Quem sou eu
Al Di Lá
Você se lembra do filme Candelabro Italiano?
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Meu Caro.
Muito me lisonjeia saber que lês minhas crônicas. Tenho dúvidas se os temas tratados nelas te atraem e certezas sobre a dificuldade que é agradar a todos. Não obstante, não vou fugir dessa linha enquanto houver assunto, já que não mais me atraem as pesadas teses propostas pelas pessoas ditas politizadas. Foi-se o tempo em que ralávamos no Café do Tritri, até altas horas da noite, comentando as catilinárias do Comandante recém descido de Sierra Maestra, através da Rádio Martí ou os discursos do Leonel Brizola pelas ondas curtas da Voz da América. Ainda, confesso com certa reserva, me dá enfado buscar assunto num livro do Antero de Quental, do Régis Debray ou do Sartre ou mesmo ler e comentar as histórias policiais do Poe, do Hawthorne e do Wallace, para depois trocar idéias. Quero bem mais, quero ficar na simplicidade de ler e guardar para mim as aventuras da Miss Marple, do Inspetor Maigret e do Perry Masson que me divertem ou assistir filmes com a Megg Rayan, Nicole Kidman ou a Juliette Binoche. Adeus às teorias do Piaget, do Paulo Freire e do Betinho. Tudo hoje me soa como coisa vã. Se não assimilei os rudimentos de literatura do Sílvio Romero, do Teófilo Braga e do Mário de Andrade não vou entrar em parafuso. Até por que não existem mais a Churrascaria do João Gago, o Bar do Élvio e o Cavalo de Aço, do Felipe, lugares onde sem pudor nenhum partilhávamos essas atrocidades culturais madrugada adentro, não raras vezes em saudosa companhia do Eterno, do Jacques e do Marta Rocha - que Deus os Tem. Tudo passou. E valeu. Mas, é só. Hoje já não há mais idade e pique para enfrentar uma noitada num banco da praça pregando peças em guardas noturnos, discutindo artigos e charges dos atuais similares do nosso querido O Pasquim. Tudo tem seu tempo e para estes assuntos de alta importância novos cronistas estão por aí esbanjando talento. Mas, caro amigo, não entendes, possivelmente, a enorme satisfação que me invade quando enveredo pelas lembranças que guardei da minha aldeia. Pelas bobagens, como costumo dizer, que em ânsia louca procuro ouvir dos mais velhos. Outros andarão por aí, como disse, novos chegarão e aportarão seus barcos nesse cais das discussões importantes. Eu, de minha parte, se me permites, com toda essa tua juventude, com toda essa tua vontade e fleuma de ler assuntos menos leves, vou continuar chateando os meus pares com as histórias daqui onde me criei. Quero ser ilha nesse imenso arquipélago de coisas que ainda quero contar, se para tanto viver. E me encantar em saber que ao fim de uma crônica minha ao menos uma pessoa, só umazinha, num supremo elogio, se sair com este comentário: - Mas que bobagem!!!
Muito me lisonjeia saber que lês minhas crônicas. Tenho dúvidas se os temas tratados nelas te atraem e certezas sobre a dificuldade que é agradar a todos. Não obstante, não vou fugir dessa linha enquanto houver assunto, já que não mais me atraem as pesadas teses propostas pelas pessoas ditas politizadas. Foi-se o tempo em que ralávamos no Café do Tritri, até altas horas da noite, comentando as catilinárias do Comandante recém descido de Sierra Maestra, através da Rádio Martí ou os discursos do Leonel Brizola pelas ondas curtas da Voz da América. Ainda, confesso com certa reserva, me dá enfado buscar assunto num livro do Antero de Quental, do Régis Debray ou do Sartre ou mesmo ler e comentar as histórias policiais do Poe, do Hawthorne e do Wallace, para depois trocar idéias. Quero bem mais, quero ficar na simplicidade de ler e guardar para mim as aventuras da Miss Marple, do Inspetor Maigret e do Perry Masson que me divertem ou assistir filmes com a Megg Rayan, Nicole Kidman ou a Juliette Binoche. Adeus às teorias do Piaget, do Paulo Freire e do Betinho. Tudo hoje me soa como coisa vã. Se não assimilei os rudimentos de literatura do Sílvio Romero, do Teófilo Braga e do Mário de Andrade não vou entrar em parafuso. Até por que não existem mais a Churrascaria do João Gago, o Bar do Élvio e o Cavalo de Aço, do Felipe, lugares onde sem pudor nenhum partilhávamos essas atrocidades culturais madrugada adentro, não raras vezes em saudosa companhia do Eterno, do Jacques e do Marta Rocha - que Deus os Tem. Tudo passou. E valeu. Mas, é só. Hoje já não há mais idade e pique para enfrentar uma noitada num banco da praça pregando peças em guardas noturnos, discutindo artigos e charges dos atuais similares do nosso querido O Pasquim. Tudo tem seu tempo e para estes assuntos de alta importância novos cronistas estão por aí esbanjando talento. Mas, caro amigo, não entendes, possivelmente, a enorme satisfação que me invade quando enveredo pelas lembranças que guardei da minha aldeia. Pelas bobagens, como costumo dizer, que em ânsia louca procuro ouvir dos mais velhos. Outros andarão por aí, como disse, novos chegarão e aportarão seus barcos nesse cais das discussões importantes. Eu, de minha parte, se me permites, com toda essa tua juventude, com toda essa tua vontade e fleuma de ler assuntos menos leves, vou continuar chateando os meus pares com as histórias daqui onde me criei. Quero ser ilha nesse imenso arquipélago de coisas que ainda quero contar, se para tanto viver. E me encantar em saber que ao fim de uma crônica minha ao menos uma pessoa, só umazinha, num supremo elogio, se sair com este comentário: - Mas que bobagem!!!
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
A Lista
No início da década de sessenta, não existia a terminologia Gay, que quer dizer divertido, descontraído, solto, na língua inglesa. Tampouco a designação bicha e afins como GLSs faziam parte do vocabulário cotidiano. Quando o rapaz tinha algum trejeito, desmunhecava, ou era muito bem arrumadinho de roupa e acessórios (sabe como é, um pullover vermelho, uma bolsinha leva-tudo, qualquer modernidade? Brinco, então, nem se fala...) já chamavam ele de veado. Pois, nesse tempo, no universo de uma cidadezinha como a nossa, a barbearia era o centro da informação, e da fofoca, naturalmente. A do Olímpio, foi famosa. Pois, quando o Idílio veio morar aqui, o Olímpio deu em implicar com ele. A implicância foi a tal grau que, dizem, o nome dele foi parar num lista de bichas, que o barbeiro confeccionara. Um dia, sabedor da relação em que constava o nome dele desabonando a masculinidade, o Idílio afrontou o Olímpio: - Como é, será verdade que meu nome está numa lista de frescos, que tu tens. Olha – sentenciou - para que tenham na cidade cento e dezoito veados eu estou, então, com três nomes. Vai lá, me mostra essa lista... O barbeiro, salta daqui, salta dali, acabou indo nos fundos do salão e dali - não sem tendo demorado um pouquinho, que desse tempo para apagar o nome do Idílio - trouxe uma lista, com trinta e poucos nomes (já naquela época) e mostrou-a, dizendo: - Está aqui, mas não fui eu que fiz, deixaram por aí e eu guardei... Os nomes eram escritos a lápis e, na verdade, o nome do Idílio não constava. Leu-a e entregou-a ao Olímpio que voltou a guardá-la lá na outra peça, nos fundos, onde estava o seu quarto e cozinha. Antes, tirou o lápis, que tinha aquela borrachinha de apagar na ponta, passou o grafite na língua, e, lá pelo meio da lista, onde tinha um vão, escreveu, novamente: IDÍLIO. Dobrou-a e guardou-a. Bem guardada...
No início da década de sessenta, não existia a terminologia Gay, que quer dizer divertido, descontraído, solto, na língua inglesa. Tampouco a designação bicha e afins como GLSs faziam parte do vocabulário cotidiano. Quando o rapaz tinha algum trejeito, desmunhecava, ou era muito bem arrumadinho de roupa e acessórios (sabe como é, um pullover vermelho, uma bolsinha leva-tudo, qualquer modernidade? Brinco, então, nem se fala...) já chamavam ele de veado. Pois, nesse tempo, no universo de uma cidadezinha como a nossa, a barbearia era o centro da informação, e da fofoca, naturalmente. A do Olímpio, foi famosa. Pois, quando o Idílio veio morar aqui, o Olímpio deu em implicar com ele. A implicância foi a tal grau que, dizem, o nome dele foi parar num lista de bichas, que o barbeiro confeccionara. Um dia, sabedor da relação em que constava o nome dele desabonando a masculinidade, o Idílio afrontou o Olímpio: - Como é, será verdade que meu nome está numa lista de frescos, que tu tens. Olha – sentenciou - para que tenham na cidade cento e dezoito veados eu estou, então, com três nomes. Vai lá, me mostra essa lista... O barbeiro, salta daqui, salta dali, acabou indo nos fundos do salão e dali - não sem tendo demorado um pouquinho, que desse tempo para apagar o nome do Idílio - trouxe uma lista, com trinta e poucos nomes (já naquela época) e mostrou-a, dizendo: - Está aqui, mas não fui eu que fiz, deixaram por aí e eu guardei... Os nomes eram escritos a lápis e, na verdade, o nome do Idílio não constava. Leu-a e entregou-a ao Olímpio que voltou a guardá-la lá na outra peça, nos fundos, onde estava o seu quarto e cozinha. Antes, tirou o lápis, que tinha aquela borrachinha de apagar na ponta, passou o grafite na língua, e, lá pelo meio da lista, onde tinha um vão, escreveu, novamente: IDÍLIO. Dobrou-a e guardou-a. Bem guardada...
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O Gravatá
Perdeu-se no tempo a origem do apelido que lhe deram: Gravatá do Euzébio. Casa noturna que foi ponto de boêmia na nossa juventude. Apenas dizia-se: Vamos pro Gravatá? E, lá, fechávamos a noite dançando com a Maurícia, a Gaveta, a Espada Nua, a Negrona, a Peluda, a Muda, a Maria Vaca, a Farela e outras que não nos vêm na memória, agora. Único lugar na noite onde encontrávamos cigarros Hollyhood, o xodó dos fumantes, por anos a fio, ainda com a marca escrita em letras góticas, bem antes do advento do filtro. No bar, sob um balcão de pedra, havia um poço com água fresca para gelar a Brahma Chopp, cerveja da época. No geral, inverno ou verão, sempre a uma temperatura ambiente, bebia-se, motivados pelo preço, muita cachaça com vermute, num tempo em que ainda não haviam dado com os costados por estas bandas a Cuba Libre e o Samba. No salão, num canto, ao alto, havia uma espécie de gaiola onde ficavam o Filomeno, o Dadinho e o Cláudio Caminhão, os músicos, protegidos das eventuais escaramuças. Na portaria, cobrando a entrada, e também servindo de garçom, o Sencinho, filho do dono da casa. Gerenciando os bailes, o pai, carapinha branca, olhinhos baços, sempre se fazendo de desentendido, eternamente dizendo que não sabia de nada embora nada lhe passasse despercebido. O Gravatá foi palco de inumeráveis brigas patrocinadas pelo Timotéo, Alemão do Julinho, Caco, Alamir, Zé do Julião e outros tantos gigolôs e desordeiros daquele tempo. Brigas entre mulheres encrenqueiras, então... Mortes, também: Duas. A primeira, no meio caminho entre o bar e o salão, numa peça que tinha portas para o quartinho onde o Euzébio sesteava, mataram o Cabo Assis. Quando a polícia chegou ao Salão e perguntou o que acontecera, mesmo com o brigadiano estirado numa grande sangueira, a resposta do Velho foi serena: Não sei meu filho... Foi? Anos mais tarde, quando na porta de entrada o Bidoca matou o Martín Ligeiro, fecharam o peixe para sempre. Contam, nada o Velho sabia nem nada vira naquela noite. Vem daí, por suposto, o costume que é comum na cidade: Apelidar de Euzébio, sempre que alguém desconhece alguma novidade ou incidente. E, somos nós, os antigos daquele tempo, que perpetuamos a lenda de chamar de Euzébio quando alguém se faz de desinformado. Sabiam? Não? 03/10/2011.
Perdeu-se no tempo a origem do apelido que lhe deram: Gravatá do Euzébio. Casa noturna que foi ponto de boêmia na nossa juventude. Apenas dizia-se: Vamos pro Gravatá? E, lá, fechávamos a noite dançando com a Maurícia, a Gaveta, a Espada Nua, a Negrona, a Peluda, a Muda, a Maria Vaca, a Farela e outras que não nos vêm na memória, agora. Único lugar na noite onde encontrávamos cigarros Hollyhood, o xodó dos fumantes, por anos a fio, ainda com a marca escrita em letras góticas, bem antes do advento do filtro. No bar, sob um balcão de pedra, havia um poço com água fresca para gelar a Brahma Chopp, cerveja da época. No geral, inverno ou verão, sempre a uma temperatura ambiente, bebia-se, motivados pelo preço, muita cachaça com vermute, num tempo em que ainda não haviam dado com os costados por estas bandas a Cuba Libre e o Samba. No salão, num canto, ao alto, havia uma espécie de gaiola onde ficavam o Filomeno, o Dadinho e o Cláudio Caminhão, os músicos, protegidos das eventuais escaramuças. Na portaria, cobrando a entrada, e também servindo de garçom, o Sencinho, filho do dono da casa. Gerenciando os bailes, o pai, carapinha branca, olhinhos baços, sempre se fazendo de desentendido, eternamente dizendo que não sabia de nada embora nada lhe passasse despercebido. O Gravatá foi palco de inumeráveis brigas patrocinadas pelo Timotéo, Alemão do Julinho, Caco, Alamir, Zé do Julião e outros tantos gigolôs e desordeiros daquele tempo. Brigas entre mulheres encrenqueiras, então... Mortes, também: Duas. A primeira, no meio caminho entre o bar e o salão, numa peça que tinha portas para o quartinho onde o Euzébio sesteava, mataram o Cabo Assis. Quando a polícia chegou ao Salão e perguntou o que acontecera, mesmo com o brigadiano estirado numa grande sangueira, a resposta do Velho foi serena: Não sei meu filho... Foi? Anos mais tarde, quando na porta de entrada o Bidoca matou o Martín Ligeiro, fecharam o peixe para sempre. Contam, nada o Velho sabia nem nada vira naquela noite. Vem daí, por suposto, o costume que é comum na cidade: Apelidar de Euzébio, sempre que alguém desconhece alguma novidade ou incidente. E, somos nós, os antigos daquele tempo, que perpetuamos a lenda de chamar de Euzébio quando alguém se faz de desinformado. Sabiam? Não? 03/10/2011.
domingo, 2 de outubro de 2011
Como Gente...
Criado na campanha, em meio ao encordoado de coxilhas que o tempo esculpiu no pampa, Terêncio vivia, agora, já sessentão, pensando numa aposentadoria que lhe trouxesse conforto. Menos trabalho - pensava ele - e um dinheirinho certo no fim do mês, enquanto tinha saúde, que os remédios - parafraseava: - andavam pela hora da morte! Até já procurara um político amigo que lhe descolasse uma casinha daquelas que os candidatos destinam a seus eleitores perto das eleições. Vai vendo ele era amigo dum vereador que já tinha duas eleições, à custa de presença diária no plantão de socorro, e se preparava bonito para a próxima. Deveria, com toda a certeza, se reeleger com a mesma facilidade das campanhas anteriores. Ah!!! Só faltava a sorte lhe disparar numa olada dessas, pensava, agora que o partido do finado Brizola andava por cima na região... Esperançoso, fazia os seus cálculos para aproveitar a felicidade que viria, por certo, com uma ou duas pecinhas lá na Silvina, ou no Mutirão, lugares do seu encanto, zonas afastadas do barulho, lugar de bastante conhecidos. Mas, sonhando por sonhar, o Terêncio que tinha a idéia de um futuro na cidade não queria descuidar lá de fora, nas Pontas do Chasqueiro, no meio daquela serra, do seu campinho onde estavam os seus interesses e precisava manter o controle do seu gadinho, das suas ovelhinhas que lhe davam a subsistência. Achando-se forte, ainda, acreditava, piamente, ter forças para cuidar dos animais e banhá-los modernamente com isprei, livrando-os das bicheiras, sem descuidar dum salzinho, de vez em quando, para mantê-los brilhosos, gordaços e o rebanho não mermasse. Mas deixa estar que correndo os dias na languidez da paisagem serrana, na vida do Terêncio, também, furingando o amor, ele não descuidou de dar carinho à Mariazinha, achego ali mesmo da vizinhança que tinha lhe dado um lindo filho com toda a sua parecença. Meio escurinho, o guri saíra à mãe, negrinha teatina daquele recanto que há muitos anos chegou a ser um palmar na Airosa Galvão. Menos que palmar, um arremedo de quilombo, de dúzia e meia de criaturas saídas duma estância do Cerro Chato, que por ali se arrancharam com o consentimento de um fazendeiro de ideais farroupilhas - temente a Deus e entonado com o Império - que lhes dera em comodato uma pequena extensão de terra e os acobertou até o advento da República. Pois, ao filho que trazia seu sangue, e que para o Terêncio era tudo na vida, ele carregava como questão de honra, passar a sua experiência, para que o filho se criasse como gente, como dizia, para garantia do seu futuro. Neste tranco, com a chinoca garantindo os afazeres domésticos, e ambos cuidando das questões familiares, passavam-se os dias. Terêncio, sem perder vasa, professorava, em cima do guri, transmitindo tudo que podia e sabia àquele fruto do único e grande acontecimento amoroso da sua vida. Tudo ele ensinava ao menino, que já estava modificando a voz – ora cantando como garnizé, ora engrossando o tom como um galo - nos seus quase doze anos. Nas charlas com o pai ao pé do fogão à lenha botava tenência em tudo o que ouvia da rude e terna filosofia campeira. Entrara tarde na escola, mas, esperto. Logo, logo o piá aprendeu a ler e escrever. Para orgulho do pai ele rabiscou as primeiras notas para levar à venda do seu Basílio, que ficava logo ali, adiante da Nica Chaves, já no segundo ano do colégio. Como calculara o velho gaúcho, o filho estava se encaminhando na vida. E, em cima desse aprendizado da escola, o velho ajuntava conselhos, traçava parecenças, buscava luzes nas histórias gauchescas do velho Blau Nunes, nas mentiras do Romualdo ou nos causos do Navidinha. Tinha, sim, muita filosofia no corpo o Terêncio... Não cansava de ensinar. Sempre insistindo nos velhos ditados e aforismas que fazem escola nesta campanha, neste pampa, neste sul maravilha, onde os portugueses e os espanhóis, brigando e amando, moldaram esta raça crioula, continentina, diferente, indomável e balaqueira. Que pai!!! Perseguindo o sonho de continuar feliz, como até então vinha sendo, não perdia tempo em deitar sapiência ao seu discípulo, sangue de seu sangue, aluno dessa escola bárbara, cheia de chão – e cheia e farta de elementos telúricos – daquele fundão abençoado das Asperezas. Assim, à medida que o menino crescia, o velho lhe mostrava - no quadro verde e grande da natureza... Sala de aula onde os gaudérios aprendem e ensinam... - desde as manifestações mais simples às mais misteriosas dos elementos da fauna e da flora que os cercavam. E o discípulo, a tudo prestava atenção, a nada se distraia. Quando o pai lhe perguntava por que o socó estava lambendo as penas, à tardinha, na taipa do açude o aprendiz prontamente respondia o que aquela cena representava e qual recado estava dando a natureza. Se um lagarto ao atravessar o corredor deixava o rastro da cola serpenteado na areia havia uma explicação e a ela o aprendiz atendia prontamente em dizer a que vinha aquele pequeno aviso. Nada passava despercebido ao aplicado aluno, nada. Gostava de ouvir o pai dando as suas interpretações àquelas manifestações naturais e procurava não esquecê-las. Muitíssimas vezes, o menino matutava nos porquês da natureza por pura vontade de aprender e perguntava: - Por que o gado se achegava para perto do alambrado? E se virava de costas para os lados do Rincão Feliz? Na certa, dizia-lhe o pai, - lá vinha o minuano trazendo os três dias de vento forte, gelado e seco. Se o gado, ou os cavalos, se enquadrassem um pouquinho mais para o sul, lá para os lados da Mauá, mais ao sul, era batata: O vento ia calmar, o tempo ia se firmar, era o solzinho sudoeste ideal para o lagarteio que estava dando o ar da sua graça. Então, quero-quero e cachorro, quando davam sinal, o guri já tirava de letra... Gente? Bicho? Rápido, o recado já tinha sido decodificado. Já ficava à espera por que algum vizinho estava chegando para fazer uma visita ao rancho. Terêncio, com esse maravilhoso correr da vida, com o sonho e a esperança da casinha na cidade, aliado ao ensino que proporcionara ao guri, exultava. Num dia que morria cálido, sentado à soleira da porta, picando o fumo para o baio – palha de milho já aparadinha na orelha -, chamou o filho, de uma forma carinhosa, para perto dele. Agachado numa pedra mó que agora servia de portal da casa o guri esperava assunto, quieto, só ouvido... Então, com uma serenidade nunca vista em seu semblante, e uma ternura infinita, Terêncio pigarreou, olhou o horizonte, deu um suspiro e lascou a sua sentença, definitiva, a cerca de tudo que procurara ensinar: - Filho! Desta pouca sabedência que trago na cachola posso te dizer uma coisa, já que te amo tanto: - Sei que tenho sido duro contigo, mas, é lei simples, que ainda vais ensinar aos meus netos: - Quem dá a bóia, dá o induque!!!
Criado na campanha, em meio ao encordoado de coxilhas que o tempo esculpiu no pampa, Terêncio vivia, agora, já sessentão, pensando numa aposentadoria que lhe trouxesse conforto. Menos trabalho - pensava ele - e um dinheirinho certo no fim do mês, enquanto tinha saúde, que os remédios - parafraseava: - andavam pela hora da morte! Até já procurara um político amigo que lhe descolasse uma casinha daquelas que os candidatos destinam a seus eleitores perto das eleições. Vai vendo ele era amigo dum vereador que já tinha duas eleições, à custa de presença diária no plantão de socorro, e se preparava bonito para a próxima. Deveria, com toda a certeza, se reeleger com a mesma facilidade das campanhas anteriores. Ah!!! Só faltava a sorte lhe disparar numa olada dessas, pensava, agora que o partido do finado Brizola andava por cima na região... Esperançoso, fazia os seus cálculos para aproveitar a felicidade que viria, por certo, com uma ou duas pecinhas lá na Silvina, ou no Mutirão, lugares do seu encanto, zonas afastadas do barulho, lugar de bastante conhecidos. Mas, sonhando por sonhar, o Terêncio que tinha a idéia de um futuro na cidade não queria descuidar lá de fora, nas Pontas do Chasqueiro, no meio daquela serra, do seu campinho onde estavam os seus interesses e precisava manter o controle do seu gadinho, das suas ovelhinhas que lhe davam a subsistência. Achando-se forte, ainda, acreditava, piamente, ter forças para cuidar dos animais e banhá-los modernamente com isprei, livrando-os das bicheiras, sem descuidar dum salzinho, de vez em quando, para mantê-los brilhosos, gordaços e o rebanho não mermasse. Mas deixa estar que correndo os dias na languidez da paisagem serrana, na vida do Terêncio, também, furingando o amor, ele não descuidou de dar carinho à Mariazinha, achego ali mesmo da vizinhança que tinha lhe dado um lindo filho com toda a sua parecença. Meio escurinho, o guri saíra à mãe, negrinha teatina daquele recanto que há muitos anos chegou a ser um palmar na Airosa Galvão. Menos que palmar, um arremedo de quilombo, de dúzia e meia de criaturas saídas duma estância do Cerro Chato, que por ali se arrancharam com o consentimento de um fazendeiro de ideais farroupilhas - temente a Deus e entonado com o Império - que lhes dera em comodato uma pequena extensão de terra e os acobertou até o advento da República. Pois, ao filho que trazia seu sangue, e que para o Terêncio era tudo na vida, ele carregava como questão de honra, passar a sua experiência, para que o filho se criasse como gente, como dizia, para garantia do seu futuro. Neste tranco, com a chinoca garantindo os afazeres domésticos, e ambos cuidando das questões familiares, passavam-se os dias. Terêncio, sem perder vasa, professorava, em cima do guri, transmitindo tudo que podia e sabia àquele fruto do único e grande acontecimento amoroso da sua vida. Tudo ele ensinava ao menino, que já estava modificando a voz – ora cantando como garnizé, ora engrossando o tom como um galo - nos seus quase doze anos. Nas charlas com o pai ao pé do fogão à lenha botava tenência em tudo o que ouvia da rude e terna filosofia campeira. Entrara tarde na escola, mas, esperto. Logo, logo o piá aprendeu a ler e escrever. Para orgulho do pai ele rabiscou as primeiras notas para levar à venda do seu Basílio, que ficava logo ali, adiante da Nica Chaves, já no segundo ano do colégio. Como calculara o velho gaúcho, o filho estava se encaminhando na vida. E, em cima desse aprendizado da escola, o velho ajuntava conselhos, traçava parecenças, buscava luzes nas histórias gauchescas do velho Blau Nunes, nas mentiras do Romualdo ou nos causos do Navidinha. Tinha, sim, muita filosofia no corpo o Terêncio... Não cansava de ensinar. Sempre insistindo nos velhos ditados e aforismas que fazem escola nesta campanha, neste pampa, neste sul maravilha, onde os portugueses e os espanhóis, brigando e amando, moldaram esta raça crioula, continentina, diferente, indomável e balaqueira. Que pai!!! Perseguindo o sonho de continuar feliz, como até então vinha sendo, não perdia tempo em deitar sapiência ao seu discípulo, sangue de seu sangue, aluno dessa escola bárbara, cheia de chão – e cheia e farta de elementos telúricos – daquele fundão abençoado das Asperezas. Assim, à medida que o menino crescia, o velho lhe mostrava - no quadro verde e grande da natureza... Sala de aula onde os gaudérios aprendem e ensinam... - desde as manifestações mais simples às mais misteriosas dos elementos da fauna e da flora que os cercavam. E o discípulo, a tudo prestava atenção, a nada se distraia. Quando o pai lhe perguntava por que o socó estava lambendo as penas, à tardinha, na taipa do açude o aprendiz prontamente respondia o que aquela cena representava e qual recado estava dando a natureza. Se um lagarto ao atravessar o corredor deixava o rastro da cola serpenteado na areia havia uma explicação e a ela o aprendiz atendia prontamente em dizer a que vinha aquele pequeno aviso. Nada passava despercebido ao aplicado aluno, nada. Gostava de ouvir o pai dando as suas interpretações àquelas manifestações naturais e procurava não esquecê-las. Muitíssimas vezes, o menino matutava nos porquês da natureza por pura vontade de aprender e perguntava: - Por que o gado se achegava para perto do alambrado? E se virava de costas para os lados do Rincão Feliz? Na certa, dizia-lhe o pai, - lá vinha o minuano trazendo os três dias de vento forte, gelado e seco. Se o gado, ou os cavalos, se enquadrassem um pouquinho mais para o sul, lá para os lados da Mauá, mais ao sul, era batata: O vento ia calmar, o tempo ia se firmar, era o solzinho sudoeste ideal para o lagarteio que estava dando o ar da sua graça. Então, quero-quero e cachorro, quando davam sinal, o guri já tirava de letra... Gente? Bicho? Rápido, o recado já tinha sido decodificado. Já ficava à espera por que algum vizinho estava chegando para fazer uma visita ao rancho. Terêncio, com esse maravilhoso correr da vida, com o sonho e a esperança da casinha na cidade, aliado ao ensino que proporcionara ao guri, exultava. Num dia que morria cálido, sentado à soleira da porta, picando o fumo para o baio – palha de milho já aparadinha na orelha -, chamou o filho, de uma forma carinhosa, para perto dele. Agachado numa pedra mó que agora servia de portal da casa o guri esperava assunto, quieto, só ouvido... Então, com uma serenidade nunca vista em seu semblante, e uma ternura infinita, Terêncio pigarreou, olhou o horizonte, deu um suspiro e lascou a sua sentença, definitiva, a cerca de tudo que procurara ensinar: - Filho! Desta pouca sabedência que trago na cachola posso te dizer uma coisa, já que te amo tanto: - Sei que tenho sido duro contigo, mas, é lei simples, que ainda vais ensinar aos meus netos: - Quem dá a bóia, dá o induque!!!
sábado, 1 de outubro de 2011
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Lautéria & Robério
O Robério e a Lautéria... Não, melhor dizendo, nós a chamávamos de Lauterinha, e a ele Robério do Toríbio. Baixinhos os dois e ela bem mais baixinha que ele. Ainda não havia sido cunhada a expressão casal vinte e eles já preenchiam, à perfeição, o requisito da soma que consagrou o seriado televisivo do dez mais dez. O Robério usava um casquete do exército, atravessado na cabeça, quase tapando um dos olhos, sempre com um cigarro feito à mão, nos três-quartos da boca de grossos beiços, grandes e redondos, com o inferior já caído pelo peso do contínuo uso do pito. Em conjunção com a tez morena e cinzenta daquele crioulo mulato, a pele ressequida da Lauterinha, índia abugrada, ajudava na formação de uma das parelhas mais perfeitas do gênero humano. Quieto, o Roberinho não era de se invocar com ninguém: a bem dizer pouco se incomodava quando a gurizada implicava com o pitoresco casal que os dois formavam. Quando muito ele virava a cabeça para fitar os zombeteiros à sua volta. Nem quando o Elias e o Cabeça disputavam a Lauterinha nos bailes do Gravatá o Robério se incomodava. Chegava dançando, mas, em seguidinha, se emborrachava e se sentava num canto do salão. Só levantava a cabeça para fazer uma senha ao Censinho, misto de garção e porteiro, para que lhe trouxesse mais vermute com cachaça, às vezes um samba. Nunca, que se tivesse conhecimento, tiveram uma moradia fixa, só deles. Viviam, sempre nas bolantas, nos ranchos de leiva e santá-fé ou num canto qualquer de galpão de granja ou estância. Ele, Inseparável da canha, trabalhava em lides campeiras onde tivesse um serviço changueiro, nunca foi dono duma carteira que registrasse o seu salário, que lhe servisse para uma futura aposentadoria. Correto, nunca discutia o valor do seu suor: trabalhava, recebia, logo gastava tudo, e, ponto final. Nunca meteu ação trabalhista contra os patrões que tivera. Tudo o que tinham cabia em duas trouxas, que cada um carregava. Quando estavam com o dinheiro na mão vinham à cidade e entravam no primeiro boteco que estivesse aberto. Seus bens ficavam atrás da porta. Um trago de canha, mortadela e bolachas, era o lugar comum na alimentação. A Lauterinha, (quem lembra?) era muito de xingar. Xingava por ela e pelo Robério. Às vezes, ela se dava ao desplante de escolher o serviço que ofereciam ao marido, quando se enquadrava a oportunidade duma changa na cidade. Ficava, a bem dizer, uma arara quando por molecagem ofereciam um serviço subalterno a ele. Quando isso ocorria, ele olhava ora para quem propunha o serviço, ora para ela, esperando um consentimento para a pegada que, diga-se, nunca era confirmada por tratar-se de pilhéria. A Lauterinha, invariavelmente, usava vestidos de chita com estampas berrantes. No cabelo, que nunca faltava a pastosidade de um óleo de mocotó, uma colinha feita com elástico. Sempre pintada. No rosto, um grosso empoado de ruge. Nos lábios finos, sem que lhes observasse a moldura, nunca faltava um batom vermelho, espalhafatoso, comprado na Loja do Pedro Fagundes onde se municiava com os vidrinhos de Amor Gaúcho, o extrato da sua preferência. À noite, se fosse uma Quarta-feira, o casal fazia uma escala no bar do Balaco antes de ir para o baile do Seu Euzébio, do outro lado da rua, de onde chegava o som da gaita do Dadinho e a a melodia da flautinha do Cabo Rosa. Dava gosto vê-los no peixe. No puteiro... Dá saudade lembrá-los!...
O Robério e a Lautéria... Não, melhor dizendo, nós a chamávamos de Lauterinha, e a ele Robério do Toríbio. Baixinhos os dois e ela bem mais baixinha que ele. Ainda não havia sido cunhada a expressão casal vinte e eles já preenchiam, à perfeição, o requisito da soma que consagrou o seriado televisivo do dez mais dez. O Robério usava um casquete do exército, atravessado na cabeça, quase tapando um dos olhos, sempre com um cigarro feito à mão, nos três-quartos da boca de grossos beiços, grandes e redondos, com o inferior já caído pelo peso do contínuo uso do pito. Em conjunção com a tez morena e cinzenta daquele crioulo mulato, a pele ressequida da Lauterinha, índia abugrada, ajudava na formação de uma das parelhas mais perfeitas do gênero humano. Quieto, o Roberinho não era de se invocar com ninguém: a bem dizer pouco se incomodava quando a gurizada implicava com o pitoresco casal que os dois formavam. Quando muito ele virava a cabeça para fitar os zombeteiros à sua volta. Nem quando o Elias e o Cabeça disputavam a Lauterinha nos bailes do Gravatá o Robério se incomodava. Chegava dançando, mas, em seguidinha, se emborrachava e se sentava num canto do salão. Só levantava a cabeça para fazer uma senha ao Censinho, misto de garção e porteiro, para que lhe trouxesse mais vermute com cachaça, às vezes um samba. Nunca, que se tivesse conhecimento, tiveram uma moradia fixa, só deles. Viviam, sempre nas bolantas, nos ranchos de leiva e santá-fé ou num canto qualquer de galpão de granja ou estância. Ele, Inseparável da canha, trabalhava em lides campeiras onde tivesse um serviço changueiro, nunca foi dono duma carteira que registrasse o seu salário, que lhe servisse para uma futura aposentadoria. Correto, nunca discutia o valor do seu suor: trabalhava, recebia, logo gastava tudo, e, ponto final. Nunca meteu ação trabalhista contra os patrões que tivera. Tudo o que tinham cabia em duas trouxas, que cada um carregava. Quando estavam com o dinheiro na mão vinham à cidade e entravam no primeiro boteco que estivesse aberto. Seus bens ficavam atrás da porta. Um trago de canha, mortadela e bolachas, era o lugar comum na alimentação. A Lauterinha, (quem lembra?) era muito de xingar. Xingava por ela e pelo Robério. Às vezes, ela se dava ao desplante de escolher o serviço que ofereciam ao marido, quando se enquadrava a oportunidade duma changa na cidade. Ficava, a bem dizer, uma arara quando por molecagem ofereciam um serviço subalterno a ele. Quando isso ocorria, ele olhava ora para quem propunha o serviço, ora para ela, esperando um consentimento para a pegada que, diga-se, nunca era confirmada por tratar-se de pilhéria. A Lauterinha, invariavelmente, usava vestidos de chita com estampas berrantes. No cabelo, que nunca faltava a pastosidade de um óleo de mocotó, uma colinha feita com elástico. Sempre pintada. No rosto, um grosso empoado de ruge. Nos lábios finos, sem que lhes observasse a moldura, nunca faltava um batom vermelho, espalhafatoso, comprado na Loja do Pedro Fagundes onde se municiava com os vidrinhos de Amor Gaúcho, o extrato da sua preferência. À noite, se fosse uma Quarta-feira, o casal fazia uma escala no bar do Balaco antes de ir para o baile do Seu Euzébio, do outro lado da rua, de onde chegava o som da gaita do Dadinho e a a melodia da flautinha do Cabo Rosa. Dava gosto vê-los no peixe. No puteiro... Dá saudade lembrá-los!...
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
A Caçada
Jorginho Menaides. Negrinho esperto, cheio de boas amizades, nunca lhe falta companhia. Seja para uma caçada de marrecão, ou uma pescaria, ele, sempre disposto, está a postos para fazer um carreteiro. É a sua especialidade, por maior que seja o panelão. Com ele, sem desprezar o Anacleto, o Ni, ou o Tuíca, é tiro e queda e o arroz se apronta sempre soltinho e delicioso. A despeito de todas estas habilidades, tem ele uma incumbência honrosa e perpétua para toda e qualquer farra que os amigos inventam: juntar as percantas para coroar as memoráveis cafajestadas que, diga-se de passagem, com o Jorginho nunca há falhas. É barrerão. É sempre companheiro. Mas, vai daí, um dia, já nos finalmentes em que os apetrechos para uma caçada ao marrecão estavam sendo checados, o Avelino, de última hora, naquele átimo fatal do e lá se vamos, lembrou que faltava, na enorme lista de apetrechos, riscar a palavra vaselina, substância imprescindível em toda e qualquer boa farra. Para fechar a lista, foram, então, até à farmácia da Olga onde o Jorginho, com uns pilas na mão desceu para comprá-la. Os amigos, esperando, olhavam a conversa dele com as meninas do balcão fazendo o pedido quando, lá de dentro, ele se vira para a porta da rua e grita: “ -E aí, guris, é sólida ou em líquido?” Primeriando a resposta, o Mano Dora, o mais moleque da turma, no mesmo tom, para que as gurias ouvissem, também grita: “Não sei, negão, o fiofó é teu..., te vira..., tamo fora...!!!
Jorginho Menaides. Negrinho esperto, cheio de boas amizades, nunca lhe falta companhia. Seja para uma caçada de marrecão, ou uma pescaria, ele, sempre disposto, está a postos para fazer um carreteiro. É a sua especialidade, por maior que seja o panelão. Com ele, sem desprezar o Anacleto, o Ni, ou o Tuíca, é tiro e queda e o arroz se apronta sempre soltinho e delicioso. A despeito de todas estas habilidades, tem ele uma incumbência honrosa e perpétua para toda e qualquer farra que os amigos inventam: juntar as percantas para coroar as memoráveis cafajestadas que, diga-se de passagem, com o Jorginho nunca há falhas. É barrerão. É sempre companheiro. Mas, vai daí, um dia, já nos finalmentes em que os apetrechos para uma caçada ao marrecão estavam sendo checados, o Avelino, de última hora, naquele átimo fatal do e lá se vamos, lembrou que faltava, na enorme lista de apetrechos, riscar a palavra vaselina, substância imprescindível em toda e qualquer boa farra. Para fechar a lista, foram, então, até à farmácia da Olga onde o Jorginho, com uns pilas na mão desceu para comprá-la. Os amigos, esperando, olhavam a conversa dele com as meninas do balcão fazendo o pedido quando, lá de dentro, ele se vira para a porta da rua e grita: “ -E aí, guris, é sólida ou em líquido?” Primeriando a resposta, o Mano Dora, o mais moleque da turma, no mesmo tom, para que as gurias ouvissem, também grita: “Não sei, negão, o fiofó é teu..., te vira..., tamo fora...!!!
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Copas
Para o João Antônio Garcia
- É? Foi desta forma que ele manifestou a sua admiração pelo que ouvia. Custou-lhe muito, com seus dez anos, depois da curiosa explicação, acreditar que na Copa de 1958, nós só vimos o tape ou o replay, seja lá como era chamada a visão documentada daquela jornada esportiva em filme cinematográfico vários meses depois. Verdade, sim. A copa, com a nossa vitória, foi num finzinho de junho daquele ano e nós só fomos ver as jogadas espetaculares do Pelé, do Garrincha, da formiguinha de nome Zagallo, no mês de outubro, três, quatro meses depois da primeira conquista que se deu em solo sueco. Vivíamos a era do rádio, com transmissões precárias, ainda, cheias de ruídos e nos sentíamos felizes pelo privilégio que nos ofertava a tecnologia. Não tínhamos senão o cinema para nos mostrar os lances e jogadas que surpreendiam o mundo quando a bola estava nos pés dos melhores jogadores do mundo. Estávamos, e não sabíamos, nós os ouvintes da radiofonia, aspirando a propriedade dum esporte que viera da Inglaterra cheia de estrangeirismos e que atendia pelo nome de foot- ball. Começávamos a ser donos (embora o Uruguai e a Argentina também quisessem ser) duma modalidade esportiva que emociona hoje esse universo de países praticantes. Foi a partir daquela copa que o linguajar em inglês começou a perder espaço para a moderna nomenclatura do futebol de hoje. Já na nossa segunda conquista, a do Chile, não dizíamos mais a palavra center half, os half direito e esquerdo, o goal keeper, o center forward, e outros nomes denominadores das posições táticas. Assim, raferee já era chamado de árbitro, penalty de penalidade máxima, corner de escanteio, team para time e para os off sides o impedimento. “- É..., deve dar saudade, vô... Acho que vocês eram mais felizes..., comentou.”. Não deu tempo para falarmos do passado da seleção canarinho. O menino, parecendo gente grande, começou a divagar: “- Em compensação – lascou - não existia, como hoje, a Nike com aquele afrontoso bumerangue que as câmeras vivem focando, nem listras da Adidas ou o elástico felino representado no logotipo da Puma...”. Eram tempos difíceis, reconheçamos, mas, certamente, o Feola, o Paulo de Carvalho, os Moreira, escalando a seleção, diferentemente de hoje, em completa liberdade, com os corações esparramados, juntavam onze para ganhar as partidas... Na raça. E sempre. Ainda, nos rádios à válvula, fosse o Cozzi, o Cândido Norberto ou o Ari Barroso, transmitindo os lances que não víamos, também nos poupava das marcas estampadas nos uniformes, nas chuteiras, ou nos out-doors que hoje tiranizam e submetem nossos técnicos e nossos cartolas. Valeu tua observação, Martín. É isso aí.
Para o João Antônio Garcia
- É? Foi desta forma que ele manifestou a sua admiração pelo que ouvia. Custou-lhe muito, com seus dez anos, depois da curiosa explicação, acreditar que na Copa de 1958, nós só vimos o tape ou o replay, seja lá como era chamada a visão documentada daquela jornada esportiva em filme cinematográfico vários meses depois. Verdade, sim. A copa, com a nossa vitória, foi num finzinho de junho daquele ano e nós só fomos ver as jogadas espetaculares do Pelé, do Garrincha, da formiguinha de nome Zagallo, no mês de outubro, três, quatro meses depois da primeira conquista que se deu em solo sueco. Vivíamos a era do rádio, com transmissões precárias, ainda, cheias de ruídos e nos sentíamos felizes pelo privilégio que nos ofertava a tecnologia. Não tínhamos senão o cinema para nos mostrar os lances e jogadas que surpreendiam o mundo quando a bola estava nos pés dos melhores jogadores do mundo. Estávamos, e não sabíamos, nós os ouvintes da radiofonia, aspirando a propriedade dum esporte que viera da Inglaterra cheia de estrangeirismos e que atendia pelo nome de foot- ball. Começávamos a ser donos (embora o Uruguai e a Argentina também quisessem ser) duma modalidade esportiva que emociona hoje esse universo de países praticantes. Foi a partir daquela copa que o linguajar em inglês começou a perder espaço para a moderna nomenclatura do futebol de hoje. Já na nossa segunda conquista, a do Chile, não dizíamos mais a palavra center half, os half direito e esquerdo, o goal keeper, o center forward, e outros nomes denominadores das posições táticas. Assim, raferee já era chamado de árbitro, penalty de penalidade máxima, corner de escanteio, team para time e para os off sides o impedimento. “- É..., deve dar saudade, vô... Acho que vocês eram mais felizes..., comentou.”. Não deu tempo para falarmos do passado da seleção canarinho. O menino, parecendo gente grande, começou a divagar: “- Em compensação – lascou - não existia, como hoje, a Nike com aquele afrontoso bumerangue que as câmeras vivem focando, nem listras da Adidas ou o elástico felino representado no logotipo da Puma...”. Eram tempos difíceis, reconheçamos, mas, certamente, o Feola, o Paulo de Carvalho, os Moreira, escalando a seleção, diferentemente de hoje, em completa liberdade, com os corações esparramados, juntavam onze para ganhar as partidas... Na raça. E sempre. Ainda, nos rádios à válvula, fosse o Cozzi, o Cândido Norberto ou o Ari Barroso, transmitindo os lances que não víamos, também nos poupava das marcas estampadas nos uniformes, nas chuteiras, ou nos out-doors que hoje tiranizam e submetem nossos técnicos e nossos cartolas. Valeu tua observação, Martín. É isso aí.
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