava viável. Provável, até, penetrável, não no momento já que este, como já disse, era altamente sociável. À mesa, depois, constatamos que o amigo não era vegetável pela forma como atacou o churrasco e o assado de leitão. Mas, foi considerável a sua performance: insaciável, potável, inabalável, impecável e indomável; indecifrável, deleitável, incalculável, inatacável e como se constatou, um gourmand apreciável, ademais de incobrável. Creio não estar exagerando ao traçar um perfil tão saudável de um amigo não menos inimaginável e inexorável... Respeitável e incontestável prócer citadino: inseparável, irrecusável, recomendável, responsável, inesgotável, inevitável, sempre presenciável, suportável, disciplinável, venerável e de todo adorável. Poderíamos, já que achas ele imaterial, acrescentar outros atributos sem nos afastarmos dos sufixos que tão bem se prestam para cobrir figura tão indispensável. Dizer que ele é indomável, seria pouco. Não resta dúvida termos como amigo um cidadão namorável, pelo que elas dizem... Inescrutável, também. Irremediável, irrecusável, memorável, ponderável, inalcançável, estimável, tolerável, consolável, insuperável, inseparável (ao mesmo tempo beatificável com cara de separável – ele tem hora para chegar em casa, etc... E tal...), ponderável, perdurável, observável, razoável, indeletatável (aqui um neologismo), insondável, invariável e incomensurável. Vimos, depois, após os birinaites, que ele se mostrou quase inflamável. Impagável como disseste. Indeclinável, de estômago às raias do interminável e impermeável e inacabável e insaciável. Inconsolável, quando já não cabia mais nada no seu memorável ser. Mas, se isto fosse tudo, seria pouco, pois, o imaterial e agradável amigo não deixa de ser, ainda, apreciável e formidável quando nos brinda com a sua companhia. Será ele instável, mudável, implacável, inimitável, inexplicável por ser imaterial? Ou será ele investigável, invulnerável, inalterável por ser violável. Pô, Juninho, realmente o J.A. é imensurável... Isso, sem qualifica-lo, no nosso jargão profissional, como um grande amigo impenhorável, inalienável, mas comunicável... Abraço incomensurável do simploriável Arnóbio.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Os Cafés
Para o Juca Ramos da Silveira
Por aqui eles se chamaram por vários nomes de fantasia: Café do Ticató, Marrocos, Capri, Café do Sadi, Central, Atlântida, apenas para consignar algumas designações. Foram famosos os do Manoel Português, de nome Marrocos e o do Tritri, cujo nome não me vem à memória. Sei, de me contarem, evidentemente, que o prédio onde todos eles funcionaram teve existência graças ao Dr. Hélio Mariante, abastado pecuarista, figura apaixonada pela nossa terra, pelas nossas coisas e pelo cotidiano da cidade. Foi numa gestão dele como presidente da Sociedade Rural que nasceu a ideia de construir um prédio de dois pisos: no segundo andar a Sociedade Rural e, no térreo, um grande salão próprio para comércio. Mesas com tampo de mármore, um vasto balcão e, segundo a lenda, ao ecônomo do Café, o aluguel era simbólico: resumia-se a conservar o prédio, apenas. Não, apenas, não. Havia como trato de honra uma incumbência: nada de ir perguntar a um frequentador que sentasse a uma mesa se ele precisava de alguma coisa. Havia garçom para observar os sinais de pedidos de cafezinhos, ou outra bebida qualquer. Em resumo, frequentador assíduo podia sentar e o ecônomo ou o garçom estavam dispensados da célebre pergunta: - O que o senhor vai querer? Sentar às mesas era apenas para conversar e trocar ideias. Discutir turfe, futebol, política, ou qualquer coisa, ou nada. Chegar, sentar, e ali ficar a divagar sem ser importunado para que gastasse. Sentar e ficar ali (se quisesse), o dia todo, da manhã à noite. Belo gesto o do Doutor Hélio! Beneficiando a todos fizera um Café praticamente á sua custa, para o seu deleite e o das pessoas que ele gostava de ver desfilar pelas mesas. Bela figura o Doutor Hélio: secarrão, pouca conversa, eternamente pensativo... Transparecia ser a figura mais cheia do mundo. Aparência, apenas. Por dentro um cidadão bom de papo, fino trato, um gozador entre tantos a frequentar diariamente o convívio daquelas mesas. Moços, nós, tínhamos um respeito reverencial pelo Doutor Hélio. Já um colega que era mal educado, arrastava propositalmente a cadeira ao sentar-se, se pudesse arrotava alto e, alto, também, soltava traques. Pedíamos que ele não se comportasse desse jeito. Que ele respeitasse os frequentadores, principalmente quando estivesse presente o Doutor Hélio. Isto, entrava dia e saía dia, o colega repetia seus maus costumes sem dar-nos ouvidos. Mas, quis o destino, certa feita, que este colega montasse um escritório rural para remates de gado em geral. Instalado o escritório, que faz história até os dias atuais, buscava o nosso amigo e novo comerciante por clientes nos anúncios publicitários, no tête-a tête, nas boas recomendações dos pecuaristas locais. Enfim, sonhava com o sucesso de sua empreitada enquanto nós, seus amigos, ficávamos na torcida também. Num belo dia, estávamos à mesa do Café quando, recém chegando o nosso amigo, antes de vir sentar-se conosco, ouvimos o Doutor Hélio dirigir-se a ele: - Guri! Vem aqui... De pronto pensamos nalgum sermão, pelos seus maus modos – o que ele bem merecia... Nada disso: – Olha - disse o Doutor Hélio -, quando fizeres a primeira feira, vem falar comigo que eu vou vender uns bois no teu escritório. E, rematou: - Não negocio gado em feiras que não seja com gente daqui... É tapa com luvas, que se diz?

sábado, 22 de outubro de 2011

Meus Tipos

Hoje, lendo Thiago de Mello, mais precisamente o livro A Lenda da Rosa, dei com os costados num poema e dele transcrevo um excerto: ... – E para sempre – entre os homens,/ a sina do amor é dar-se/ inteiro e cada vez mais/ reflorindo de si mesmo,/ para florescer no além,/ não importa que esse amor/ seja abraçado ou magoado./ Nenhum amor é perdido. Ora!, vô e vó, pai e mãe, filhos, irmã(o)s, namorada(o)s, companheira(o)s, amiga(o)s, todos fazem parte desse rol de amores que tocam e embelezam a nossa vida. No geral, temos todos, alguém que amamos, que nos ama; que amamos e não nos ama e, sabe-se que existe, e disso não temos culpa, alguém que nos ama e nós nem sabemos... Enfim, o tema é atraente e triste dependendo do tipo, do gênero, da espécie – sabe-se lá se o amor tem tipo, espécie ou gênero ... Mas, aqui e agora, como dizia aquele famoso guru da nossa geração, o Aldous Huxley,na sua A Ilha, me vem à lembrança três figuras pitorescas que tenho quase certeza, não conheceram o amor. Nós, os velhos do aqui e agora, ainda trazemos nas retinas cansadas as figuras pitorescas da Madinha, do Alvim Caminhão e do João Barbela. Todos chamavam a nossa atenção por terem parecenças. Coisas em comum, muitas coisas em comum, até. Nenhuma delas foi vista um dia com um alguém. Nenhuma sabia ler ou escrever e, quando se comunicavam, não íam além da construção de frases com quatro ou cinco palavras. Nem conseguiam entabular uma conversa que passasse de duas frases e, neste caso, nenhuma delas com sujeito e predicado. A primeira figura morava com o casal da Dona Celina e o Seu Idílio. Ele era cobrador de mensalidades dos nossos clubes sociais e sua mulher lavava roupa de moradores prósperos. A Madinha era a entregadora das roupas e, neste afazer, com muitas trouxas de roupa equilibradas na cabeça atravessou a cidade. Baixinha, calada, alegre e sempre sorrindo, talvez por não ter tido inteligência suficiente para dar um bom-dia ou um cumprimento, por mais simples que fosse. E todos a cumprimentavam à passagem que era sempre pelo meio da rua, nunca pelas calçadas. Outra figura, com características quase idênticas: o Seu Alvim, que era maleiro na Estação Rodoviária e entregador de encomendas. Poucas palavras faziam parte do seu vocabulário, tinha uma imensa dificuldade na construção de frases e perguntava ou respondia aos interlocutores através de monossílabos. Dele já falamos quando traçamos um pequeno perfil e o seu relacionamento com a comunidade. Dificilmente pelas calçadas. Sempre o meio da rua... Outra figura foi a do João Barbela. Tinha ele uma pequena carroça com rodas de ferro e a usava para fazer pequenos carretos, carregando lenha, malas - quando eram muitas e o Seu Alvim não dava conta -, enfim, coisas como comprar e revender garrafas vazias em depósitos de bebidas para receber uma changa. Lembro que o calçado comum deles eram sapatos velhos que usavam em forma de chinelos, sempre maiores que os pés, acalcanhados, rotos. Ainda, por coincidência maior, nunca se viu um deles sequer, entrar em casa por uma porta da frente. Sempre, intermitentemente, às chegadas ou saídas, faziam uso dos portões das suas casas. A Madinha, entrava e saía por um portão que havia no terreno da casa do Seu Idílio, na Rua Gomercindo Saraiva, sítio onde vivia esta família que a acolhera. O Seu Alvim entrava e saía na residência que o acolhia por um portão que dava entrada de serviço ao Hotel do seu Chico Bonneau, pela Rua Visconde de Mauá, hoje avenida. E, por fim, sempre entrando e saindo por um portão, junto com a sua carrocinha, o João Barbela, que morava com o Seu Marcelino, proprietário da Fármácia Maciel. O portão ficava na Rua Zeca Maciel, defronte à Liga Operária. O portão sempre foi uma tônica na vida destes que eu chamo carinhosamente de Meus Tipos e que povoam a minha lembrança. Quem lembra deles? Teriam eles amado alguém? Foram amados? Chegaram a se declarar a alguém? Viveram e morreram com algum amor incubado. Ah! Falem baixinho... Se forem falar de amor... Aqui deste alpendre, lá ao oeste, no encordoado das coxilhas, o sol cai nos braços da noite. A Madinha, o Alvim e o Barbela nunca caíram nos braços de ninguém? Nem nunca amaram?

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Meus tipos

O Gilberto Alves foi uma das pessoas mais alegres e brincalhonas que conheci. Era funileiro e latoeiro naqueles tempos em que o plástico ainda não tinha invadido nossas vidas. Canecas, bacias, calhas e uma série de objetos, que hoje encontramos em matéria plástica nas prateleiras das lojas, saíam de suas mãos, em folha de flandres ou zinco, com um perfeccionismo impressionante. O Gilberto era mais conhecido pelo seu apelido de Picão. Sempre tinha uma história engraçada para contar e quando a iniciava, já sorrindo, preparava a gente para o seu desfecho hilário. Mesmo quando um causo merecia seriedade ele inseria, sério evidentemente, aquela graça que cativava os ouvintes. Figuraça. Um desenho... Nas suas histórias, quando os olhinhos brilhavam, podíamos esperar que vinha chumbo, e do grosso... Foi um dos melhores amigos do Papaco Velho. Juntos aprontaram à vontade e cultivaram a irreverência por esta terra do Irineuzinho. Desses dois, uma das simploriedades que mais apreciávamos era um ajudando o outro a relembrar as comemorações pelo fim da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente o discurso do Seu Miguel Aliodes. Contava o Picão que, quando noticiaram a Paz, o povo foi para as ruas fazer o carnaval de sempre. Justo nesse dia, o 14 de agosto, o Prefeito Mário Correa inaugurava um gerador a diesel na Usina. E foi depois de cortar a fita que o povo se manifestou, num púlpito colocado na esquina sextavada do prédio. O Seu Miguel, que era desembaraçado para qualquer coisa, pediu a palavra e lascou um discurso: Quando Mussussolini (o Duce) invadiu a Missisalbânia (Abissínia), em el año de mil ciento e siete... Nesta altura da louvação havia a intervenção do Papaco para dizer que, fazendo as contas direitinho, havia um erro de data de oitocentos e tantos anos. Mas, o discurso inflamado prosseguia: Em esta hora, em esta hora, yo quisiera ser la gran cachorra de la Inglaterra para pisotear los alemanes y para dar una mordida no calcanhar del Japon... E se entusiasmava o Seu Miguel exibindo a sua careca: Yo quisiera... Yo quisiera... Do jeito que discursava ele deixou a bola quicando, quicando... Quando repetiu Yo quisiera... pela terceira vez, lá do fundão, sabe? O castelhano Espanton, entrando de gaiato completou:Uma peluca hermosa... E detonou o célebre discurso que ficou gravado, até então, na oralidade, como uma das mais bonitas peças do anedotário da nossa aldeia.

domingo, 16 de outubro de 2011

Meu Diário.


Por que ninguém entendeu aquele meu devaneio de dias atrás? Teria sido uma infeliz referência inspirada naquelas andorinhas do Becquer e que acabou alojada no diário do Gogol? Uma navegada que começou com a leitura de um poema do Byron e escorregou para os versos e as rezas do Michael Quoist? Ou foi a lembrança daquela quermesse... Lá no Porão do Colégio das Irmãs. Lá em cima, na Coxilha do Fogo. Foi. Recordo aquele telegrama todo carinhoso que mandei. Falava da minha admiração e citava o Roberto Carlos. Também, pudera... Ele era a coqueluche da época e a música que dediquei falava em me aquecer no inverno. E qual foi a resposta? Qual foi? Que eu fosse junto com o tudo mais para o inferno. Ah! Mas eu continuei insistindo, naquela noite. E, não contente com o fora que estava levando, paguei para prendê-la. Vi que passava algemada para a cela e que seu sorriso tentava adivinhar quem era o seu algoz. Depois, eu mesmo, ante o medo que outro admirador se aproveitasse do ensejo e a tirasse da cela - quem tem, tem medo... - paguei pela sua liberdade. Voltou para a mesa onde estava, ao lado da minha. De costas um para o outro e eu ouvindo os comentários. Ela, querendo saber quem era o admirador secreto. Eu, fazendo conta de cabeça. No recinto havia um alto-falante, lembram? Não? Também, faz tanto tempo! Tanto... Foi quando eu resolvi mudar de tática. Afinal, na conquista, mesmo o exagero se torna mínimo. E eu, tendo que ousar ao máximo, sob pena de me arrepender, se não o fizesse, apelei para uma dedicatória. Música italiana... Não, não foi Se piangi, se ridi. Não foi essa, não. Essa eu guardo até hoje, inédita, sem ter tido a oportunidade de usá-la... Teria sido Roberta? Ou Non ho l’età? Lembrei!!! Foi Al di là, do Perícola, cantada pelo Jerry Adriani. Sei, sei, ela também me arrepia. Até hoje me arrepia... Três vezes o alto-falante anunciou: para a moça de tubinho azul calípso, com o maior carinho... Agora, vêem no que deu? Não há mais quermesses, não se prende nem se dedica música por alto-falantes e não há mais telegramas - nem os de verdade, os dos Correios e Telégrafos. A ingenuidade, junto com a quermesse e o vestido tubinho, morreu há séculos... Mas ela, com todo o respeito, continua deslumbrante quando caminha pela Doutor Monteiro. Ma-ra-vi-lho-sa!!!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Dona Margarida

Uma das lembranças mais marcantes que carrego comigo é a pessoa da Dona Margarida. Dona Margarida dos Gansos, por apelido, pela quantidade destas aves que ela criava, soltas, a campo, como se diz. Defronte à sua moradia (a crase eu pus por implicância), numa das esquinas, a Casa de Cômodos, ou puteiro - como queiram - do Zé Cavalieri, que além de proxeneta também era alfaiate; noutra, a casa da Dona Menininha, que vendia lenha. Todos vizinhos. A Dona Margarida tinha dois filhos: o Leandro e o Pajá. O primeiro morreu quando eu ainda era menino, não guardei uma lembrança clara dele, mas, o outro, até bem pouco existia e foi figura folclórica e benquista na cidade. Lembro, como se fosse hoje, das orações que ela fazia nas suas benzeduras para cobreiros, verrugas, conquistar amores inatingíveis, andaços e dor de dente, entre tantas. Muitas vezes fui à sua casa (vou por crase antes do pronome para continuar inticando com os versados no vernáculo) em busca de uma benzedura para a espinhela caída. Depois de curado, em retribuição, como paga ao restabelecimento, levava um maço de cigarros Havaii ou Tufuma, já que ela não cobrava dinheiro e só recebia presentes. Vale dizer que eu sempre melhorava com as suas rezas. Quando a benzedura era para a espinhela caída ela media a gente com um barbante. Era assim que ela estudava seus pacientes: se a extensão que existia da ponta de um ombro ao outro não conferia com a medida da ponta do dedo mínimo até o cotovelo, a espinhela estava caída. Para a cura ela fazia diferentes orações de acordo com cada estágio da doença, e que dependiam da gravidade do caso. Havia horário para as benzeduras e todas eram sempre de dia, antes do sol se por. Mandava a gente segurar um objeto de ferro para começar a lamúria: - Espinhela caída, ventre derrubado, eu te ergo, eu te curo, eu te saro, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, da espinhela caída estás curado! Certa vez, ela me mandou embora sem benzer a espinhela por que as extensões ombro a ombro e ponta do dedo mindinho ao cotovelo estavam iguais. Ela achava que era quebrante. Falha humana, dela... Eu bem que sabia o que era... Dessa tiriça só fui me curando depois que mudamos de casa - para bem longe da vizinha mais gostosa que já tive! Foi por esta época que nasceram os meus primeiros e rudimentares conhecimentos de medicina: Que o choque anafilático de vizinha boa com adolescente é um veneno para a espinhela... Para o quebrante, então, é um porrete... Mas, me curei, Graças ao Bom Deus! Não sem antes muitíssimas colheres diárias de Wa-Ka-Mo-To e óleo de capincho no feijão. Coisa braba, guris, é ter a idade do macaco!!! Depois, só voltei na Dona Margarida quando tive azia pela primeira vez. Sempre foi tiro, e queda: agulha, linha, um pedacinho de pano, o Espírito Santo... Costurando enquanto lamuriava baixinho a reza. Enquanto ela viveu, nunca mais tive azia. Das simpatias, para ser correspondido pela amada, lembro uma que ela fez especialmente para mim: Três penas de qualquer passarinho, três pétalas de rosa de qualquer cor, bem embrulhadas em um papel branco. Carregar trocando sempre de bolsos por sete dias. Interessante que este amuleto eu o encontrei dia desses, sem uso, ainda, novinho em folha (ou em pétalas), dentro de uma gramática de latim que eu não abria há quarenta e tantos anos. Acho que ele não faz mais efeito... Sei não... Vou guardá-lo para alguma precisão. Quem sabe?... Dizem que velhos são os anos! (2011, outubro, Dia da Criança)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Hino do RS - Nunca vi tantos ga�chos juntos tocando o nosso hino (tudo cola-fina)

Bergamotas & Colas Finas
Para o Júlio Quevedo

Enaltecidos os feitos farroupilhas, ao troco de muita gineteada e fumaça, recomeça o reinado dos colas finas. Saem a bota, a bombacha e o chapéu para dar lugar ao tênis, à calça jeans e ao boné. E, mais um ano passará sem que o gaúcho se pilche de cultura para descobrir quem verdadeiramente ele foi. Mas, mesmo assim, valeu. Valeu por que nossas festas, a cada ano que passa, se apresentam mais bonitas e mais emocionantes. No entanto, de tudo isso, fica uma indagação: O que é mesmo ser gaúcho? Eu, por exemplo, que nunca usei botas, ou bombachas, sou mais, ou sou menos gaúcho? Naquele início de festejos, quando as autoridades estavam todas pilchadas, e assistíamos à abertura da semana com a nossa roupa de sempre, éramos todos gaúchos? E aquele amigo à cola fina, cantando o hino riograndense, tão bem vestido naquela hora, no meio da gauchada? Seria por causa da roupa menos gaúcho? Não, certamente para mim, não. Até por que canso de vê-lo no trabalho de botas embarradas, bombacha bostiada, laçando, curando bicheira, dando sal ao gado, tropeando e tudo o mais fazendo na sua profissão de criador. Decerto, por inversão de valores, justo ele, o único verdadeiro gaúcho ali, despilchado, não estava sendo visto pelos seus pares com bons olhos. Afinal... Mas, e aquele guri de brinco? Será que ele preferiu não se pilchar só para não tirar o brinco? Ora, quem diria que chegariam ao ponto de hostilizar quem usasse brincos. No entanto, o gaúcho de antigamente usava brinco, era sujo, descalço, borracho, barba sempre por fazer e não usava roupa por baixo do poncho. Nossos primeiros gaúchos, estão aí os escritos, tinham vida errante, peleavam por um dá cá aquela palha, eram em sua maioria bastardos, párias, sem compromisso com nada e geralmente vagabundos. Para quem quiser checar estas linhas estão aí Paixão Cortes, Barbosa Lessa, Sérgius Gonzaga, entre os nossos. Fernando O. Assunção, Saint Hillaire, Felix de Azara, Nicolau Dreys, entre os de fora.

domingo, 9 de outubro de 2011

Devolvi - Núbia Lafayette e Nelson Gonçalves

Quem é de quem?

Esta crônica, desde já aviso, há de ser interativa. Os leitores estão, pois, convidados a ampliá-la. O título? Ora, quem não sabe. Somos sempre de alguém, sempre. Quando não de algo. Gente que é de gente, lugar que é de lugar, qualquer coisa que é de alguém ou alguém que é de qualquer coisa, enfim... Principalmente morando na cidade do Adão da Cizica, que morou na Coxilha do Fogo, defronte ao campinho onde pastava o Cavalo do Graúdo. Sim, quantos de nós cruzamos a Rua da Morocha ou zombamos do Basílio da Bicicleta, quando se engraxava? A lista é grande e sozinho eu não dou cabo dela. Preciso urgentemente de uma mãozinha e sei que haverá interessados pela tarefa de embelezá-la. Vamos lá, você que não quer esquecer quem é de quem, nesta província. Lembra do Censinho do Euzébio, do Jadir do Menandro, do Dário da Célia, do João do Pereca, do Adão da Cizica, da Lota do Budanha, do João do Vida, do Gilberto da Tica, do Jesus da Dércia, do Toninho do Agripino, do Gilberto do Ataídes, do Valter do Hernandez, do Adão do Oscar, do João do Cantalício, do Sérgio do Venâncio, do Gordo do Jacinto, do Jorge do Fueed, do Chico da Carrucha, da Dininha do Maneca, do Boró do Graúdo, do Adão da Pepita, do Zé do Julião, da Piola do Ondino, da Pepa do Hernandez, do Zé da Coxilha, da Piola do Ondino, do Adão do Mário, do Lulu da Tetéia, do Darci do Lino, do Paleca do Dega, do João do Diquide, do Paulo do Picão, do Sérgio da Judite, do Luís do Lindinho, do João do Tuca, da Noêmia do Deca, do Dega do Oscar, do João da Colota. Tudo tem dono, ou tinha, nesta terrinha. Já vi uma menina dizer que tinha uma amiga que trabalhava de babá na Rua do Maneca, aquela que passava também na Escolinha da Atília. O pai dela era um homem que tinha oficina na Rua do Vinte, a que passava no Buraco Quente. E por aí seguia a explicação que só prestava para aumentar mais a imaginação. Temos, também, coisas que são de lugares: Cancha dos Bonneaus, Vila da Palha, Chácara do Aquilino, Granja dos Conceição, Depósito do Amarilho, Terreira do Tanajara, Hotel do Zoca, Avenida do Amor, Cancha do Branco. Gente que é de coisa e coisa que é de gente: Paulinho do Engenho, Caminhão do Antônio, Luís dos Burros, Macaco do Ernesto ou a Égua do Bidoca. Socorro!

Visitantes

Marcadores