Al Di Lá

Você se lembra do filme Candelabro Italiano?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Bergamotas & Colas Finas
Para o Júlio Quevedo

Enaltecidos os feitos farroupilhas, ao troco de muita gineteada e fumaça, recomeça o reinado dos colas finas. Saem a bota, a bombacha e o chapéu para dar lugar ao tênis, à calça jeans e ao boné. E, mais um ano passará sem que o gaúcho se pilche de cultura para descobrir quem verdadeiramente ele foi. Mas, mesmo assim, valeu. Valeu por que nossas festas, a cada ano que passa, se apresentam mais bonitas e mais emocionantes. No entanto, de tudo isso, fica uma indagação: O que é mesmo ser gaúcho? Eu, por exemplo, que nunca usei botas, ou bombachas, sou mais, ou sou menos gaúcho? Naquele início de festejos, quando as autoridades estavam todas pilchadas, e assistíamos à abertura da semana com a nossa roupa de sempre, éramos todos gaúchos? E aquele amigo à cola fina, cantando o hino riograndense, tão bem vestido naquela hora, no meio da gauchada? Seria por causa da roupa menos gaúcho? Não, certamente para mim, não. Até por que canso de vê-lo no trabalho de botas embarradas, bombacha bostiada, laçando, curando bicheira, dando sal ao gado, tropeando e tudo o mais fazendo na sua profissão de criador. Decerto, por inversão de valores, justo ele, o único verdadeiro gaúcho ali, despilchado, não estava sendo visto pelos seus pares com bons olhos. Afinal... Mas, e aquele guri de brinco? Será que ele preferiu não se pilchar só para não tirar o brinco? Ora, quem diria que chegariam ao ponto de hostilizar quem usasse brincos. No entanto, o gaúcho de antigamente usava brinco, era sujo, descalço, borracho, barba sempre por fazer e não usava roupa por baixo do poncho. Nossos primeiros gaúchos, estão aí os escritos, tinham vida errante, peleavam por um dá cá aquela palha, eram em sua maioria bastardos, párias, sem compromisso com nada e geralmente vagabundos. Para quem quiser checar estas linhas estão aí Paixão Cortes, Barbosa Lessa, Sérgius Gonzaga, entre os nossos. Fernando O. Assunção, Saint Hillaire, Felix de Azara, Nicolau Dreys, entre os de fora.

domingo, 9 de outubro de 2011

Devolvi - Núbia Lafayette e Nelson Gonçalves

Quem é de quem?

Esta crônica, desde já aviso, há de ser interativa. Os leitores estão, pois, convidados a ampliá-la. O título? Ora, quem não sabe. Somos sempre de alguém, sempre. Quando não de algo. Gente que é de gente, lugar que é de lugar, qualquer coisa que é de alguém ou alguém que é de qualquer coisa, enfim... Principalmente morando na cidade do Adão da Cizica, que morou na Coxilha do Fogo, defronte ao campinho onde pastava o Cavalo do Graúdo. Sim, quantos de nós cruzamos a Rua da Morocha ou zombamos do Basílio da Bicicleta, quando se engraxava? A lista é grande e sozinho eu não dou cabo dela. Preciso urgentemente de uma mãozinha e sei que haverá interessados pela tarefa de embelezá-la. Vamos lá, você que não quer esquecer quem é de quem, nesta província. Lembra do Censinho do Euzébio, do Jadir do Menandro, do Dário da Célia, do João do Pereca, do Adão da Cizica, da Lota do Budanha, do João do Vida, do Gilberto da Tica, do Jesus da Dércia, do Toninho do Agripino, do Gilberto do Ataídes, do Valter do Hernandez, do Adão do Oscar, do João do Cantalício, do Sérgio do Venâncio, do Gordo do Jacinto, do Jorge do Fueed, do Chico da Carrucha, da Dininha do Maneca, do Boró do Graúdo, do Adão da Pepita, do Zé do Julião, da Piola do Ondino, da Pepa do Hernandez, do Zé da Coxilha, da Piola do Ondino, do Adão do Mário, do Lulu da Tetéia, do Darci do Lino, do Paleca do Dega, do João do Diquide, do Paulo do Picão, do Sérgio da Judite, do Luís do Lindinho, do João do Tuca, da Noêmia do Deca, do Dega do Oscar, do João da Colota. Tudo tem dono, ou tinha, nesta terrinha. Já vi uma menina dizer que tinha uma amiga que trabalhava de babá na Rua do Maneca, aquela que passava também na Escolinha da Atília. O pai dela era um homem que tinha oficina na Rua do Vinte, a que passava no Buraco Quente. E por aí seguia a explicação que só prestava para aumentar mais a imaginação. Temos, também, coisas que são de lugares: Cancha dos Bonneaus, Vila da Palha, Chácara do Aquilino, Granja dos Conceição, Depósito do Amarilho, Terreira do Tanajara, Hotel do Zoca, Avenida do Amor, Cancha do Branco. Gente que é de coisa e coisa que é de gente: Paulinho do Engenho, Caminhão do Antônio, Luís dos Burros, Macaco do Ernesto ou a Égua do Bidoca. Socorro!

sábado, 8 de outubro de 2011

Tirando de letra...

Nossa amiga, graças à grande amizade que mantemos, liberou esta história para ser contada. Sem nomes, é claro! - Coisas que só acontecem comigo... – dizia ela. Mas, vá! Já estando ela em idade provecta, mesmo assim, não pára de ganhar afilhados. Agora, que não os cria mais, eles rondam a sua casa, aparecem em busca de carinho. Às vezes se oferecem para algum serviço de varrer o pátio, ou um mandalete até o mercadinho, coisas desse tipo. Em suma, dum jeito ou de outro eles borboleteiam à sua volta. Tanto borboleteiam que, dia desses, um dos mais velhos dos seus afilhados bate à porta de sua casa em busca de um favor. Vinha aflito e a razão de seu estado estava nas frases de um bilhete escrito em folha de caderno. Chegara á casa e não encontrou viv’alma. Da mulher nem rastro... Só um inusitado bilhete cujas letras, não tendo ele aprendido a acolherar, o obrigavam a comer pela mão dos outros. E, para estes casos, ninguém melhor para ele que a sua querida madrinha. Ela lhe diria, certamente, com o maior prazer do mundo, o que estava escrito naquela folha deixada no criado mudo do quarto. Foi, pois, com esse intuito que o afilhado foi ter com sua protetora. E o bilhete, em silêncio, evidentemente, foi lido: “ – Cansei... – estava escrito. - Não agüento mais viver ao teu lado. Fui morar com aquele teu primo. Aquele que tinhas ciúmes, lembras? Ele é bem cheirosinho e delicado. Muito diferente de ti, que não me dás a importância que mereço. E, além de tudo, não suporto mais esse cheiro de fumaça, de rancho com lenha ardida em fogão que tu tens... Adeus, nunca mais... Não espera por mim... Me esquece...” Tendo lido e relido o conteúdo do bilhete, a madrinha, embasbacada com aquela folha de papel na mão, não sabia o que dizer ao afilhado. Longos segundos se passaram enquanto os olhinhos do infeliz a olhavam curiosos, aguardando o fim da leitura. – Olha – diz a madrinha, por fim. – Acho que tu não deves te preocupar. Tua mulher deixou dito que foi passar o fim de semana com a tia dela, em Pelotas. Deixou comida na geladeira. É só aquecer. Diz que segunda-feira, ou terça, estará de volta. Deixou beijos e abraços. Nesta altura dos acontecimentos a madrinha, fazendo tempo enquanto pensava no que mais dizer ao afilhado, completou a leitura do bilhete: Ah! Ela botou aqui que não quer ver a cozinha suja quando chegar, nem a casa desarrumada... Por fim, dobrou o bilhete, bem devagarzinho - sabe lá no que ia dar aquele imbróglio! - e colocou-o na bolsa, por precaução... Madrinha é para essas coisas!... - Não é mesmo, minha amiga?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nostalgia

Por acaso, tu lembras que se ouvia muito, desde os alto-falantes do Cine Marabá, aquela música que o Agustín Lara compôs para a Maria Félix? Bem, para a Maria Félix ele compôs muito, mas, a que ainda mexe com a minha lembrança é uma que começa assim: Acuerda-te de Acapulco, Maria Bonita... E por aí vai. Pois essa era a música de chamada do nosso antigo cinema. Ainda hoje, ante a simples lembrança daqueles acordes, dá vontade de perguntar: O teu amor também nasceu naquela sala de projeção? E, foi naquele domingo em que passou o filme Os Dez Mandamentos que ele floresceu? Depois - tempos depois -, entre tão longos filmes tu foi escolher a fita do Bem-Hur, do Spartacus, quem sabe o Rei dos Reis ou Laurence da Arábia, para aplicar o teu primeiro beijo na hoje tua senhora? Só por que eram longas metragens? Cadê a coragem, naqueles tempos, hein? Se tudo aconteceu naquele famoso escurinho da sala, como já apelidaram tal momento mágico, sob o patrocínio dos mais longos e enjoados filmes de então, por que negar? Somos de outra geração onde tudo era tão diferente, verdade? Ah!!! Quem vai se lembrar hoje em dia da dificuldade do primeiro beijo. Só mesmo os saudosistas do Cinema Marabá, como nós. Quem vai precisar de um filme de longa metragem para aplicar um beijo se esse átimo, hoje, dispensa as salas escuras? Se puder ocorrer num tempo menor que o de um comercial de cerveja e se, às vezes pelo que parece, nem é mais num beijo que o namoro começa. Mas que o cinema faz falta em nossa cidade, isso faz. Ao menos para assistir aos bons filmes que passavam naquelas quartas-feiras e que hoje são chamados de Cult. O dono da sala alugava-os para o meio da semana por serem sensivelmente mais baratos. Víamos, assim, graças à sovinice do proprietário, no meio da semana, os bons filmes de Fellini, Dino de Laurentis, Pier Paolo Pasolini, Jean Luc Godard, Ingmar Bergman, Elia Kazan. O fenomenal e inesquecível A Estrada, com Anthony Quinn e Giulietta Masina nos papéis de Zampagnó e Gelsomina passou tão despercebido na tela de uma quarta-feira quanto Noites de Cabíria e Oito e Meio. A Doce Vida - para ficarmos apenas nos filmes do Fellini - passou numa quarta com pouquíssimas pessoas assistindo ao Marcelo Mastroiani e Anita Ekberg na cena do banho na Fontana di Trevi. Mas, vamos deixar isso pra lá, até por que não se namorava muito nas quartas-feiras. Não era dia de beijos, convenhamos, e o escurinho servia mais para a gente bater com os pés quando a fita rebentava e enquanto o Nelsinho emendava o celuloide com acetona para reiniciar a projeção. Chega! Parei. A saudade quando começa a ficar triste vira nostalgia. E não é o caso...

La dolce vita - la fontana di trevi - Fellini - a Napoli

Bon Jovi-Thank You For Loving Me

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Fafá de Belém - Amor da Minha Vida - Especial Roberto Carlos

Meu Caro.

Muito me lisonjeia saber que lês minhas crônicas. Tenho dúvidas se os temas tratados nelas te atraem e certezas sobre a dificuldade que é agradar a todos. Não obstante, não vou fugir dessa linha enquanto houver assunto, já que não mais me atraem as pesadas teses propostas pelas pessoas ditas politizadas. Foi-se o tempo em que ralávamos no Café do Tritri, até altas horas da noite, comentando as catilinárias do Comandante recém descido de Sierra Maestra, através da Rádio Martí ou os discursos do Leonel Brizola pelas ondas curtas da Voz da América. Ainda, confesso com certa reserva, me dá enfado buscar assunto num livro do Antero de Quental, do Régis Debray ou do Sartre ou mesmo ler e comentar as histórias policiais do Poe, do Hawthorne e do Wallace, para depois trocar idéias. Quero bem mais, quero ficar na simplicidade de ler e guardar para mim as aventuras da Miss Marple, do Inspetor Maigret e do Perry Masson que me divertem ou assistir filmes com a Megg Rayan, Nicole Kidman ou a Juliette Binoche. Adeus às teorias do Piaget, do Paulo Freire e do Betinho. Tudo hoje me soa como coisa vã. Se não assimilei os rudimentos de literatura do Sílvio Romero, do Teófilo Braga e do Mário de Andrade não vou entrar em parafuso. Até por que não existem mais a Churrascaria do João Gago, o Bar do Élvio e o Cavalo de Aço, do Felipe, lugares onde sem pudor nenhum partilhávamos essas atrocidades culturais madrugada adentro, não raras vezes em saudosa companhia do Eterno, do Jacques e do Marta Rocha - que Deus os Tem. Tudo passou. E valeu. Mas, é só. Hoje já não há mais idade e pique para enfrentar uma noitada num banco da praça pregando peças em guardas noturnos, discutindo artigos e charges dos atuais similares do nosso querido O Pasquim. Tudo tem seu tempo e para estes assuntos de alta importância novos cronistas estão por aí esbanjando talento. Mas, caro amigo, não entendes, possivelmente, a enorme satisfação que me invade quando enveredo pelas lembranças que guardei da minha aldeia. Pelas bobagens, como costumo dizer, que em ânsia louca procuro ouvir dos mais velhos. Outros andarão por aí, como disse, novos chegarão e aportarão seus barcos nesse cais das discussões importantes. Eu, de minha parte, se me permites, com toda essa tua juventude, com toda essa tua vontade e fleuma de ler assuntos menos leves, vou continuar chateando os meus pares com as histórias daqui onde me criei. Quero ser ilha nesse imenso arquipélago de coisas que ainda quero contar, se para tanto viver. E me encantar em saber que ao fim de uma crônica minha ao menos uma pessoa, só umazinha, num supremo elogio, se sair com este comentário: - Mas que bobagem!!!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A Lista


No início da década de sessenta, não existia a terminologia Gay, que quer dizer divertido, descontraído, solto, na língua inglesa. Tampouco a designação bicha e afins como GLSs faziam parte do vocabulário cotidiano. Quando o rapaz tinha algum trejeito, desmunhecava, ou era muito bem arrumadinho de roupa e acessórios (sabe como é, um pullover vermelho, uma bolsinha leva-tudo, qualquer modernidade? Brinco, então, nem se fala...) já chamavam ele de veado. Pois, nesse tempo, no universo de uma cidadezinha como a nossa, a barbearia era o centro da informação, e da fofoca, naturalmente. A do Olímpio, foi famosa. Pois, quando o Idílio veio morar aqui, o Olímpio deu em implicar com ele. A implicância foi a tal grau que, dizem, o nome dele foi parar num lista de bichas, que o barbeiro confeccionara. Um dia, sabedor da relação em que constava o nome dele desabonando a masculinidade, o Idílio afrontou o Olímpio: - Como é, será verdade que meu nome está numa lista de frescos, que tu tens. Olha – sentenciou - para que tenham na cidade cento e dezoito veados eu estou, então, com três nomes. Vai lá, me mostra essa lista... O barbeiro, salta daqui, salta dali, acabou indo nos fundos do salão e dali - não sem tendo demorado um pouquinho, que desse tempo para apagar o nome do Idílio - trouxe uma lista, com trinta e poucos nomes (já naquela época) e mostrou-a, dizendo: - Está aqui, mas não fui eu que fiz, deixaram por aí e eu guardei... Os nomes eram escritos a lápis e, na verdade, o nome do Idílio não constava. Leu-a e entregou-a ao Olímpio que voltou a guardá-la lá na outra peça, nos fundos, onde estava o seu quarto e cozinha. Antes, tirou o lápis, que tinha aquela borrachinha de apagar na ponta, passou o grafite na língua, e, lá pelo meio da lista, onde tinha um vão, escreveu, novamente: IDÍLIO. Dobrou-a e guardou-a. Bem guardada...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Gravatá

Perdeu-se no tempo a origem do apelido que lhe deram: Gravatá do Euzébio. Casa noturna que foi ponto de boêmia na nossa juventude. Apenas dizia-se: Vamos pro Gravatá? E, lá, fechávamos a noite dançando com a Maurícia, a Gaveta, a Espada Nua, a Negrona, a Peluda, a Muda, a Maria Vaca, a Farela e outras que não nos vêm na memória, agora. Único lugar na noite onde encontrávamos cigarros Hollyhood, o xodó dos fumantes, por anos a fio, ainda com a marca escrita em letras góticas, bem antes do advento do filtro. No bar, sob um balcão de pedra, havia um poço com água fresca para gelar a Brahma Chopp, cerveja da época. No geral, inverno ou verão, sempre a uma temperatura ambiente, bebia-se, motivados pelo preço, muita cachaça com vermute, num tempo em que ainda não haviam dado com os costados por estas bandas a Cuba Libre e o Samba. No salão, num canto, ao alto, havia uma espécie de gaiola onde ficavam o Filomeno, o Dadinho e o Cláudio Caminhão, os músicos, protegidos das eventuais escaramuças. Na portaria, cobrando a entrada, e também servindo de garçom, o Sencinho, filho do dono da casa. Gerenciando os bailes, o pai, carapinha branca, olhinhos baços, sempre se fazendo de desentendido, eternamente dizendo que não sabia de nada embora nada lhe passasse despercebido. O Gravatá foi palco de inumeráveis brigas patrocinadas pelo Timotéo, Alemão do Julinho, Caco, Alamir, Zé do Julião e outros tantos gigolôs e desordeiros daquele tempo. Brigas entre mulheres encrenqueiras, então... Mortes, também: Duas. A primeira, no meio caminho entre o bar e o salão, numa peça que tinha portas para o quartinho onde o Euzébio sesteava, mataram o Cabo Assis. Quando a polícia chegou ao Salão e perguntou o que acontecera, mesmo com o brigadiano estirado numa grande sangueira, a resposta do Velho foi serena: Não sei meu filho... Foi? Anos mais tarde, quando na porta de entrada o Bidoca matou o Martín Ligeiro, fecharam o peixe para sempre. Contam, nada o Velho sabia nem nada vira naquela noite. Vem daí, por suposto, o costume que é comum na cidade: Apelidar de Euzébio, sempre que alguém desconhece alguma novidade ou incidente. E, somos nós, os antigos daquele tempo, que perpetuamos a lenda de chamar de Euzébio quando alguém se faz de desinformado. Sabiam? Não? 03/10/2011.

domingo, 2 de outubro de 2011

Como Gente...

Criado na campanha, em meio ao encordoado de coxilhas que o tempo esculpiu no pampa, Terêncio vivia, agora, já sessentão, pensando numa aposentadoria que lhe trouxesse conforto. Menos trabalho - pensava ele - e um dinheirinho certo no fim do mês, enquanto tinha saúde, que os remédios - parafraseava: - andavam pela hora da morte! Até já procurara um político amigo que lhe descolasse uma casinha daquelas que os candidatos destinam a seus eleitores perto das eleições. Vai vendo ele era amigo dum vereador que já tinha duas eleições, à custa de presença diária no plantão de socorro, e se preparava bonito para a próxima. Deveria, com toda a certeza, se reeleger com a mesma facilidade das campanhas anteriores. Ah!!! Só faltava a sorte lhe disparar numa olada dessas, pensava, agora que o partido do finado Brizola andava por cima na região... Esperançoso, fazia os seus cálculos para aproveitar a felicidade que viria, por certo, com uma ou duas pecinhas lá na Silvina, ou no Mutirão, lugares do seu encanto, zonas afastadas do barulho, lugar de bastante conhecidos. Mas, sonhando por sonhar, o Terêncio que tinha a idéia de um futuro na cidade não queria descuidar lá de fora, nas Pontas do Chasqueiro, no meio daquela serra, do seu campinho onde estavam os seus interesses e precisava manter o controle do seu gadinho, das suas ovelhinhas que lhe davam a subsistência. Achando-se forte, ainda, acreditava, piamente, ter forças para cuidar dos animais e banhá-los modernamente com isprei, livrando-os das bicheiras, sem descuidar dum salzinho, de vez em quando, para mantê-los brilhosos, gordaços e o rebanho não mermasse. Mas deixa estar que correndo os dias na languidez da paisagem serrana, na vida do Terêncio, também, furingando o amor, ele não descuidou de dar carinho à Mariazinha, achego ali mesmo da vizinhança que tinha lhe dado um lindo filho com toda a sua parecença. Meio escurinho, o guri saíra à mãe, negrinha teatina daquele recanto que há muitos anos chegou a ser um palmar na Airosa Galvão. Menos que palmar, um arremedo de quilombo, de dúzia e meia de criaturas saídas duma estância do Cerro Chato, que por ali se arrancharam com o consentimento de um fazendeiro de ideais farroupilhas - temente a Deus e entonado com o Império - que lhes dera em comodato uma pequena extensão de terra e os acobertou até o advento da República. Pois, ao filho que trazia seu sangue, e que para o Terêncio era tudo na vida, ele carregava como questão de honra, passar a sua experiência, para que o filho se criasse como gente, como dizia, para garantia do seu futuro. Neste tranco, com a chinoca garantindo os afazeres domésticos, e ambos cuidando das questões familiares, passavam-se os dias. Terêncio, sem perder vasa, professorava, em cima do guri, transmitindo tudo que podia e sabia àquele fruto do único e grande acontecimento amoroso da sua vida. Tudo ele ensinava ao menino, que já estava modificando a voz – ora cantando como garnizé, ora engrossando o tom como um galo - nos seus quase doze anos. Nas charlas com o pai ao pé do fogão à lenha botava tenência em tudo o que ouvia da rude e terna filosofia campeira. Entrara tarde na escola, mas, esperto. Logo, logo o piá aprendeu a ler e escrever. Para orgulho do pai ele rabiscou as primeiras notas para levar à venda do seu Basílio, que ficava logo ali, adiante da Nica Chaves, já no segundo ano do colégio. Como calculara o velho gaúcho, o filho estava se encaminhando na vida. E, em cima desse aprendizado da escola, o velho ajuntava conselhos, traçava parecenças, buscava luzes nas histórias gauchescas do velho Blau Nunes, nas mentiras do Romualdo ou nos causos do Navidinha. Tinha, sim, muita filosofia no corpo o Terêncio... Não cansava de ensinar. Sempre insistindo nos velhos ditados e aforismas que fazem escola nesta campanha, neste pampa, neste sul maravilha, onde os portugueses e os espanhóis, brigando e amando, moldaram esta raça crioula, continentina, diferente, indomável e balaqueira. Que pai!!! Perseguindo o sonho de continuar feliz, como até então vinha sendo, não perdia tempo em deitar sapiência ao seu discípulo, sangue de seu sangue, aluno dessa escola bárbara, cheia de chão – e cheia e farta de elementos telúricos – daquele fundão abençoado das Asperezas. Assim, à medida que o menino crescia, o velho lhe mostrava - no quadro verde e grande da natureza... Sala de aula onde os gaudérios aprendem e ensinam... - desde as manifestações mais simples às mais misteriosas dos elementos da fauna e da flora que os cercavam. E o discípulo, a tudo prestava atenção, a nada se distraia. Quando o pai lhe perguntava por que o socó estava lambendo as penas, à tardinha, na taipa do açude o aprendiz prontamente respondia o que aquela cena representava e qual recado estava dando a natureza. Se um lagarto ao atravessar o corredor deixava o rastro da cola serpenteado na areia havia uma explicação e a ela o aprendiz atendia prontamente em dizer a que vinha aquele pequeno aviso. Nada passava despercebido ao aplicado aluno, nada. Gostava de ouvir o pai dando as suas interpretações àquelas manifestações naturais e procurava não esquecê-las. Muitíssimas vezes, o menino matutava nos porquês da natureza por pura vontade de aprender e perguntava: - Por que o gado se achegava para perto do alambrado? E se virava de costas para os lados do Rincão Feliz? Na certa, dizia-lhe o pai, - lá vinha o minuano trazendo os três dias de vento forte, gelado e seco. Se o gado, ou os cavalos, se enquadrassem um pouquinho mais para o sul, lá para os lados da Mauá, mais ao sul, era batata: O vento ia calmar, o tempo ia se firmar, era o solzinho sudoeste ideal para o lagarteio que estava dando o ar da sua graça. Então, quero-quero e cachorro, quando davam sinal, o guri já tirava de letra... Gente? Bicho? Rápido, o recado já tinha sido decodificado. Já ficava à espera por que algum vizinho estava chegando para fazer uma visita ao rancho. Terêncio, com esse maravilhoso correr da vida, com o sonho e a esperança da casinha na cidade, aliado ao ensino que proporcionara ao guri, exultava. Num dia que morria cálido, sentado à soleira da porta, picando o fumo para o baio – palha de milho já aparadinha na orelha -, chamou o filho, de uma forma carinhosa, para perto dele. Agachado numa pedra mó que agora servia de portal da casa o guri esperava assunto, quieto, só ouvido... Então, com uma serenidade nunca vista em seu semblante, e uma ternura infinita, Terêncio pigarreou, olhou o horizonte, deu um suspiro e lascou a sua sentença, definitiva, a cerca de tudo que procurara ensinar: - Filho! Desta pouca sabedência que trago na cachola posso te dizer uma coisa, já que te amo tanto: - Sei que tenho sido duro contigo, mas, é lei simples, que ainda vais ensinar aos meus netos: - Quem dá a bóia, dá o induque!!!

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