Al Di Lá

Você se lembra do filme Candelabro Italiano?

sábado, 31 de janeiro de 2009

Surras bem dadas...

Não, caro leitor, não me refiro a esta última eleição. Até por que esta não foi surra - ou matar-a-pau é surra? Pensei, sim, naqueles idos de sessenta e oito, quando o País estava imerso naquele mar da ditadura e nós, corajosamente, fazíamos campanha política esparramando aos quatro ventos desaforos que os nossos adversários jamais viriam a perdoar. Arriscávamos o pelego, mas não perdíamos vasa. Pois, sobre a pobreza franciscana das nossas campanhas políticas e o manancial de dinheiro que eles tinham para nos humilhar, faz bem lembrar daqueles comícios realizados com a mesma estratégia de hoje: Um ou dois no centro e outros nos arrabaldes, nas vilas, nos fins de rua, no interior. Comício onde hoje está a sinaleira (centro), na Sete Portas (também centro), na hoje Praça dos Camelôs (Rua Severo Feijó). Nas Três Marias, no Armazém na Hora (cruzamento da Herculano com Baltazar), nas Pedreiras e no Peregrino Garcia. Comícios para partidário nenhum botar defeito. Tínhamos bons oradores e uma vontade infinita de xingar. E assim era: A um adversário que despejava lugares comuns em abundância, além de poesia satírica em cima dele, jorravam apelidos: Ou era o Conselheiro Acácio ou, mais esculachadamente, por ser advogado, um Nelson Hungria de Alpargatas Roda. A outro, um moço ainda, apelidamos desde o palanque de Tiradentes da Airosa Galvão (este, alguns anos depois, nos deu o troco na altura: em sociedade com os ventos da ditadura nos ganhou duas vezes a Prefeitura). Quando um deles, candidato a vereador, que por sinal não se elegeu, abriu os braços num discurso para pedir a Deus vitória para eles, de pronto, ganhou o apelido de Nazareno das Bretanhas. A uma personalidade feminina que debutava num palanque - alçando vôo para uma posterior vereança – nosso orador chamou de Nossa Senhora de Chinelo-de-dedo. Quando, num comício deles, o orador provocou as nossas cores citando um provérbio árabe – aquele da caravana que passa... -, foi plaft-pluft: Eles que segurassem as deles que os nossos estavam soltos. Foi só apelidar um orador nosso de Fantoche que, de troco, um figurão deles se viu obrigado a abolir sua vistosa peruca. Era um toma lá dá cá no qual éramos imbatíveis. Eram abundantes os impropérios de comício naqueles idos de sessenta e oito. Agora, nos palanques, quando algum mais afoito passou das medidas e enveredou para o caminho do xingamento, logo logo, ambos combatentes (por que só tem dois, não é verdade?) correram para amenizar as asneiras ditas. Até desculpas se pediu (o que é bonito, mesmo). Mas, nem imaginem aqueles que não viveram aquela época - a daquelas surras -, o caudal de desaforos que nossos adversários levavam para casa. Hoje, como dissemos lá em cima, no início, não se dá mais surras como antigamente. Hoje, são os tempos, lava-se a alma. Bem lavada. Duas mil seiscentas e sessenta e cinco vezes...

Joãozinho

Solzinho da tarde. Esquina da venda do Seu Nadir. Trocando amenidades, o Idinho e o Aldírio Ferreira. – Espera, - que o apelido deste era Aldírio Beiço, alcunha que ninguém se animava a usar quando tratava com ele, pois, além de secarrão, não se abria nunca, e, por um nadinha, nadinha, estava soltando as patas. Na mesma calçada em que conversavam, e na direção deles, vinha o Joãozinho Carriconde. Chegou, deu um bom-dia, puxou assunto sobre o tempo e antes de partir se dirigiu ao Idinho: - Te vendo cinco quilos de beiço! Compras? O Idinho gelou... O Aldírio, cinzento de brabo, não mexia com um músculo, sequer. Aquele silêncio... O Joãozinho, então, com o dedo em riste, levou-o ao umbigo do Aldírio, fazendo que lhe dava uma facada e foi se retirando. Os dois que conversavam ficaram quietos... O Joãozinho já ía longe, quando o Aldírio confessou: Que sujeitinho! Com esse eu nunca pude...
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O Joãozinho gostava de implicar com o Laquiman, motorista do carro fúnebre. Ao vê-lo, esperava que ele também lhe visse e então se benzia. Terminado um enterro o motorista manobrava o carro para guardá-lo no Pátio da Usina Velha, defronte à agência dos Correios e Telégrafos. Na frente do Correio, na calçada, o Joãozinho jogava conversa fora com o Frigideira, esperando que o Laquiman os visse, para fazer a sua implicância. Desta vez, não se benzeu, como sempre fazia, mas atirou uma linha: - Depois vem cá, Encardido, tenho que te fazer um pedido. É coisa séria! O motorista da municipalidade guardou o fordeco e atravessou a rua para ter com os dois que conversavam na janela. – Pronto, Joãozinho! Tu tá doente, hoje? Não implicaste comigo... E o Joãozinho: – Olha, Encardido, quero te contar uma coisa que eu tenho comigo: No dia que tu me levares para o beleléu, pode escrever, essa gaiota vai estragar na coxilha do Aquilino. Ou eu ou ela...

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Assim o Joãozinho levava a vida... Passou seus últimos dias num leito do hospital, cercado pelos amigos, todos bons bebedores por virtude, cada um mais moleque que o outro. Puro eles. Só vendo! Sua mulher, a Professora Alice, profundamente devotada, sempre lhe dispensando a maior atenção, não saía da cabeceira de sua cama. Certo dia, num horário de visita, apareceu no quarto o trio inseparável composto pelo Alberto, Cabrito e Paulinho do Engenho. A Dona Alice, que lutava para que o Joãozinho se ajudasse na alimentação, já estava à exaustão com as negativas dele quando ela oferecia algum alimento. Ela insistia, ora com um pouquinho de maçã, raspada com uma colherinha, ora com um biscoitinho molhado no guaraná e ele, inflexível, fazia as maiores caras de nojo e repelia o alimento. Tudo ela tentava na esperança de que alguma coisa acabasse por agradá-lo. Ele, só sacudia a cabeça em negativa. Chegava a fechar os olhos para não ouvir e demovê-la da insistente idéia alimentá-lo. Não queria mais nada e estava aceitando seu fim com determinação, cada vez enfraquecendo mais. Mas, nesse dia, com a chegada do trio, que poderia fazer companhia por uns momentos a seu marido, a Professora resolveu dar um pulinho na copa do hospital e pedir um copo de leite morno. Quem sabe? De repente o marido poderia tomar um golezinho. Nesse ínterim, ficando eles sozinhos no quarto, o Cabrito chega-se bem para perto do amigo doente e questiona: Joãozinho, tua mulher te ofereceu um pouquinho de maçã raspada, tu não quis, te ofereceu um biscoitinho molhado no guaraná, tu não quis saber... Agora, ela foi buscar um pouco de leite morno para tomares e eu sei que tu, teimosamente, não vais tomar... Aí, o Cabrito chegou mais pertinho do ouvido dele e perguntou: se eu te oferecer o fiofó garanto que tu queres? Não vais agradecer um moganguinho... Vais? O Joãozinho, que também sempre teve alta dose de espirituosidade no corpo, pareceu melhorar com a bobagem. Fez um leve sinal com a mão, pedindo a aproximação do Cabrito, e, com uma fingida cara de desconsolo, brindou os amigos boêmios com sua última molecagem, respondendo, num muxoxo, com os olhos brilhando e a voz se sumindo: - Tu não vais me dar.....

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O Joãozinho acabou indo primeiro que o Laquiman. Chovia torrencialmente naquele dia. Na Vila da Palha, dentro do boteco do Nestor Crochi, olhando as pessoas que tiveram que levar o corpo à pé e voltavam do enterro, abaixo de água, o Laquiman sacudia a cabeça. Depois de vários martelinhos, esperando a chuva amainar, da porta do bar, olhando para o Modelo A, preto, empacado quase defronte à casa do Aquilino, meio atravessado no barro da estrada, ele sacode a cabeça, mais uma vez. Por fim, pensando na última peça que o Joãozinho lhe pregara, concluiu: - Esse, sim... Esse se enterrou implicando com a gente... Esse foi de morte!...

Crônica do Radialista



Abraço, Títi

É isso aí gente… 35 milímetros. Obrigado Zé... Olha pessoal, chove conforme a previsão. A chuva veio numa boa hora. Não percam a entrevista hoje, às treze horas com o... Um abraço, Silva. Estava sensacional o Prato. Beleza! Bem, logo mais, estaremos em nossos estúdios com o nosso entrevistado o... Está apertando a chuva. Aí, Silva, e o tempero? Quando erram, a comida fica gostosíssima... Falar nisso um abraço para a... para a... É brincadeira! Estás um pedaço de mau caminho, Títi, deslumbrante, podes crer! São dez e cinqüenta e sete aqui nos estúdios da mais potente e querida desta zona. Não percam a entrevista nos 1230, e seus quinhentos wats, com o... o... São dez e cinqüenta e seis... Chove intensamente... Um abraço Zé... Sucesso, hein! Trinta milímetros... Parece que a chuva veio para ficar. Ah! Títi, tu estás lindíssima, linda de morrer! Para qual cerveja estás trabalhando, beleza? É brincanagem... Convite para... para... Olha aqui, gente, esta é de última hora, importantíssima, reunião da Coonesul, não percam a cobertura total que fizemos. São dez e cinqüenta e oito. Está me dizendo aqui o Tiquinho... Quantos milímetros, mesmo? Amanhã, pessoal, várias ofertas no Supermercado Sem Preço. Amanhã, sábado. Como chove... Convite. Convite para missa de sétimo dia: Os familiares... Vinte e cinco milímetros, já? Os familiares do sempre lembrado... Ah! Um abraço, Paulinho, o Prato sem ti é vazio... Mas, e ontem, à tarde, passeando na Avenida? Que loucura, mulher! Estás arrasando... Os familiares convidam para a missa que se fará realizar na... Tu és Su-bli-me, Títi. Cada vez mais linda... Nooossa! Realizar na Capela Bom Senhor às cinco horas... Com o entrevistado de hoje, não percam, vocês vão saber tudo sobre a... a... Vinte milímetros, pessoal, e onze e dois, em ponto! Para a missa que se fará realizar às cinco horas deste domingo. Pelo comparecimento, agradecem. Aqui, a mais querida, trinta e oito anos de informação... Onze e três em nossos estúdios... Sete graus... Faz frio, gente... Não percam a entrevista, hein! Imperdível a entrevista com o... Imperdível. A Por Mais botando para quebrar amanhã no Sabadão Por Mais... Atenção Tito, estamos aguardando contato, precisamos saber tudo sobre o importantíssimo torneio de futebol de várzea no campo do Força e Luz. Importantíssimo. Importantíssimo. Importantíssimo. Daqui a pouco entrevista com... É, estás ma-ra-vi-lho-sa, Títi... Dando com as duas mãos... Benza a Deus! Onze minutos e oito milímetros. Trinta e duas horas. Seis graus e nove centavos, em nossos estúdios. Chove. Belíssima manhã de sexta-feira, Títi...

Os Vaqueanos

Ano de 1784. Rafael, com a luneta expandida, olhou para o leste. Conseguiu vislumbrar algo que teria sido um forte, agora em ruínas, na embocadura do Piratinin. Depois, correu o olhar pela extensa planície do sul, ao longe, onde se fundia o céu com a linha do horizonte. Corria o óculo de alcance ora para o oeste, ora voltando lentamente para o outro lado. Por fim, olhou abaixo o arranchamento do Passo da Maria Gomes que, dali do cerrito, onde subira com o Alferes Guilherme, era visto em toda a sua plenitude. Passou a luneta para o outro e sentou-se na raiz de uma caneleira frondosa que lhes dava sombra. Quedou-se, pensativo, com o olhar perdido naquele verde à sua frente, do outro lado do rio serpenteante. Novamente aquela idéia obsessiva o obrigava a uma confidência com seu companheiro de tantas incursões pelas pradarias da Província. – Sabes, Guilherme, é muita judiaria uma região tão bonita como essa, além do rio, não ter dono e nós não termos coragem para conquistá-la?... O Alferes, que olhava para os lados das Asperezas, fechou a luneta, vagarosamente, colocando-a sobre o alforje que estava no chão a seus pés. Caminhou em volta da árvore onde estavam e voltou com três pedrinhas e dois galhos pequenos de vassoura vermelha. Sentou-se defronte ao Coronel que, quieto, cuidava sua movimentação. Desgalhou os ramos. Amontoou as três pedrinhas dizendo: - Vê, amigo, se estou errado. Estes são os três cerros que vemos ao poente, mais à esquerda daquele cerro chato. Do lado desta pedrinha nasce aquele arroio grande que morre lá embaixo, nos pantanais, quando encontra a Mirin – e apontou com o braço na direção da lagoa. E este é o Piratinin – continuou – encostando à outra pedra o outro galho, em paralelo ao primeiro. Tirou da algibeira um fuzil, que usava para acender o pito, colocou-o lá embaixo, em pé, à direita do rio, como se fosse o antigo Forte de São Gonçalo, e continuou a sua fala: – Rafael, nós conhecemos, como ninguém, estas paragens. Daqui, até além do Tacoary, são como a palma da nossa mão. Vamos aproveitar que os espanhóis não conhecem a região e estão atrapalhados, peleando com os charruas, lá no Rio da Prata, para fazermos um acampamento num daqueles três cerros. Depois, se o Vice-Rei deles der em grito, o nosso pode responder, com cautela, que estamos na nascente do arroio a que alude o tratado. E, rio e arroio nascendo juntos, e paralelos correndo em direção à Mirin, ajudam a nossa vontade e a nossa Coroa. Tomemos conta dessas pradarias que ficam entre essas duas linhas. Não é o que tanto cobiças?... Quem sabe?! Longo tempo e os dois calados. O alferes insistiu: – Que lhe parece, Coronel? O silêncio foi maior enquanto se acomodavam para voltar. Desceram o cerrito. Dois meses depois Guilherme, comandando oitenta e seis soldados, cumprindo ordens do Governador da Capitania, levantava um acampamento numa coxilha onde eram abundantes os ervais. Levara carpinteiros, pedreiros, oleiros, latoeiros, padeiros, víveres, folhas-de-flandres, pregos e ferramentas para o trabalho pesado de construção. Quando a Vila já estava consolidada, o Coronel, ainda Governador, distribuiu terras para seus fiéis soldados, todas do lado direito do arroio grande que nascia nos cerros. Só Guilherme não aceitou dádiva nenhuma. Queria voltar para a sua terra natal nos Açores. Contava quarenta e oito anos, a mesma idade de Rafael Pinto Bandeira quando, em 1788, pegou carona num brigue que levava o Coronel até a Corte de Lisboa. Fizeram escala na Ilha de São Jorge onde Rafael passou uns dias na casa de pedra construída por Wilhelm Van der Hagem, fidalgo de linhagem flamenga, um antepassado do seu Alferes. Na Vila do Topo, de onde saíra para se aventurar na Colônia do Brasil o vaqueano Guilherme da Silveira.

Cartuxo

O Cartuxo e o Turco Elias tomaram, juntos, bebedeiras memóráveis. Numa delas, em que iam em direção à venda do Miguel Aliodes, caiu a roda da carroça do Cartuxo. O contratempo, no entanto, custou a ser notado pela dupla. Condutor e passageiro estavam mais preocupados era com o trago. A garrafa passava da mão de um para a do outro e os sucessivos goles de cachaça davam vasão a uma conversa interminável. Os dois, num dá-le trago que dava gosto, bebiam desmedidamente. Quando a canha chegou ao fim, eles quase caindo do veículo, e nada de chegar na venda, o Turco Elias, nas águas, olhos já pequenininhos e embaciados - com a carroça ali, paradinha, paradinha, ladeada -, perguntou: Cartuxa, essa descida braba da rua não vai ter fim???.

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