sábado, 21 de março de 2009

Cartas/crônicas Incompletas sobre a Rua Doutor Dionísio de Magalhães para o João Antônio Garcia, o Jotagê.


(Primeira carta)
João Antônio.
Tua última crônica publicada no jornal A EVOLUÇÃO, foi de uma felicidade incrível, teve a virtude de mexer com a nossa lembrança, deixou bem a mostra que o cordão umbilical que te liga à nossa Terra nunca vai ser cortado. De há muito tu vens escrevendo sobre este tema/saudade e já há bom tempo vens me toureando para que eu também escreva sobre ele. Escrever sobre o tempo da meninice, da adolescência vivida nesta província. Agora, me rendo, não tem como um vivente não entregar os pontos. Há muita coisa para se registrar, se contar... Às vezes, quantas vezes, eu faço as mesmas viagens que tu fazes pela nossa cidade... Pois bem, vamos escolher uma rua, vamos? Pode ser a tua. Quantas coisas antigas na tua antiga rua. Quantas coisas a lembrar num simples passeio que poderia começar na barbearia do Seu Berto e terminar na venda do Dinarte, na Bica, na Fábrica de Café do Didivo, naquele finzinho de rua. Quanta coisa entre estes dois pontos... A meio caminho, a Sete Portas e nela, latejando como um coração, o bar Honra e Glória do Irani, cheinho de chinas (a Negra Maurícia, a Maria Vaca, a Nair Gaveta, a Helena Peluda). Defronte, o Cabaré da Marina, o antigo, o que não nos foi possível conhecer as entranhas, pequenos que éramos. O Bar Meu Cantinho do Alicate e a correspondência e a cumplicidade destes lugares com a Casa de Cômodos do Zé Cavallieri. O Bar da Iracema do Tuca, a barbearia do Couto. A casa do Marta Rocha, sempre sozinha, até hoje sozinha naquela esquina, lembras? E os gansos da Dona Margarida? A Venda do Nestor - um centro comercial - que não sabíamos que existiria um dia, só na nossa imaginação. A casa do Wilson Feijó, o Hotel do Chico Bonneau, residência do Alvim Caminhão. A casa da Dona Coca, a carpintaria do Lauro Surdo, defronte à Casa Alfredo. A casa da Lina, a casa do Seu Paulino e a barbearia do Seu Nito e a venda do Carlos Barulho e a alfaiataria do Seu Hugo e a Voz dos Pampas. A Delegacia de Polícia (o Delegado Herculano), depois Padaria do Fioravante; O Posto de Saúde naquela esquina confronte à casa do Seu Donário, depois do Albino Peter. A Usina, principalmente o pátio da Usina, defronte ao Correio. O Café do Deca, o escritório do Antônio Silva, o Bazar da Dona Negra e a sede do jornal. A Oficina do Antenor e o Posto de gasolina na esquina do Aldírio, teus vizinhos mais próximos. Ah, João Antônio, quanta coisa num pedacinho de rua, na rua da Oficina do Valentim (ou da Loja do Rocco?). Um dia ainda escrevo sobre isto... Um abração, Arnóbio. (cont.)

Segunda Carta
João Antônio.
Escrever sobre a tua Rua foi mexer em vespeiro. Pensava ter esgotado o assunto. Pensava. De certeza a onça da saudade foi cutucada com vara curta. Não haveria de ser a tua Rua apenas uma rua. Tua Rua é um mundo. Um mundo que espera venhas, sempre mais uma vez, para compartilhar, com os mesmos de sempre, a sempre renovada nostalgia. João, tem o tempo em que havia uma oficina de consertos que pertenceu ao cidadão João Jacinto Garcia (teu avô?), lugar onde foi o Armazém Pacífico, defronte à horta do Irani. A venda de Secos e Molhados do velho Martim Sapo, que ficava a menos de cinqüenta passos, em diagonal, da Casa do Pedro Costa, pai do Nero e defronte a tua. O armazém do Horácio, esquina com a Praça, onde chegou a funcionar uma forte casa comercial do Izidro Peres (neste lugar também existiu o restaurante do Otacílio Bichão). Perto, ao lado, o Bazar Arroiograndense e o consultório do Doutor Falcão. A relojoaria do Seu Cesário, irmão da Dona Nita do Zecão Carneiro, ao lado da casa do Gu. O engenho do Seu Davi Costa com aquela chaminé imensa, que até hoje existe e que tocou milhares de ave-marias do Gounod (através dos alto-falantes do Ganso). Todos, ou quase todos, lugares que foram íntimos dos nossos pais, que eu estava deixando, pois, para listá-los numa outra oportunidade, quando voltaria a falar sobre a tua Rua de mais antigamente. Mas, é imperdoável ter esquecido a Padaria do pai do Dandão, no lugar onde funcionou a Loja do Turco Issa; a venda do Branquinho, lá naquela lonjura; a venda do Jaime Rodrigues, penúltima casa da rua (o caixeiro era o Mauro do Cazuza). A última casa da rua, então, era a Padaria Punta del Este, do Efrain, pai do Corvo. Ainda agora a saudade, que é grande, vai me jogando, aos trancos, para novos achados de antigamente: A Churrascaria do Adão da Cizica, vizinha ao Hotel Regente do Vilmar Hackbart. A Voz Rural, com o Sérgio do Venâncio de locutor, e a sapataria do Amândio, pai da Praxedes, defronte àquela pequena pensão familiar onde morou o Laudelino Três Bolas (se não me falha a memória ele era o gerente, no tempo do Gringo da rodoviária). Que mais? O Bar Só Vai, a Pensão da Noêmia do Deca, o Posto Ipiranga defronte à Praça e uma Padaria que foi do Neri Canhada, na esquina da rua do Vinte. Quanta coisa ficou para trás, ainda; quanta coisa faltando para completar esta pequena memória sobre a tua Rua. E sobre as pessoas da tua Rua? (diz o Nelsinho que é a rua que mais tem ou teve músicos, será?). Vem rolo!!! Um abração. Arnóbio. (cont.)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Cartas para o João Antônio

(Terceira Carta)
João Antônio.
Como é bom escrever sobre a nossa cidade, sobre as nossas coisas. Agora mesmo, mais dados sobre a tua Rua de antigamente, a nossa Rua de sempre e que, ao que tudo indica, sempre viveu sob o império das mulheres. Desde os tempos da Chácara da Lina, no início da rua, refúgio onde a molecada de então caçava tico-ticos e pardais, até o último bar inaugurado: o Bar da Rogéria do Ósca (escala do Papaco antes de ir para o Molenguda e encerrar o trago). Na rua, ainda hoje, um dos bares mais fortes do momento é o da Marilda na esquina da rua do Vinte, no mesmo local em que existiu a churrascaria da Sílvia do Élvio. Noutra esquina, foi point (quando a palavra ainda não era aplicada) a Churrascaria da Eni, na chaminé. Nesta rua foi famoso o peixe da Marina. Marina velha de guerra, navio-escola... Bastante afluência teve, também, em certa época, o Bar da Mirta, que ficava lá para as bandas da Cooperativa. Sob a batuta de uma mulher, também, existiu um bar que marcou época e foi do nosso tempo de guri: o da Noêmia do Deca, na esquina da Praça. A Tabacaria da Nanci e, quase defronte, o restaurante da Neli, com o nome de “Progresso”.Teve, também, nesta tua Rua de antigamente a loja da Dona Mosinha, a pensão da Dona Augusta e o já citado, em oportunidade anterior, o bar da Iracema do Tuca. Mais, no mesmo local onde funcionou a autopeças do Professor Romeu, loja que se chamou R.B.Conceição, também abriu sua porta a cigarraria da Armênia. Neste mesmo prédio, já um pouco modificado, está instalada, hoje, a casa de comércio da Neilaci: Loja a Realeza. Quem lembra do Bar do Ademar, depois Bar Formigueiro (primeiro bar do Formigueiro)? No mesmo local chegou a existir o Bar da Oscarina, do Wilson, tudo não muito longe, tudo a menos de uma quadra do bar da Negrona, depois Bar da Idê, na Sete Portas. E o Armazém da Aninha, ao lado da tua casa, e a Loja da Ana Júlia, recentes mas não existindo mais. Pois, João Antônio, para mostrar que as mulheres deixaram marcas na tua Rua de antigamente, não seria justo esquecer o Bazar Arroiograndense, da Dona Negra, defronte à Praça, tão útil que foi, tão saudoso que é. Que mais, que mais coisas ainda dormitam sem que a lembrança as acordem? Quanta coisa ainda na tua Rua de antigamente há de surgir aumentando esta crônica/memória. Decerto, neste capítulo, em que se procurou lembrar as mulheres da tua Rua, mais mulheres foram proprietárias e não foram citadas. Fica para outra oportunidade. Um abração. Arnóbio.

(Quarta Carta)

João Antônio.

A cada amigo que mostro as cartas/crônicas que escrevi para ti recebo emendas e subsídios para complementá-las. Vê só no que deu ter escrito a primeira tão ligeiramente, tão inconseqüentemente. E ter escrito a Segunda, também como se pudesse ser definitiva. Agora, eu não quero escrever nenhuma sem estar cheio de certezas. Não me parece difícil fazer uma pequena memória da nossa cidade, mas, qualquer coisa que venha a ser escrita vai sempre merecer uma reforma. Eu, ao menos, estou gostando das correções que fazem. Uma delas: e a Boïte do Manuel Português que funcionou no prédio acima do Café Marrocos? Ora, não foi ali, então, que se apresentou a famosa Cubanita de Bronze, dançarina que veio diretamente de Porto Alegre para fazer a sua apresentação (sobre esta figurinha hás de encontrar por aí pessoas que tenham conhecido e dela falem para que melhor te situes na grandiosidade do evento aqui ocorrido.. Foi famosa, não sei se mais que a mãe. Sei que faz parte da memória da Capital). Então, falha como essa pode ser perdoada? Ah! Essa tua Rua de antigamente reserva, pois, muitíssimas surpresas, ainda. Assim como foi possível esquecer a boate, esquecida também foi a Loja Renner, do Dirceu Gaitinha, neste mesmo prédio que pertence à Sociedade Agrícola. Depois, existiram muito mais bares nessa tua Rua e estamos tentando resgatá-los do esquecimento.: Por acaso chegou a ser do teu tempo o Armazém dos Três Patetas? Onde mais tarde o Mulita instalou o Restaurante que até há pouco tempo existiu, sempre com mocotó aos domingos (na Nota Fiscal deste restaurante figurava o slogan “Mocotó Levanta Defunto”. Tenho guardada de recordação uma dessas notas). Naquela esquina defronte à Dona Margarida dos Gansos num certo tempo existiu o Bar do Aparício que, mais tarde foi transferido ao seu Carlinhos Cunha. Ao lado, a casa da Dona Menininha: vendia-se lenha. Há menos de cinqüenta metros outro esquecimento: a alfaiataria do Zé Cavalliere (eu apenas havia mencionado a Casa de Cômodos que ele manteve, porém sua profissão correta era esta e ali estava instalado o seu ateliê). E o Balaco? Lá das cercanias do Gravatá do Euzébio, o Balaco mudou-se para onde até hoje mantém uma casa de comércio que não ficou a dever nada para o Bar do Timotéo (vizinho doutro peixe, o da Tia Rosa). Pois é... Eu não ia mais escrever sobre a tua Rua de Antigamente sem antes me cercar de certezas, mas... João Antônio, ainda temos que falar sobre um autinho Renault, azul escuro, que existiu na tua Rua. Um abração. Arnóbio


(Quinta Carta)
João Antônio.
É sempre bom lembrar, amigo, que estas cartas/crônicas que escrevo restringem-se a uma memória da Rua Dr. Dionísio de Magalhães, somente. E, mesmo assim, a cada produção, há um enorme arrolamento de coisas esquecidas. Tua Rua Dr. Dionísio, que quando éramos meninos chamava-se Rua Júlio de Castilhos, vai hoje com mais antigas novidades. Só na quadra da tua casa: A Loja de autopeças do Seu Lerípio, lembras? Na esquina da Praça da Matriz, que também foi propriedade do Seu Ernesto Griep? Chegou a funcionar, ali, um Posto de gasolina, o Neri Canhada era o gerente. Ainda, na mesma quadra, sem ser do nosso tempo, a primeira casa que vendeu gelo, picolés e sorvetes, na cidade, de propriedade do Lauro Hernandez, estava localizada defronte a tua casa, onde hoje mora o Nelsinho. Ainda, quase ao lado da tua casa, existiu a oficina mecânica do seu Antenor, que depois pertenceu ao Lulu. Neste mesmo local, com oficina mecânica, iniciou sua carreira o Marcos, do Seu Esperança Antória. No lugar desta Oficina também foi Loja do Osmar Esteves: representação dos Adubos Trevo, de uma concessionária da marca Aero Willys (carros e camionetas) e de tratores. Muitos jogos de futebol escutamos com o amigo Hélio, que era funcionário desta loja, e morava ali. Neste mesmo lugar foi empregado o Quico, irmão do Osca, que era motorista e trazia os automóveis flamantes que eram vendidos pela loja. Ainda, só para não sair de perto da tua antiga casa, nessa tua antiga rua Dr. Dionísio, nessa mesma quadra, onde foi restaurante do Bichão, existiu o armazém do seu Horácio. No mesmo lugar foi proprietário de armazém o Jandir, tudo bem antes de ali ter sido a primeira loja da Corrida do Ouro. Na outra quadra, poucos metros longe da tua casa, defronte à Praça, ao lado da Loja da Dona Negra, funcionou a relojoaria do Schebella, a primeira. Então, já esquecias? Pois, só nessa quadra da Praça, mais duas relojoarias: a do amigo Walter, atleta do Saci, onde também escutamos muitas partidas de futebol - época anterior ao advento da televisão. Depois, esta relojoaria pertenceu ao Morales. Ainda, defronte à Praça a Casa de Comércio do Seu Diome. Ao lado deste armazém instalou-se, mais tarde, o consultório de dentista do Dr. Jader. Aliás, o outro consultório do Dr. Jader também foi nesta mesma rua, defronte à antiga usina, naquela casa de esquina que já foi Posto de Saúde. Bem, João Antônio, por enquanto é só. Um abração. Arnóbio.

(Sexta Carta)

João Antônio.
Esta é a prometida crônica sobre os músicos da tua Rua. Incompleta - de certeza - e à espera dos amigos para os reparos necessários. Diz o Nelsinho que é a rua em que mais moraram músicos ou pessoas ligadas a esta arte. Pois, vamos lá. Na tua rua morou, onde teve casa de comércio, a Dona Mosinha, que era pianista. Seu filho, de nome Elias, também foi pianista e fundador de um conjunto melódico que foi famoso na década de 60, tinha o nome de Blue Moon. Componente deste conjunto, e também morando na tua rua, o Nenê Balhego, que foi um virtuoso músico: além de ter um ouvido absoluto, tocava com maestria saxofone, clarinete, flauta e violão, além de outros instrumentos. O pai deste músico era o Seu Zé Balhego, irmão do Seu Fiquita, ambos clarinetistas. Perto da casa do Nenê, havia três bons gaiteiros: O Osvaldo Sanfoneiro, o Valnir do Ferreirinha e o Seu Agripino. Vizinho destes últimos seis músicos existiu um grande bandoneonista e tangueiro chamado de Pedro Cego, que morava na Sete Portas. Este não era do nosso tempo mas está na lembrança de muitos. Nesta vizinhança, também morou o Toninho Viana, gaiteiro. Perto, a casa do João Fernando, teu primo, que além de compositor, dono de grupo musical, é cantor, de voz melodiosa. Nestas imediações morou o Gessinho, que foi percursionista no Conjunto Blue Moon, e no Conjunto Flamboyant. Interessante, amigo, que estes músicos acima citados moravam todos não muito longe um do outro, em três quadras contíguas, quiçá a zona da cidade com mais músicos por metros quadrados. Talvez, mesmo, e isto mereceria um estudo mais caprichado, esta fosse a Zona Boêmia do nosso Arroio Grande. Ainda, para os lados do Colégio Dionísio, sempre na tua rua, morou o Hércio Costa, que até hoje toca saxofone e violino. Com este instrumento ele abrilhanta o coro da Igreja Matriz. Lá na esquina da Rua Padre Vilhegas outro gaiteiro: o Barroso, que ali teve a sua empresa por muitos anos. Perto da tua casa, João Antônio, também foi bom violonista, o Seu João, pai do Nelsinho. O Seu João tocava gaita de boca e violão, ao mesmo tempo. Quanta surpresa! Quem diria... E tudo na tua Rua de antigamente. Na pensão da Noêmia, por muitos anos morou um gaiteiro chamado Valpírio. Este, sentava na calçada defronte à Loja do Rocco e tocava gaita que dava gosto. Nesta rua morou o Cardo Peixoto, defronte à Praça. O Binigão, o filho, que é bom violonista e cantor. Mais, o Diretor do jornal Meridional, o professor, compositor e cantor Sidney Bretanha, morou ao lado da Cigarraria do Seu Álvaro. Tem mais... Um abração do Arnóbio.


(Sétima Carta)
João Antônio.
Não sei se nestas linhas vêm mais lembranças ou mais esquecimentos. Em todo caso, vamos ver: Lembras do Bar do Chagas, pai do Lisca, lá onde teve bar o Ademar do Posto de Saúde, defronte à venda do Seu Nestor? Chegaste a conhecer o Bar do Mofio, bem ao lado daquela primeira Bica da Prefeitura? Bica que, mais recentemente, veio para a horta do Irani, defronte à Fábrica de Café e do Depósito de Bebidas do Didivo. Nesta tua Rua, além das já citadas barbearias do Couto, e a do Seu Nito, em tempos idos, existiram as barbearias do Seu Paulino Neves (ao lado da alfaiataria do Seu Hugo – o Januário era alfaiate ou ajudante?) e a barbearia do Seu Emílio Hissé, na esquina da praça, onde existiu o Armazém do Luiz Marques, na casa do Seu Pitorra. Sobre armazéns, é bom lembrar que lá na esquina da Padre Vilhegas, existiram os de propriedade do Seu Fidelino, depois o do Jamir e, mais recentemente, o Armazém Colosso, sempre no mesmo prédio. Defronte a este armazém existiu a outra fábrica de café, Café Arroiograndense, lembras, de propriedade do Seu Arlindo? João Antônio, onde andam os restaurantes da tua Rua? O que fazer com a saudade do Acapulco, na esquina da praça, que marcou época, que recebia artistas, que era atendido pelo amigo Vanderlei? Cláudia Barroso, Kleiton, Kledir, Clébio Sória, Danúbio Gonçalves, Paulo Peres, quantos artistas o maitre Vanderlei cativou... Também, na esquina da praça, onde funcionou o primeiro Colégio Elementar, depois Grupo Escolar “ 20 de Setembro”, foi famoso o restaurante Forninho, ao lado da Lancheria Top Set. Neste prédio, antes do Café Rex, do Xandoca, abria suas portas o Café do Jandir. Por aqui, neste mesmo local, funcionou a churrascaria do Galo, propriedade do Galo Mendes. Na outra esquina, confronte à Usina velha, existiu o Restaurante Quitandinha, no mesmo local onde o Seu Fioravante, pai da Rose Guevara, estabeleceu a Padaria Santos. Ainda nesta rua, no mesmo local onde foi Restaurante do Mulita, funcionou o primeiro Restaurante Dois Irmãos. Estará terminando o rol de coisas antigas nesta tua antiga Rua? Não Acredito, sinceramente. Ainda não falei nos engenhos que existiram na tua Rua, amigo... Não citei nenhum comitê político... Quando falei sobre os relojoeiros, esqueci do Alcindo, defronte à venda do Seu Branquinho. Falei sobre as oficinas e esqueci a do Mário Link. Falei sobre as alfaiatarias e esqueci a do Otacílio. Falei sobre depósitos de bebidas e esquecia o do Anastácio, tão antigo, tão famoso. Por ora, um abração. Arnóbio.


(Oitava Carta)
João Antônio.
Ainda, a Rua Dr. Dionísio de Magalhães. Ela é uma verdadeira caixa de surpresas, um saco sem fundo... Tudo que sobre ela escrevermos há de ser sempre um rascunho, merecerá sempre muitas emendas. Muitíssimas emendas, certamente. Vou misturar, desta vez, coisas mais antigas com coisas mais modernas, vê: Defronte à Praça Matriz, depois de fechar o Restaurante Acapulco, abriu suas portas a Cigarraria Central, estabelecimento que vendia livros, revistas e jornais (a Guiomar era a atendente, quem esqueceu?). E, por esta mesma calçada, onde foi o Bar da Rogéria, antes, havia sido o Bar do Tino. Na esquina da Praça, depois de existir no prédio o Posto de Gasolina, funcionou a Autopeças R.B.Conceição, do Professor Romeu. Antes, neste local existiu a Loja Auto Esporte. Quase ao lado, nesta mesma quadra da tua casa, a Loja Figueiras, revendedora de peças agrícolas, representada pelo Osmar. Existiu, também, nesta tua Rua, a Cigarraria do Eraldo, na casa que foi alfaiataria do Seu Hugo. Adiante, defronte ao pátio da CEEE, a Loja da Ana Notari, depois Loja de R$ 1,99, da Eloísa Bonneau (Parece que foi, aqui, a primeira Loja da Sinaleira). Existiu, também, confronte à CEEE, a Loja de armarinho do Armando Nimer, onde, mais tarde, o Raniere também abriu uma loja. Tudo isto ía ficando para traz, nesta memória da tua Rua, e mais isto, João: na esquina onde estava o alto-falante da Voz dos Pampas, o Seu Davi Costa, em priscas eras, teve um forte armazém com o nome de Casa Guarani. O Felipe, por muitos anos, também, teve, neste mesmo prédio, que fora deste seu tio, um armazém. Lá na Rua Mário Maciel, onde foi barbearia do Seu Berto, recentemente, com prédio novo, instalou-se a Loja Movema, do Vilson. Depois, funcionou no mesmo prédio, sem que eu lembre a ordem, o Bar do Mingau e o Bar do Sérgio Patrício. Mais lá, ou mais cá?, onde foi Bar do Chagas (o atendente também era o Formigueiro), funcionou por muitos anos um açougue do Marino (o Lilia era o cortador de carne). No prédio em que os Alemães tiveram um Mercadinho, na quadra defronte à APAE, também teve, depois da Churrascaria do Adão da Cizica, o Mercado SE, do Santo Araújo. Defronte ao Depósito do Anastácio, onde foi o Bar Só Vai, teve o bar, do Pio e, depois, o do Joãozinho Britto. Outro abração. Arnóbio.

(Nona Carta)

João Antônio.
Esta crônica sobre a tua rua de antigamente sai com um tema delicado: os apelidos das pessoas que por ela caminharam (quando circulavam pelo Centro). Apelidos com tons de saudade, alguns, e, todos, deixando um rastro de lembranças, deixando suas histórias, enternecendo a aldeia, enfim... Hoje, os apelidos com nomes de bichos. Só nome de bicho, por enquanto. Apenas rascunho que te mando e que ainda contará com uma mãozinha do Papaco, do Gralha, de ti, Gordo velho de guerra, de tantos... tudo sem o intuito de causar mágoas. Pois, João Antônio, lembras do Anu, brigadiano? Esse vai puxar a lista. E quem vai fechá-la? Acho que vai ser o Zebu. Alguns dos apelidos tu vais tirar de letra, outros, vão chegar devagarinho, mexendo com a tua lembrança. Aqui, nem todos os apelidos são do teu tempo: Minhoca, Girafa, Sardinha, Jundiá, etc... É gente nova, que não conheces ainda, mas que são familiares e atuais para quem não saiu da terrinha, como eu, como muitos... Manja só a fauna, nesta desprentenciosa galeria, tudo por ordem alfabética, tudo fora de definitividade, é claro (e ainda incompletíssima, já que o que se queira lembrar sobre tua rua nunca há de passar de mera tentativa): Anu, Aranha, Arara, Ariranha, Bagre, Bem-te-vi, Bisango, Bode, Boi, Borrego, Burrico, Burro, Cabrito, Cachorrão, Cadela, Cágado, Calandra, Camarão, Camoatim, Camundongo, Canário, Capincho, Cará, Cardeal, Carneiro, Cascavel, Cascudo, Caturrita, Cavalo, Chimango, Cobrinha, Cocota, Coelho, Cordeiro, Coruja, Corvo, Doninha, Ferrão, Foca, Formiga, Forneira, Franguinho, Fuinha, Furão, Galinha, Galinho, Galo, Gambá, Ganso, Garnizé, Girafa, Gorgulho, Gralha, Grilo, Guanaco, Jacaré, Jacu, Jaú, Javali, Jibóia, Jundiá, Lagartixa, Lagarto, Leão, Lebre, Leitão, Lesma, Loba, Lontra, Macaco, Maçarico, Marimbondo, Marrecão, Marreco, Mico, Minhoca, Miruim, Mosca, Moscão, Mosquito, Mulita, Ovelha, Papagaio, Pardal, Pato, Pavão, Peixe, Perdigão, Periquito, Peru, Pica-Pau, Pingüim, Pintado, Pintinho, Pinto, Pomba, Ponei, Porco, Porquinho, Quati, Quero-Quero, Raposa, Ratão, Ratinho, Rato, Rouxinol, Sapo, Sardinha, Sebinho, Sorro, Tambicu, Tatu, Tico-Tico, Tourão, Tucano, Tuco-Tuco, Vaca, Varejeira, Veado, Vespa, Zangão, Zebra, Zorrilha, Zebu. Vês? Quantos conhecidos já esquecias, quase, e que te levarão a uma viagem ao tempo da tua meninice na tua rua de antigamente. Quantos esqueci, também, nesta listagem que seria mais uma carta/crônica sobre a Dr. Dionísio, antiga Rua Júlio de Castilhos, que já se chamou Rua Riachuelo (nos idos de 20). Rua que nascia na Sanga, quase na boca da Ponte Velha (antiga via Jaguarão-Pelotas), no portão da Hidráulica, hoje Corsan. Na avenida que, antes de se chamar de Nossa Senhora da Graça do Arroio Grande, já foi chamada de Avenida Brasil. Um abração. Arnóbio.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Surras bem dadas...

Não, caro leitor, não me refiro a esta última eleição. Até por que esta não foi surra - ou matar-a-pau é surra? Pensei, sim, naqueles idos de sessenta e oito, quando o País estava imerso naquele mar da ditadura e nós, corajosamente, fazíamos campanha política esparramando aos quatro ventos desaforos que os nossos adversários jamais viriam a perdoar. Arriscávamos o pelego, mas não perdíamos vasa. Pois, sobre a pobreza franciscana das nossas campanhas políticas e o manancial de dinheiro que eles tinham para nos humilhar, faz bem lembrar daqueles comícios realizados com a mesma estratégia de hoje: Um ou dois no centro e outros nos arrabaldes, nas vilas, nos fins de rua, no interior. Comício onde hoje está a sinaleira (centro), na Sete Portas (também centro), na hoje Praça dos Camelôs (Rua Severo Feijó). Nas Três Marias, no Armazém na Hora (cruzamento da Herculano com Baltazar), nas Pedreiras e no Peregrino Garcia. Comícios para partidário nenhum botar defeito. Tínhamos bons oradores e uma vontade infinita de xingar. E assim era: A um adversário que despejava lugares comuns em abundância, além de poesia satírica em cima dele, jorravam apelidos: Ou era o Conselheiro Acácio ou, mais esculachadamente, por ser advogado, um Nelson Hungria de Alpargatas Roda. A outro, um moço ainda, apelidamos desde o palanque de Tiradentes da Airosa Galvão (este, alguns anos depois, nos deu o troco na altura: em sociedade com os ventos da ditadura nos ganhou duas vezes a Prefeitura). Quando um deles, candidato a vereador, que por sinal não se elegeu, abriu os braços num discurso para pedir a Deus vitória para eles, de pronto, ganhou o apelido de Nazareno das Bretanhas. A uma personalidade feminina que debutava num palanque - alçando vôo para uma posterior vereança – nosso orador chamou de Nossa Senhora de Chinelo-de-dedo. Quando, num comício deles, o orador provocou as nossas cores citando um provérbio árabe – aquele da caravana que passa... -, foi plaft-pluft: Eles que segurassem as deles que os nossos estavam soltos. Foi só apelidar um orador nosso de Fantoche que, de troco, um figurão deles se viu obrigado a abolir sua vistosa peruca. Era um toma lá dá cá no qual éramos imbatíveis. Eram abundantes os impropérios de comício naqueles idos de sessenta e oito. Agora, nos palanques, quando algum mais afoito passou das medidas e enveredou para o caminho do xingamento, logo logo, ambos combatentes (por que só tem dois, não é verdade?) correram para amenizar as asneiras ditas. Até desculpas se pediu (o que é bonito, mesmo). Mas, nem imaginem aqueles que não viveram aquela época - a daquelas surras -, o caudal de desaforos que nossos adversários levavam para casa. Hoje, como dissemos lá em cima, no início, não se dá mais surras como antigamente. Hoje, são os tempos, lava-se a alma. Bem lavada. Duas mil seiscentas e sessenta e cinco vezes...

Joãozinho

Solzinho da tarde. Esquina da venda do Seu Nadir. Trocando amenidades, o Idinho e o Aldírio Ferreira. – Espera, - que o apelido deste era Aldírio Beiço, alcunha que ninguém se animava a usar quando tratava com ele, pois, além de secarrão, não se abria nunca, e, por um nadinha, nadinha, estava soltando as patas. Na mesma calçada em que conversavam, e na direção deles, vinha o Joãozinho Carriconde. Chegou, deu um bom-dia, puxou assunto sobre o tempo e antes de partir se dirigiu ao Idinho: - Te vendo cinco quilos de beiço! Compras? O Idinho gelou... O Aldírio, cinzento de brabo, não mexia com um músculo, sequer. Aquele silêncio... O Joãozinho, então, com o dedo em riste, levou-o ao umbigo do Aldírio, fazendo que lhe dava uma facada e foi se retirando. Os dois que conversavam ficaram quietos... O Joãozinho já ía longe, quando o Aldírio confessou: Que sujeitinho! Com esse eu nunca pude...
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O Joãozinho gostava de implicar com o Laquiman, motorista do carro fúnebre. Ao vê-lo, esperava que ele também lhe visse e então se benzia. Terminado um enterro o motorista manobrava o carro para guardá-lo no Pátio da Usina Velha, defronte à agência dos Correios e Telégrafos. Na frente do Correio, na calçada, o Joãozinho jogava conversa fora com o Frigideira, esperando que o Laquiman os visse, para fazer a sua implicância. Desta vez, não se benzeu, como sempre fazia, mas atirou uma linha: - Depois vem cá, Encardido, tenho que te fazer um pedido. É coisa séria! O motorista da municipalidade guardou o fordeco e atravessou a rua para ter com os dois que conversavam na janela. – Pronto, Joãozinho! Tu tá doente, hoje? Não implicaste comigo... E o Joãozinho: – Olha, Encardido, quero te contar uma coisa que eu tenho comigo: No dia que tu me levares para o beleléu, pode escrever, essa gaiota vai estragar na coxilha do Aquilino. Ou eu ou ela...

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Assim o Joãozinho levava a vida... Passou seus últimos dias num leito do hospital, cercado pelos amigos, todos bons bebedores por virtude, cada um mais moleque que o outro. Puro eles. Só vendo! Sua mulher, a Professora Alice, profundamente devotada, sempre lhe dispensando a maior atenção, não saía da cabeceira de sua cama. Certo dia, num horário de visita, apareceu no quarto o trio inseparável composto pelo Alberto, Cabrito e Paulinho do Engenho. A Dona Alice, que lutava para que o Joãozinho se ajudasse na alimentação, já estava à exaustão com as negativas dele quando ela oferecia algum alimento. Ela insistia, ora com um pouquinho de maçã, raspada com uma colherinha, ora com um biscoitinho molhado no guaraná e ele, inflexível, fazia as maiores caras de nojo e repelia o alimento. Tudo ela tentava na esperança de que alguma coisa acabasse por agradá-lo. Ele, só sacudia a cabeça em negativa. Chegava a fechar os olhos para não ouvir e demovê-la da insistente idéia alimentá-lo. Não queria mais nada e estava aceitando seu fim com determinação, cada vez enfraquecendo mais. Mas, nesse dia, com a chegada do trio, que poderia fazer companhia por uns momentos a seu marido, a Professora resolveu dar um pulinho na copa do hospital e pedir um copo de leite morno. Quem sabe? De repente o marido poderia tomar um golezinho. Nesse ínterim, ficando eles sozinhos no quarto, o Cabrito chega-se bem para perto do amigo doente e questiona: Joãozinho, tua mulher te ofereceu um pouquinho de maçã raspada, tu não quis, te ofereceu um biscoitinho molhado no guaraná, tu não quis saber... Agora, ela foi buscar um pouco de leite morno para tomares e eu sei que tu, teimosamente, não vais tomar... Aí, o Cabrito chegou mais pertinho do ouvido dele e perguntou: se eu te oferecer o fiofó garanto que tu queres? Não vais agradecer um moganguinho... Vais? O Joãozinho, que também sempre teve alta dose de espirituosidade no corpo, pareceu melhorar com a bobagem. Fez um leve sinal com a mão, pedindo a aproximação do Cabrito, e, com uma fingida cara de desconsolo, brindou os amigos boêmios com sua última molecagem, respondendo, num muxoxo, com os olhos brilhando e a voz se sumindo: - Tu não vais me dar.....

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O Joãozinho acabou indo primeiro que o Laquiman. Chovia torrencialmente naquele dia. Na Vila da Palha, dentro do boteco do Nestor Crochi, olhando as pessoas que tiveram que levar o corpo à pé e voltavam do enterro, abaixo de água, o Laquiman sacudia a cabeça. Depois de vários martelinhos, esperando a chuva amainar, da porta do bar, olhando para o Modelo A, preto, empacado quase defronte à casa do Aquilino, meio atravessado no barro da estrada, ele sacode a cabeça, mais uma vez. Por fim, pensando na última peça que o Joãozinho lhe pregara, concluiu: - Esse, sim... Esse se enterrou implicando com a gente... Esse foi de morte!...

Crônica do Radialista



Abraço, Títi

É isso aí gente… 35 milímetros. Obrigado Zé... Olha pessoal, chove conforme a previsão. A chuva veio numa boa hora. Não percam a entrevista hoje, às treze horas com o... Um abraço, Silva. Estava sensacional o Prato. Beleza! Bem, logo mais, estaremos em nossos estúdios com o nosso entrevistado o... Está apertando a chuva. Aí, Silva, e o tempero? Quando erram, a comida fica gostosíssima... Falar nisso um abraço para a... para a... É brincadeira! Estás um pedaço de mau caminho, Títi, deslumbrante, podes crer! São dez e cinqüenta e sete aqui nos estúdios da mais potente e querida desta zona. Não percam a entrevista nos 1230, e seus quinhentos wats, com o... o... São dez e cinqüenta e seis... Chove intensamente... Um abraço Zé... Sucesso, hein! Trinta milímetros... Parece que a chuva veio para ficar. Ah! Títi, tu estás lindíssima, linda de morrer! Para qual cerveja estás trabalhando, beleza? É brincanagem... Convite para... para... Olha aqui, gente, esta é de última hora, importantíssima, reunião da Coonesul, não percam a cobertura total que fizemos. São dez e cinqüenta e oito. Está me dizendo aqui o Tiquinho... Quantos milímetros, mesmo? Amanhã, pessoal, várias ofertas no Supermercado Sem Preço. Amanhã, sábado. Como chove... Convite. Convite para missa de sétimo dia: Os familiares... Vinte e cinco milímetros, já? Os familiares do sempre lembrado... Ah! Um abraço, Paulinho, o Prato sem ti é vazio... Mas, e ontem, à tarde, passeando na Avenida? Que loucura, mulher! Estás arrasando... Os familiares convidam para a missa que se fará realizar na... Tu és Su-bli-me, Títi. Cada vez mais linda... Nooossa! Realizar na Capela Bom Senhor às cinco horas... Com o entrevistado de hoje, não percam, vocês vão saber tudo sobre a... a... Vinte milímetros, pessoal, e onze e dois, em ponto! Para a missa que se fará realizar às cinco horas deste domingo. Pelo comparecimento, agradecem. Aqui, a mais querida, trinta e oito anos de informação... Onze e três em nossos estúdios... Sete graus... Faz frio, gente... Não percam a entrevista, hein! Imperdível a entrevista com o... Imperdível. A Por Mais botando para quebrar amanhã no Sabadão Por Mais... Atenção Tito, estamos aguardando contato, precisamos saber tudo sobre o importantíssimo torneio de futebol de várzea no campo do Força e Luz. Importantíssimo. Importantíssimo. Importantíssimo. Daqui a pouco entrevista com... É, estás ma-ra-vi-lho-sa, Títi... Dando com as duas mãos... Benza a Deus! Onze minutos e oito milímetros. Trinta e duas horas. Seis graus e nove centavos, em nossos estúdios. Chove. Belíssima manhã de sexta-feira, Títi...

O burro é burro?

O tema é antigo e recorrente e trata de uma séria injustiça para com um animalzinho tão dócil, tão esperto e resistente. Por aqui lembramos os burros do Luís dos Burros. O Luís, lá da Coxilha do Fogo, carroça carregando areia para as construções, pingando água rua a fora... Seus animais, invariavelmente carregavam nomes de políticos. Nomes que eram engraçadamente trocados ao sabor dos tempos: os burros Meneguetti, Peracchi, Guazelli (nunca se soube se teve burro com nome de político local) e a mula Castorina que nunca trocou seu nome, pois eram raríssimas as mulheres que entravam na política naqueles tempos. Aproveitando o assunto, parecido com um burro do Luís, um deles, de nome Platero, alavancou um Prêmio Nobel para Juan Ramon Jimenez, em 1956: Platero pequeno, peludo, suave, parece feito de algodão, sem ossos, mas com um olhar duro, escreveu o poeta espanhol. Célebre também é o burro de Balaão. No Livro dos Números, 22:23 a 22:33, escrito por Moisés, em 1400 A.C., o burrinho que passou a vida inteira transportando Balaão, por três vezes foi duramente chicoteado (num dia de patetice deste Profeta). O Anjo, depois, envergonhou Balaão jogando na cara dele a estultice de castigar um animalzinho tão inteligente e tão fiel. Temos, ainda, os burros falantes do Velho Machado de Assis: Numa crônica publicada n’A Semana, de 16 de outubro de 1892, tratando do tema sobre a inauguração dos bonds elétricos na cidade do Rio de Janeiro, o narrador surpreendeu a conversa de dois muares que filosofavam sobre o destino deles (conversa que foi à luz porque os animaizinhos, tanto quanto quem os ouvia, também eram versados na língua dos houyhnhnms, aqueles da última viagem de Gulliver e que eram inimigos dos Yahoos). E os Burros de Buridan? Será a indecisão dos animais um copy desk desastrado em cima das divagações aristotélicas de dois mil e trezentos anos atrás? Escolheram bichos errados para a demonstração correta do determinismo moral proposto por Jean Buridan? E a velha história do Burro do Camponês que caiu num poço. E, em sendo impossível resgatá-lo para o chão plano, resolveu seu dono, ajudado por outros campônios, jogar terra no buraco e enterrá-lo para que morresse. Foi então que, pá após pá de terra jogada, o bicho foi subindo, subindo espertamente, até a borda do poço. Ah! Os burros... Pedro Malasartes - segredando ao asno a morte da sua mãe (dele burro) - socou-lhe um charuto aceso no ouvido. O Barão de Münchausen (o Malasartes germânico) montava a metade da frente de um burro na sua inverossímil história da fonte. Bocage (Manuel Maria Barbosa du Bocage, o Elmano Sadino da Nova Arcádia, maior poeta da língua portuguesa – que nestas paragens é conhecido somente por ter sido pândego) montava um burro quando chegou à casa do camponês, para ensinar a fazer uma sopa de pedra. Outro pícaro, célebre na literatura da Idade Média: Till Eulenspiegel. Tinha um burro falante e com ele entulhou o anedotário do Sacro Império Romano-Germânico com suas picardias. Ué! Desviei do assunto... Perdi o fio da meada... Justo quando me ocorria dizer uma coisa pitoresca sobre os burros. Ou sobre os burros? Pô!

Os Vaqueanos

Ano de 1784. Rafael, com a luneta expandida, olhou para o leste. Conseguiu vislumbrar algo que teria sido um forte, agora em ruínas, na embocadura do Piratinin. Depois, correu o olhar pela extensa planície do sul, ao longe, onde se fundia o céu com a linha do horizonte. Corria o óculo de alcance ora para o oeste, ora voltando lentamente para o outro lado. Por fim, olhou abaixo o arranchamento do Passo da Maria Gomes que, dali do cerrito, onde subira com o Alferes Guilherme, era visto em toda a sua plenitude. Passou a luneta para o outro e sentou-se na raiz de uma caneleira frondosa que lhes dava sombra. Quedou-se, pensativo, com o olhar perdido naquele verde à sua frente, do outro lado do rio serpenteante. Novamente aquela idéia obsessiva o obrigava a uma confidência com seu companheiro de tantas incursões pelas pradarias da Província. – Sabes, Guilherme, é muita judiaria uma região tão bonita como essa, além do rio, não ter dono e nós não termos coragem para conquistá-la?... O Alferes, que olhava para os lados das Asperezas, fechou a luneta, vagarosamente, colocando-a sobre o alforje que estava no chão a seus pés. Caminhou em volta da árvore onde estavam e voltou com três pedrinhas e dois galhos pequenos de vassoura vermelha. Sentou-se defronte ao Coronel que, quieto, cuidava sua movimentação. Desgalhou os ramos. Amontoou as três pedrinhas dizendo: - Vê, amigo, se estou errado. Estes são os três cerros que vemos ao poente, mais à esquerda daquele cerro chato. Do lado desta pedrinha nasce aquele arroio grande que morre lá embaixo, nos pantanais, quando encontra a Mirin – e apontou com o braço na direção da lagoa. E este é o Piratinin – continuou – encostando à outra pedra o outro galho, em paralelo ao primeiro. Tirou da algibeira um fuzil, que usava para acender o pito, colocou-o lá embaixo, em pé, à direita do rio, como se fosse o antigo Forte de São Gonçalo, e continuou a sua fala: – Rafael, nós conhecemos, como ninguém, estas paragens. Daqui, até além do Tacoary, são como a palma da nossa mão. Vamos aproveitar que os espanhóis não conhecem a região e estão atrapalhados, peleando com os charruas, lá no Rio da Prata, para fazermos um acampamento num daqueles três cerros. Depois, se o Vice-Rei deles der em grito, o nosso pode responder, com cautela, que estamos na nascente do arroio a que alude o tratado. E, rio e arroio nascendo juntos, e paralelos correndo em direção à Mirin, ajudam a nossa vontade e a nossa Coroa. Tomemos conta dessas pradarias que ficam entre essas duas linhas. Não é o que tanto cobiças?... Quem sabe?! Longo tempo e os dois calados. O alferes insistiu: – Que lhe parece, Coronel? O silêncio foi maior enquanto se acomodavam para voltar. Desceram o cerrito. Dois meses depois Guilherme, comandando oitenta e seis soldados, cumprindo ordens do Governador da Capitania, levantava um acampamento numa coxilha onde eram abundantes os ervais. Levara carpinteiros, pedreiros, oleiros, latoeiros, padeiros, víveres, folhas-de-flandres, pregos e ferramentas para o trabalho pesado de construção. Quando a Vila já estava consolidada, o Coronel, ainda Governador, distribuiu terras para seus fiéis soldados, todas do lado direito do arroio grande que nascia nos cerros. Só Guilherme não aceitou dádiva nenhuma. Queria voltar para a sua terra natal nos Açores. Contava quarenta e oito anos, a mesma idade de Rafael Pinto Bandeira quando, em 1788, pegou carona num brigue que levava o Coronel até a Corte de Lisboa. Fizeram escala na Ilha de São Jorge onde Rafael passou uns dias na casa de pedra construída por Wilhelm Van der Hagem, fidalgo de linhagem flamenga, um antepassado do seu Alferes. Na Vila do Topo, de onde saíra para se aventurar na Colônia do Brasil o vaqueano Guilherme da Silveira.

Cartuxo

O Cartuxo e o Turco Elias tomaram, juntos, bebedeiras memóráveis. Numa delas, em que iam em direção à venda do Miguel Aliodes, caiu a roda da carroça do Cartuxo. O contratempo, no entanto, custou a ser notado pela dupla. Condutor e passageiro estavam mais preocupados era com o trago. A garrafa passava da mão de um para a do outro e os sucessivos goles de cachaça davam vasão a uma conversa interminável. Os dois, num dá-le trago que dava gosto, bebiam desmedidamente. Quando a canha chegou ao fim, eles quase caindo do veículo, e nada de chegar na venda, o Turco Elias, nas águas, olhos já pequenininhos e embaciados - com a carroça ali, paradinha, paradinha, ladeada -, perguntou: Cartuxa, essa descida braba da rua não vai ter fim???.

sábado, 8 de novembro de 2008

Sol a pino

Verão brabo. Dentro da minúscula casinha de máquinas a polia da bomba d’água quase não deixava espaço para que um homem se movimentasse. A pouca sombra que havia dentro mal cobria a figura enorme do Bertolino que se sentara num toco de eucalipto. Era chegada a hora em que os aguadores, sempre em dupla, trocariam o turno. Os da vez, já perto, se aproximavam do levante. Na frente, vinha um loiro baixote, barbudo, com um boné na cabeça, aspecto de desleixado e cara de poucos amigos. O outro, que vinha há uns metros atrás, era mais novo, aparentava uns trinta anos, era também baixo, porém moreno, cara imberbe, jeitão alegre. Como seu companheiro, trazia uma bolsa a tiracolo com a garrafa de café que mais tarde tomariam, já frio, com bolachas.
Bertolino, esperando a largada do serviço, estava sem camisa e seu corpo negro, quase azulado, brilhava com o suor que lhe corria pelos poros. Colocara a marmita sobre os joelhos para almoçar a comida trazida pelo loiro. Como de costume, os que eram rendidos no serviço ali mesmo se alimentavam, pois, do levante até o alojamento da granja, havia um eito de terço de légua pela frente.
Junto com o Bertolino, no mesmo turno, seu companheiro, um homem de formas abugradas e que parecia regular de idade. Não mais que cinqüenta anos. Tinham dado com os costados na zona das Capoeiras, quase na mesma época, e sempre foram amigos. Volta em meia, quando o serviço rareava por ser entressafra, eles se separavam por uns tempos. O amigo partia em busca de serviço pelas redondezas, enquanto Bertolino acabava ficando, como agregado, na volta do patrão antigo, como se fosse uma instituição da propriedade. Mais uma vez estavam juntos sorvendo, dia a dia, aquele cheiro bom que a lavoura de arroz exala.
O amigo, terminado o almoço, deixara-se ficar, à sombra de um salso chorão, na beira do açude. Enquanto fazia a digestão esperava o Bertolino almoçar para seguirem juntos até o alojamento. Tudo sem pressa. Mais tarde, quando o dia morresse, a janta, a cama... De manhã, bem cedinho, estariam ali de volta cuidando para que não faltasse água na lavoura.
Dentro da casinha a polia não parava de rodar. Na sombra escassa, o Bertolino, com a maior calma do mundo, dava uma colherada no prato e perdia-se em devaneio mastigando a comida. Sem dar atenção aos dois que haviam a pouco chegado, ele almoçava com aquela paciência infinita que a Virgem Maria, sua protetora, lhe dera. Paciência era o que o Bertolino mais tinha, depois, é claro, da beleza infinita dos dentes de porcelana.
Foi quando, nem bem começado o turno de trabalho, o loiro e o outro estavam se contrariando. Da contrariedade para a altercação foi um passo. Iniciaram os desaforos de parte a parte, com as vozes alteando cada vez mais. Bertolino, sem deixar de mastigar, ignorava os dois que discutiam. Levemente, sem mexer com a cabeça, de quando em quando, ele dava uma levantada nos olhos, em direção a eles, parecendo não se dar conta do que ocorria à sua volta, acostumado às arruaças a que já assistira. Levantou mais outra vez os olhos, baixou-os, outra colherada, e seguiu mastigando, mastigando. Mais outras colheradas...
Dava para ver que em boa coisa não ia terminar aquilo.
Os arruaceiros, de repente, se atracaram a socos e pontapés em direção à porta da casinha do motor onde o Bertolino almoçava. Assim como vinham entraram. Sem espaço para braços e pernas se agredirem, entraram num corpo-a-corpo e apareceram as facas. A polia em movimento, zunia. As facas cortavam o ar a centímetros, a milímetros, do Bertolino, e ele ali, colher no prato, colher na boca, mastigando...
Só quando o cabo duma das facas raspou a sua carapinha grisalha e um cotovelo desviou a colher da sua boca foi que ele, voz grossa, sem perder a calma, sentenciou os homens: - Se virá a minha bóia, vai tê!!!
Sol a pino. Verão brabo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Caro Amigo








Foi sempre com muita atenção que ouvíamos os mais velhos discorrerem sobre velhos assuntos como o desaparecimento do absinto, do rapé, do rum creosotado, dos corsos de carnaval, da 914, do a saúde da mulher, dos aguateiros e nem por isso nos melindrávamos. Os que vieram bem antes de nós contavam histórias em que os veículos se limitavam aos faetons, aos Modelo-T, aos dirigíveis e apreciávamos ouvir que existiram tais velharias. Agora, caro amigo, a ninguém deveria cair mal saber que já foi de brisque andar pelas ruas da cidade a correr numa Lambretta, numa Vespa, numa Java, numa Douglas, só para ficar nas vovozinhas da Bizz, ou passear num Sinca Chambord ou num Gordini quando eles eram o it na metade do século passado. Sabes? Antes, quando ainda estavas na Bolívia, a gente tirava retrato, usava espelhinho no bolso traseiro da calça far-West, pente de osso no bolso da volta ao mundo, usava guides, ia ao cinema ou a uma brincadeira. Às vezes, também se ía aos bailes do Beca, do Doca ou do Chico Barros. Se chovesse, colocávamos galochas para não embarrar o calçado. Na noite, tomávamos Fogo Paulista puro, ou misturado com Crush, Guaraci ou 17. Não chegamos a nos afeitar com navalhas, claro, já havia lâminas, mas, no cabelo usávamos Glostora, Gumex, e, antes de inventarem o Stilleto, primeiro, havia o Amor Gaúcho, depois, mais modernamente, o Toque de Amor da Avon para passearmos cheirosos. Fumávamos Belmonte, Elmo, Continental e apreciávamos comida feita com camarão seco e café com açucar mascavo. Para a fraqueza tínhamos o Wa-Ka-Mo-To e o Elixir de Scott; para mal-estar o Alka Seltzer. Íamos a presépios-vivos, usávamos conga e, por pura exibição, piteiras quando o cigarro ainda não vinha com filtro. Pois é, foi assim que assistimos chegar na cidade a primeira televisão trazida pelo seu Mércio, ouvimos o primeiro rádio da faixa cidadão do seu Otavio, vimos o Marcos Prestes montar o primeiro computador e o João Saraiva nos apresentar a um telescópio. Põe paciência no que lês, meu caro. E não te queixes das velharias que escrevo, pois, pior, foi vivê-las vendo este teu maravilhoso mundo de hoje.

Anistia

Aula de sociologia. O Professor Gilberto Gigante discorria sobre o momento histórico que o País vivia naqueles estertores da ditadura. Na penúltima fila da classe estava sentado o Dedé. Na última fila, atrás dele, o Caluxo Gastal e eu. Do início da matéria até quase o horário de fim de aula o professor tinha, à exaustão, repetido umas trezentas vezes a palavra anistia. Lá pelo meio da aula eu sentia que a cabeça do Dedé tentava se virar para falar conosco, fosse para entrar no nosso assunto de fim de fila, enfadado, talvez, com a chateação do Gigante, ou, quem se animaria a duvidar?, fosse para trocar algum comentário sobre as intenções do Governo Figueiredo. Assim, a aula se arrastava como uma coisa que não tinha fim quando, não se agüentando mais, com a mão em concha na boca, ele se virá para traz e nos pergunta, quase sussurrando: Guris, o que é afinal essa tal de anistia? Eu, me chegando para perto do cogote dele provoquei: o quê!!! Tu ainda não sabes o quê qui é???... Não deu outra. O Dedé, se virando novamente para trás, com o queixo bem encaixado no ombro, revirando e piscando os olhos, me sentenciou: Te mete a esparramar que eu não sei. Te mete...

Tité & Tetê

O Seu Tetê é o motorista com o maior número de histórias desastradas que se tem conhecimento na história do município. Morava na cidade e trabalhava na campanha, onde se locomovia com um fusquinha ano 77. Quando ía, no início da semana, para o local de serviço, sempre causava uma estrepolia na estrada. Na ida, havia sempre um incidentezinho. E, na volta, para não desmerecer a fama de mau condutor, também o Seu Tetê criava uns probleminhas de direção. O normal, já era costume, ele deixar o fusca no chapista, às sextas-feiras, para pegá-lo, restaurado, sem nenhuma arranhão, na segunda, quando ia fazer a pegada na granja. Na estrada, com o automóvel flamante, quando alguém o ultrapassasse, de certeza certa ele dava uma guinada no volante e estava feita a porqueira sobre um barranco. Quando era alguém que se aproximava em sua direção, ele, muito noveleiro, com a curiosidade de conhecer o outro motorista, e cumprimentá-lo, pensando que estava tirando um fininho, lá ía-se um espelho, ou outro dano fatal à lataria. Num fim-de-semana, após a largada, abastecendo o fusca no Posto do Tité, este, já com pistola no tanque de gasolina, perguntou: - Ué, Seu Tetê, o seu carro da última vez que veio aqui não tinha este amassão, no para-lama... Foi, então, que ele, como quem conta uma coisa admirável, entregou sua última barbeiragem: - Tu não acredita, tche!, a ursada que este carro me aprontou... Não vê que eu soltei a embreagem dando uma marcha-à-ré, para sair no portão, e ele disparou ao contrário, para a frente, se planchando na parede da garagem!!! Tava em primeira, o louco!!! Que ursada ele me aprontou... Como nunca... Que ursada!!!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

DOCA & CIA

Digamos que o tempo voltou atrás e que no próximo sábado haverá um baile no Salão do Doca. Você arriscaria um palpite sobre a quantidade de gente que iria, hoje?... Mas, naqueles idos, seria temerária a pergunta frente à pronta resposta. Na verdade, tudo mudou como muda a água para o vinho. Não há mais bailes do Doca. Para os saudosistas é como gato miar em tapera. Babaus! Foram-se, juntos, na mesma fornada do tempo os bailes do Beca, os do Chico Barros, os do Salvador e os do Tirso, na estrada da Costa do arroio. Vizinhos um do outro. De roldão, foram-se os bailes do Tailor, os da Casa Queimada, os do Diomar, estes na estrada do Herval, na Airosa Galvão, nos pontilhões da Ceguinha e na Divisa, nesta ordem. Os da Granja São Paulo, os do Seu Willi Peter, para os lados do Chasqueiro, e os da estrada das Capoeiras, lá no Lauro Cavalheiro, lá na Granja dos Conceição, lá no Paulo Mello, lá nos dos Mata-Burros, do Seu Pedrinho Nunes. Nunca mais os bailes do João Freitas... Quié deles, Meu Deus?! Como o tempo nos consome... Tenham piedade e não nos levem a mal: não lamentamos a falta que nos fazem, até por que hoje existem muito mais bailes, e melhores que os de antanho. O que lamentamos é este desgaste que o tempo nos legou e não nos entrega enxutos, como éramos, para as picardias. Hoje, somos pura sucatama e carregamos uma enorme saudade dos ardis que usávamos para entrar, sem pagar, nos salões de dança. Imaginem, sem profundidade intelectual, o que era assistir ao Neneco chegar, num Doginho Polara, do ano, no Salão União da Mossidade (letreiro na parede de fundo da copa) do Diomar e abrir a tampa de combustível do gerador que alimentava o som do José Iaks, para despejar um copo de cerveja? E, depois, quase ao ponto de levar uma sova dos músicos, o Felipe se apresentar como mecânico e eletricista? Era o caos total e nós todos lá dentro, por conta do imbroglio provocado. E assistir ao Doca afrouxar a vigilância na cancela do salão? Como? Simples. Para cada estação do ano um ardil. No verão levávamos uma garnisé do João Duarte para gritar até o Doca enlouquecer... Na primavera, roubávamos rosas da Praça para despetalar no portal do salão. Mais loucura... No inverno, bergamotas da Fruteira A Maluquinha, do Sílvio, para espargirmos o soro das cascas nas narinas do Doca ou inteiras, rolando salão a dentro. Loucura Total... Liberação total da cancela do salão... Quando não eram as galinhas que ele pensava estivéssemos roubando, eram as rosas, ou o assalto à quinta. E no outono, para entrar? perguntarão... Ora, para que existe a batata inglesa, cortada ao meio, e um canivete para falsificar o carimbo na mão, ou da senha, se tínhamos o Pachola para levar as almofadas, de tudo que era cor, lá do Tabelionato do Levi?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A COBRA

A tarde cálida morria mostrando um sol vermelho lá para os lados da Barragem do Chasqueiro. No açude do Trajano os amigos ordenavam as tralhas da pescaria. O Padreco - mal chegado -, fominha por pescaria, estava com água pelos joelhos, e com o caniço de lambaris, já tirara isca para umas duas linhas. O Padreco é que providenciava linhas para todos e eles ainda estavam às voltas com a barraca, a caipirinha, o carvão, os espetos e a carne - esta o motivo maior da noitada. Quem eram os outros? O Neri, o Agrelo e o Monterinho. Cada um na sua tarefa, e todos no religioso ofício de se preparar para o churrasco que viria. Súbito, de dentro do açude, um grito do Padreco suspendeu os afazeres. Tinha sido mordido por uma cobra, dentro d’água, e, assustado, mostrava indícios de um provável desfalecimento. O Neri se prontificou a levar o quase moribundo ao Pronto Socorro da Santa Casa, enquanto os outros esperariam. Na ida o Padreco – branco - não pela picada, mas de susto, com voz sumida de doente assumido, fez um seu último pedido ao Neri: Que ele - e o pedido era feito precedido de um Por Amor de Deus - cuidasse da sua família, mormente do estudo da filha, pois, previdente, tinha economias para tanto na Caixa Econômica Federal. O Neri, que cuidava da direção dada a correria, ouvia atento e atenciosamente prometia cumprir o pedido do amigo. Chegados, examinado o doente pelo Jeorge Vernes, foi ele dado a pronto por ter sido mordido por uma cobra inofensiva e não peçonhenta. Lépido e faceiro, pronto para voltar à pescaria, o Padreco sentou-se no carro e o Néri tocou para a Associação do BB. Chegando, desceu do carro, fez a volta e abriu a porta do carona dizendo: - Pronto, estás em casa... O Padreco, não entendendo a deixa, argumentou: - Ué, não vamos voltar para a pescaria? - Não, lascou o Neri, que estava de gerente do Banco, à época. E arrematou: - Então, que qui tu tás pensando? Trabalhas comigo todo este tempo e vais prestigiar a Caixa Econômica com as tuas poupanças. Desce... Tchau!!! Com uma lua por testemunha, meia hora depois (ninguém sabe até hoje se eles sabiam lidar com linhas e anzóis), estavam os três, em companhia do churrasco e da cerveja gelada, rindo da sacanagem que o Néri aprontou ao investidor Padreco.