Al Di Lá

Você se lembra do filme Candelabro Italiano?

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Tio Julio

Tio Júlio, ou Vô Júlio, como o chamava. Na verdade era um tio-avô. Da sua figura o que mais lembro eram os óculos parecidos com os que imortalizaram a figura do John Lennon: lentes redondas e com um aro fininho. Ah! Não esqueci também o permanente uso de colete. Num bolso ele trazia o relógio com a corrente de ouro, presa na casa do botão e, no outro, a faquinha para picar o fumo crioulo. E dá-lhe palheiro! Até hoje, ao lembrar a sua figura bonachona, meus sentidos parecem entrar em contato com o agradável cheiro daquela fumaça e o aroma daquele pito. Era criador e, como paixão maior, gostava de lidar com Frutos do País, como eram chamados os couros e pelegos que ele saía a comprar pelo interior do município. Tinha como ajudante o Cirilo, um dos filhos solteiros que estava sempre à sua volta. Certa feita, quando o Seu Amaro Caetano, também comprador de couros e pelegos, comprou um Modelo A, da Ford, para substituir a carroça, o Vô Júlio observou ao Cirilo, apontando o cano da descarga do automóvel: - Vês, Cirilo, aquela fumacinha? Pois ali vai todo o dinheirinho dele! Mas, uma semana depois da observação, quando pai e filho puseram o faeton na estrada para comprar couros sentiram a dura realidade dos tempos: O Seu Amaro, no guarda-louça, já tinha comprado primeiro tudo que era pelego e couro da campanha, numa passadinha, já que agilizara o modo de negociar. Não deu outra. Foi de imediato que o Vô Júlio mandou o Cirilo para a cidade, com dinheiro no bolso e uma recomendação: - E não volta sem me trazer um automóvel do ano, e faeton, para a gente driblar a concorrência. Comprado o carro os negócios prosperaram, por anos a fio. O Cirilo foi o seu motorista, também, quando adquiriu um moderno caminhão da marca Fargo para continuar envolvido nos negócios de Barraca, como ele dizia. Lembro o dia em que o Cirilo, já madurão de idade, casou. A Cerimônia foi na Igreja. Na hora H chegaram para o casamento os dois, pai e filho, acompanhados do Tio Olívio. Desceram a calçada da Praça e o Vô Júlio, manheiro, ainda deu uma fumada no puxo de palha, antes de amassá-lo na areia da rua. Atravessaram na diagonal e subiram, proseando, os degraus da Igreja. Quando entraram, ai Minina! O Vô Júlio, cara-a-cara com aquela imensidão do templo, admirado, olhando a nave arredondada, lá em cima, não se segurou: Mas, Olívio, que Barraca bem linda dava isso aqui! O que ia caber de couro e pelego... Já viste, tchê?

Nenhum comentário:

Marcadores