Quem sou eu
Al Di Lá
Você se lembra do filme Candelabro Italiano?
domingo, 14 de agosto de 2011
Hipnose
Houve uma época, lá pela metade da década de cinqüenta e início da de sessenta, em que existiam na cidade dois concorridos Cafés: o Rex, que chamávamos de Café do Deca, e o Marrocos, que pertenceu ao Manoel Português. Naquele, se reuniam os que gostavam dos jogos de carteado e turfe. No outro, que chegou a ser restaurante, e teve a primeira boate da cidade, reuniam-se os freqüentadores mais ligados ao futebol. São deste último estabelecimento a maioria e as mais caras das nossas recordações. Seu Dono, por conta de uma grande ingenuidade, era vítima constante de engraçadas e exemplares peças. Certa feita, a inseparável dupla Oscarzinho e Prego aplicaram uma farsa ao Manoel: estava a dupla desfeita, e um de mal com o outro, por conta de uma travessura que o Prego praticara ao amigo. No recinto do café, sempre bem combinados de antemão e com jogos de cena, ambos se faziam de inimigos. Era só um sentar ao redor de uma mesa que o outro procurava sentar bem longe, numa mesa mais distante. O Manoel, que gostava dos dois, indagava ao Prego, constantemente, o porquê da encrenca e este nada contava. Apertava com o outro e este também nada dizia. Nesse tranco passavam-se os dias e os ex-amigos não se olhavam quando o Português estava por perto. Quando a bobagem amadureceu e já era chegado tempo de contar ao Manoel a causa da briga, o Prego, chamando-o para uma confidência, confessou que tempos atrás hipnotizara o Oscarzinho e este tinha ficado de mal por conta disso. Ora, daí, para alimentar a molecagem, foi um vapt-vupt. Pois, num belo dia, o Oscarzinho chegou ao Café e já se sentando fez a senha pedindo um cafezinho. O Prego, tomando o seu café, no balcão, conversando com o Manoel, chamou-o como se fosse dizer um segredo, e partiu para o ataque: - Olha Manoel, disfarça que eu vou hipnotizar o Oscarzinho quando ele pedir outro café... Dito e feito. O Oscar fez a senha pedindo outro cafezinho. Quando recebeu a xícara, o Prego esperou ser observado pelo Manoel e disse baixinho, olhando, ora para um, ora para o outro: - Levanta Oscarzinho... No que foi prontamente atendido. Continuou: - Pega a xícara de cafezinho que está na mesa... Novamente foi atendido. - Agora, solta essa xícara... A xícara, ainda com café, estilhaçou no mosaico e o Manoel colocou as mãos na cabeça... Bem, muitas vezes, durante dias, nas sessões de hipnose do Prego, o Oscarzinho quebrou as xícaras do Manoel. Coisa de três a quatro xícaras quebradas, por dia, até o Português reconciliar os amigos.
Houve uma época, lá pela metade da década de cinqüenta e início da de sessenta, em que existiam na cidade dois concorridos Cafés: o Rex, que chamávamos de Café do Deca, e o Marrocos, que pertenceu ao Manoel Português. Naquele, se reuniam os que gostavam dos jogos de carteado e turfe. No outro, que chegou a ser restaurante, e teve a primeira boate da cidade, reuniam-se os freqüentadores mais ligados ao futebol. São deste último estabelecimento a maioria e as mais caras das nossas recordações. Seu Dono, por conta de uma grande ingenuidade, era vítima constante de engraçadas e exemplares peças. Certa feita, a inseparável dupla Oscarzinho e Prego aplicaram uma farsa ao Manoel: estava a dupla desfeita, e um de mal com o outro, por conta de uma travessura que o Prego praticara ao amigo. No recinto do café, sempre bem combinados de antemão e com jogos de cena, ambos se faziam de inimigos. Era só um sentar ao redor de uma mesa que o outro procurava sentar bem longe, numa mesa mais distante. O Manoel, que gostava dos dois, indagava ao Prego, constantemente, o porquê da encrenca e este nada contava. Apertava com o outro e este também nada dizia. Nesse tranco passavam-se os dias e os ex-amigos não se olhavam quando o Português estava por perto. Quando a bobagem amadureceu e já era chegado tempo de contar ao Manoel a causa da briga, o Prego, chamando-o para uma confidência, confessou que tempos atrás hipnotizara o Oscarzinho e este tinha ficado de mal por conta disso. Ora, daí, para alimentar a molecagem, foi um vapt-vupt. Pois, num belo dia, o Oscarzinho chegou ao Café e já se sentando fez a senha pedindo um cafezinho. O Prego, tomando o seu café, no balcão, conversando com o Manoel, chamou-o como se fosse dizer um segredo, e partiu para o ataque: - Olha Manoel, disfarça que eu vou hipnotizar o Oscarzinho quando ele pedir outro café... Dito e feito. O Oscar fez a senha pedindo outro cafezinho. Quando recebeu a xícara, o Prego esperou ser observado pelo Manoel e disse baixinho, olhando, ora para um, ora para o outro: - Levanta Oscarzinho... No que foi prontamente atendido. Continuou: - Pega a xícara de cafezinho que está na mesa... Novamente foi atendido. - Agora, solta essa xícara... A xícara, ainda com café, estilhaçou no mosaico e o Manoel colocou as mãos na cabeça... Bem, muitas vezes, durante dias, nas sessões de hipnose do Prego, o Oscarzinho quebrou as xícaras do Manoel. Coisa de três a quatro xícaras quebradas, por dia, até o Português reconciliar os amigos.
sábado, 13 de agosto de 2011
Teste
Teste
Embora a vida comece aos quarenta, como dizem, é bom saber que qualquer objeto de nossos dias será antiguidade em 2051. Da mesma forma, qualquer fato passado lá nos idos de sessenta, ao menos para gurizada de hoje, é coisa jurássica. Dito isto, vamos a um teste. Se você não for alvo de cinqüenta por cento destas lembranças, parabéns... Se passar, paciência, não perca a esportiva. Isso é coisa que acontece. E, não é nada, não, mesmo por que você não é mais adolescente. Tendo crescido, ainda que não seja senil, aceite que você é alguém que já entrou na madureza. Vamos lá, então? Você lembra onde era a Rua da Morocha, (a ruazinha onde morava a Morocha)? A Avenida do Amor (ou Motel do Zoca, ou Dozocaliptos, como queiram...)? A Coxilha do Fogo? A Vila da Palha? A Travessa dos Bidivas? O Colégio das Irmãs ou a Cancha dos Bonneau? Viu? Você tá bem na foto, ainda... Você está se saindo bem, já de início. Mas, continuemos: Conheceu o Luís dos Burros, O Basílio da Bicicleta, O Zé Balhego, O Idílio Tetinha, o Arlindo Garua, o Menandro dos Ovos, o Alécio das Verduras e o carteiro de nome Emílio Caturrita? Viu? Olhe, sem crueldade nenhuma ( até por que não é do nosso feitio ), vamos ter que continuar este teste: Conheceu o cavalo do Graúdo? O macaco do Ernesto? O caminhão do Antônio? A égua do Bidoca, A Verruga do João Rodrigues? A carpintaria do Ondino? O Bar da Noca, a venda do Apolino, a churrascaria do Pedro Leitão, a Churrascaria Nascib e o bar da Dalila? E os carros de praça do Seu Venâncio, do Seu Alvim, do Zézinho e o do seu Nelson? Chegou a andar neles? Então, descontraiu? Chegou no pedaço? Ah! Sei. Começou a bater uma pequena deprê? Fique firme, tudo se acomoda. Não se entregue. Cantarole baixinho aquela sua velha e conhecida música portuguesa “Só nós dois é que sabemos”... Seu teste tem tudo para dar certo... Ainda que sejamos daquele tempo em que cruzávamos na rua, no inconsciente esplendor da nossa juventude, pelo Gilberto da Tica, pelo João do Cantalício, pelo Chico da Currucha, pelo Censinho do Euzébio, pelo Tenente Cibeira, pelo João do Pereca, pelo Zecão da Anita, pela Nair do Lolo (a Nair que vendia balas nos recreios do Vinte), pelo Adão da Pepita, pelo João Ticató, pelo Martin Ligeiro, pelo Zé do Julião, pelo Paulo do Picão, pelo Zé da Coxilha, pelo Ari da Pendica, pelo Adão da Cizica, pelo Padre Thomé, pela Piola do Ondino, pelo João do Vida, pela Lota do Budanha, pelo Lauro Surdo, e tantos outros. Tá, agora, relaxe que a crônica está no fim. Deixe a leitura do jornal para mais tarde, abra a porta da rua e tome um solzinho na calçada indagando por tudo e a todos. Vá. Sua idade o autoriza a viver indagando o nome dos vizinhos, dos forasteiros, de todo mundo ao seu redor – tudo bem longe dos filhos e dos netos para que eles não paguem mico, evidentemente. Não tenha pejo de ficar xeretando para saber o nome dos outros. Afinal, como se viu, (faça suas contas...), você pode estar correndo o risco de ter mais conhecidos lá em cima, do que aqui em baixo. Não é?
Embora a vida comece aos quarenta, como dizem, é bom saber que qualquer objeto de nossos dias será antiguidade em 2051. Da mesma forma, qualquer fato passado lá nos idos de sessenta, ao menos para gurizada de hoje, é coisa jurássica. Dito isto, vamos a um teste. Se você não for alvo de cinqüenta por cento destas lembranças, parabéns... Se passar, paciência, não perca a esportiva. Isso é coisa que acontece. E, não é nada, não, mesmo por que você não é mais adolescente. Tendo crescido, ainda que não seja senil, aceite que você é alguém que já entrou na madureza. Vamos lá, então? Você lembra onde era a Rua da Morocha, (a ruazinha onde morava a Morocha)? A Avenida do Amor (ou Motel do Zoca, ou Dozocaliptos, como queiram...)? A Coxilha do Fogo? A Vila da Palha? A Travessa dos Bidivas? O Colégio das Irmãs ou a Cancha dos Bonneau? Viu? Você tá bem na foto, ainda... Você está se saindo bem, já de início. Mas, continuemos: Conheceu o Luís dos Burros, O Basílio da Bicicleta, O Zé Balhego, O Idílio Tetinha, o Arlindo Garua, o Menandro dos Ovos, o Alécio das Verduras e o carteiro de nome Emílio Caturrita? Viu? Olhe, sem crueldade nenhuma ( até por que não é do nosso feitio ), vamos ter que continuar este teste: Conheceu o cavalo do Graúdo? O macaco do Ernesto? O caminhão do Antônio? A égua do Bidoca, A Verruga do João Rodrigues? A carpintaria do Ondino? O Bar da Noca, a venda do Apolino, a churrascaria do Pedro Leitão, a Churrascaria Nascib e o bar da Dalila? E os carros de praça do Seu Venâncio, do Seu Alvim, do Zézinho e o do seu Nelson? Chegou a andar neles? Então, descontraiu? Chegou no pedaço? Ah! Sei. Começou a bater uma pequena deprê? Fique firme, tudo se acomoda. Não se entregue. Cantarole baixinho aquela sua velha e conhecida música portuguesa “Só nós dois é que sabemos”... Seu teste tem tudo para dar certo... Ainda que sejamos daquele tempo em que cruzávamos na rua, no inconsciente esplendor da nossa juventude, pelo Gilberto da Tica, pelo João do Cantalício, pelo Chico da Currucha, pelo Censinho do Euzébio, pelo Tenente Cibeira, pelo João do Pereca, pelo Zecão da Anita, pela Nair do Lolo (a Nair que vendia balas nos recreios do Vinte), pelo Adão da Pepita, pelo João Ticató, pelo Martin Ligeiro, pelo Zé do Julião, pelo Paulo do Picão, pelo Zé da Coxilha, pelo Ari da Pendica, pelo Adão da Cizica, pelo Padre Thomé, pela Piola do Ondino, pelo João do Vida, pela Lota do Budanha, pelo Lauro Surdo, e tantos outros. Tá, agora, relaxe que a crônica está no fim. Deixe a leitura do jornal para mais tarde, abra a porta da rua e tome um solzinho na calçada indagando por tudo e a todos. Vá. Sua idade o autoriza a viver indagando o nome dos vizinhos, dos forasteiros, de todo mundo ao seu redor – tudo bem longe dos filhos e dos netos para que eles não paguem mico, evidentemente. Não tenha pejo de ficar xeretando para saber o nome dos outros. Afinal, como se viu, (faça suas contas...), você pode estar correndo o risco de ter mais conhecidos lá em cima, do que aqui em baixo. Não é?
Don Silvestre
Don Silvestre
Para o Sérgio Silveira Canhada
Década de sessenta. Nosso amigo se chamava Dário Maciel Costa e foi tabelião e notário da Comarca até sua aposentadoria. Seu cargo abrangia o Registro de Imóveis e Documentos. Deste cartório o substituto era o Osório. Já o Tabelionato ficava sob encargo do Levi. Por aquela época, se alguém precisasse de um reconhecimento de firma ou marcar uma escritura, e ocorresse não estar no Cartório o Seu Dário, de certeza certa, ficava esperando pelo seu retorno. Até houve quem, ante a sua ausência por motivo de viagem, com ombros no balcão e mãos na cabeça, proferisse frases que ficaram no anedotário da cidade: - O Seu Dário não tá?... Viajou!!!... Bahhh!, me quebraram as pernas!!! E não adiantava explicar que tanto um substituto como o outro tinham autoridade para firmar assinaturas notariais. Não estava o Seu Dário, estava criada a broma... Vai daí, os poderes dele não só eram solicitadíssimos para chancelar todo e qualquer papel que garantisse uma transação, como também estendiam-se às raias da paranormalidade, segundo seus idólatras. E, neste particular (haverá quem lembre?), imputavam ao nosso amigo tabelião poderes até para fazer desaparecer verrugas. Havia, crença das crenças, a de que verrugas em que ele colocasse os olhos caíam de imediato. Era tiro e queda. Com tal lenda que corria a frouxo não foi uma ou duas vezes que os pais levaram os filhos ao cartório na esperança de que o Seu Dário, por um acaso..., sem se dar conta..., sacumé? fizesse desaparecer as verrugas que tanto enfeiavam mãos. Os pequeninos iam de colo e manuseavam os documentos no balcão à sua vista; os mais taludos botavam as mãozinhas à mostra sobre o balcão; os outros, os maiores de todos os tamanhos e verrugas, assinavam os documentos com uma calma de dar espanto, enervando quem estivesse apreciando a manha. Nós, os mais chegados à sua amizade (a crase eu estou colocando por birra), sabíamos que quando o amigo flagrava esta segunda intenção fazia uma oração, baixinho, quando os verruguentos se iam: Deus queira que te nasça mais verrugas no..., na..., e vão todos para... seus filhos da... e por aí, ía... Mas, não adiantava, as verrugas caíam mesmo, uma a uma, acreditem! Nós o chamávamos de Coronel. Mas o nome que ele gostava e tinha escolhido para si, era bem criollo: Don Silvestre de Ávalos, que era padrinho de um neto do Martin Fierro, o Sejanes. É..., só quem viu... Só quem foi seu amigo...
Para o Sérgio Silveira Canhada
Década de sessenta. Nosso amigo se chamava Dário Maciel Costa e foi tabelião e notário da Comarca até sua aposentadoria. Seu cargo abrangia o Registro de Imóveis e Documentos. Deste cartório o substituto era o Osório. Já o Tabelionato ficava sob encargo do Levi. Por aquela época, se alguém precisasse de um reconhecimento de firma ou marcar uma escritura, e ocorresse não estar no Cartório o Seu Dário, de certeza certa, ficava esperando pelo seu retorno. Até houve quem, ante a sua ausência por motivo de viagem, com ombros no balcão e mãos na cabeça, proferisse frases que ficaram no anedotário da cidade: - O Seu Dário não tá?... Viajou!!!... Bahhh!, me quebraram as pernas!!! E não adiantava explicar que tanto um substituto como o outro tinham autoridade para firmar assinaturas notariais. Não estava o Seu Dário, estava criada a broma... Vai daí, os poderes dele não só eram solicitadíssimos para chancelar todo e qualquer papel que garantisse uma transação, como também estendiam-se às raias da paranormalidade, segundo seus idólatras. E, neste particular (haverá quem lembre?), imputavam ao nosso amigo tabelião poderes até para fazer desaparecer verrugas. Havia, crença das crenças, a de que verrugas em que ele colocasse os olhos caíam de imediato. Era tiro e queda. Com tal lenda que corria a frouxo não foi uma ou duas vezes que os pais levaram os filhos ao cartório na esperança de que o Seu Dário, por um acaso..., sem se dar conta..., sacumé? fizesse desaparecer as verrugas que tanto enfeiavam mãos. Os pequeninos iam de colo e manuseavam os documentos no balcão à sua vista; os mais taludos botavam as mãozinhas à mostra sobre o balcão; os outros, os maiores de todos os tamanhos e verrugas, assinavam os documentos com uma calma de dar espanto, enervando quem estivesse apreciando a manha. Nós, os mais chegados à sua amizade (a crase eu estou colocando por birra), sabíamos que quando o amigo flagrava esta segunda intenção fazia uma oração, baixinho, quando os verruguentos se iam: Deus queira que te nasça mais verrugas no..., na..., e vão todos para... seus filhos da... e por aí, ía... Mas, não adiantava, as verrugas caíam mesmo, uma a uma, acreditem! Nós o chamávamos de Coronel. Mas o nome que ele gostava e tinha escolhido para si, era bem criollo: Don Silvestre de Ávalos, que era padrinho de um neto do Martin Fierro, o Sejanes. É..., só quem viu... Só quem foi seu amigo...
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
O burro é burro?
O tema é antigo e recorrente e trata de uma séria injustiça para com um animalzinho tão dócil, tão esperto e resistente. Por aqui lembramos os burros do Luís dos Burros. O Luís, lá da Coxilha do Fogo, carroça carregando areia para as construções, pingando água rua a fora... Seus animais, invariavelmente carregavam nomes de políticos. Nomes que eram engraçadamente trocados ao sabor dos tempos: os burros Meneguetti, Peracchi, Guazelli (nunca se soube se teve burro com nome de político local) e a mula Castorina que nunca trocou seu nome, pois eram raríssimas as mulheres que entravam na política naqueles tempos. Aproveitando o assunto, parecido com um burro do Luís, um deles, de nome Platero, alavancou um Prêmio Nobel para Juan Ramon Jimenez, em 1956: Platero pequeno, peludo, suave, parece feito de algodão, sem ossos, mas com um olhar duro, escreveu o poeta espanhol. Célebre também é o burro de Balaão. No Livro dos Números, 22:23 a 22:33, escrito por Moisés, em 1400 A.C., o burrinho que passou a vida inteira transportando Balaão, por três vezes foi duramente chicoteado (num dia de patetice deste Profeta). O Anjo, depois, envergonhou Balaão jogando na cara dele a estultice de castigar um animalzinho tão inteligente e tão fiel. Temos, ainda, os burros falantes do Velho Machado de Assis: Numa crônica publicada n’A Semana, de 16 de outubro de 1892, tratando do tema sobre a inauguração dos bonds elétricos na cidade do Rio de Janeiro, o narrador surpreendeu a conversa de dois muares que filosofavam sobre o destino deles (conversa que foi à luz porque os animaizinhos, tanto quanto quem os ouvia, também eram versados na língua dos houyhnhnms, aqueles da última viagem de Gulliver e que eram inimigos dos Yahoos). E os Burros de Buridan? Será a indecisão dos animais um copy desk desastrado em cima das divagações aristotélicas de dois mil e trezentos anos atrás? Escolheram bichos errados para a demonstração correta do determinismo moral proposto por Jean Buridan? E a velha história do Burro do Camponês que caiu num poço. E, em sendo impossível resgatá-lo para o chão plano, resolveu seu dono, ajudado por outros campônios, jogar terra no buraco e enterrá-lo para que morresse. Foi então que, pá após pá de terra jogada, o bicho foi subindo, subindo espertamente, até a borda do poço. Ah! Os burros... Pedro Malasartes - segredando ao asno a morte da sua mãe (dele burro) - socou-lhe um charuto aceso no ouvido. O Barão de Münchausen (o Malasartes germânico) montava a metade da frente de um burro na sua inverossímil história da fonte. Bocage (Manuel Maria Barbosa du Bocage, o Elmano Sadino da Nova Arcádia, maior poeta da língua portuguesa – que nestas paragens é conhecido somente por ter sido pândego) montava um burro quando chegou à casa do camponês, para ensinar a fazer uma sopa de pedra. Outro pícaro, célebre na literatura da Idade Média: Till Eulenspiegel. Tinha um burro falante e com ele entulhou o anedotário do Sacro Império Romano-Germânico com suas picardias. Ué! Desviei do assunto... Perdi o fio da meada... Justo quando me ocorria dizer uma coisa pitoresca sobre os burros. Ou sobre os burros? Pô!terça-feira, 9 de agosto de 2011
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