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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Fragmentos de uma correspondência amorosa

Vamos dar ao amigo o nome de Semildo, ou “S”, simplesmente. Ao menos não conheço ninguém com esse nome o que já é uma grande chance de não ter uma futura dor de cabeça. Já que estou tatuado de tanto que me cascotearam nesta terra do Irineuzinho – merecido fruto desta minha incorrigível irreverência. Pois, quando S. se apaixonou pela L., a Lúcia, a maravilhosa Lúcia, daquelas eras, lá da vizinhança da Voz Rural, ou Voz do Pau, como eram conhecidos os alto-falantes que tinham seu endereço na saudosa Sete Portas, nós fomos testemunhas do seu calvário. Tudo começou numa quermesse dos quartanistas do Ginásio, lá no Depósito do Engenho do Seu Daciano. Primeiro, S. mandou prender L. na cadeia que ficava ao lado do bar. Ali, ora levando as mãos ao rosto, ora pondo as mãos na cintura, com toda aquela vaidade peculiar à sua adolescência, a L, curiosa, queria saber qual o admirador que lhe pregara aquela peça. Logo, logo, a própria carcereira, quando a soltava das grades, levou-lhe um telegrama do S. que dizia: “Vidinha. Meu eterno amor nesta noite primaveril cresce desmedidamente no meu coração. S.” Durante aquela noite foram incontáveis os telegramas que L. recebeu do seu desconhecido apaixonado. Nenhum deles conseguiu, apesar da sua curiosidade, da insistência em perguntar à mensageira quem lhe cortejava, revelar o nome do jovem apaixonado. Passaram-se os dias, as semanas, os meses, e o nosso amigo S. resolveu apelar para os amigos. Buscava ideias, luzes, caminhos que levassem seu amor, com um nome, até sua musa. Amor infinito e sufocado no anonimato... Inda mais, ter que esperar uma próxima quermesse, coisa que ninguém merecia. Foi desta forma, numa mesa do Café, sempre à hora santa da Ave-Maria, que nós, seus amigos, estudávamos uma maneira de ajudá-lo. E, neste mister, a única ideia que nos ocorria era uma bem elaborada e romântica carta que nos propusemos a redigir em socorro dele, S., o apaixonado. A princípio, para sua apreciação, listamos o que poderia ele dizer como tratamento, para o caudal das primeiras e melosas linhas: “Minha Amada!”, “Nobilíssima estudante!”, “Meu amor!”, “Meu único amor!”, “Inesquecível L.!”, “Grande amor da minha vida!”, “Vida minha!”, “Dona do meu destino!”, “Prezada jovem!”, “Meu amor e meu sonho!”, “Riqueza da minha alma!”, “Luz dos meus olhos!”, “Alegrias do meu coração!”, “Minha grande paixão!”, “Meu grande sonho!”, “Adorada L.!”, “Sacerdotisa do meu amor!”. “Minha querida!”, “L., querida!”, “Deusa minha!”, “Minha primavera!”, “Primavera do meu coração!”, “Mimosa flor!”, “Meu anjo!”, “Formosa senhorita!”, “Querida L.!”, “Carinhosa L.!”, “Meu lírio branco!”, “Felicidade minha!”, “Meu coração!”, “Querida amiguinha!”, “Único amor da minha vida!”, “Meu imenso amor!”, “Minha fada!”, “L. queridíssima!”, e por aí ía a nossa modesta contribuição. Aliás, tarefa que nos levou muitas tardes, e muitos martelinhos de vodka com bolo de carne da Maria Umbelina. Vai daí, certa tarde, S. entrando no Café, numa alegria pueril, nos deu uma boa nova: Já se decidira. Escolhera um início para a sua declaração de amor pelos alto-falantes da Voz Rural, na voz do saudoso Sérgio Chaves, desde as antigas dependências do Bar Honra e Glória, aos quatro cantos do mundo: “Atenção jovem da esquina...’! Quando penso em te escrever, não sei como começar. As emoções atropelam-se em minha alma e eu, entre mil palavras não encontro uma que traduza a festa do meu coração...” Era o amor! Era não, É, ainda. Daquela mesa de escribas do Café foi ele o único que casou com quem queria... Mais, dá gosto vê-los, de mãos dadas, diariamente, fazendo as caminhadas matinais.

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