O Doutor Lauro Medeiros de Albuquerque, advogado, professor, criador, pessoa de proeminência na cidade, era um apaixonado por história e por latim. Dava gosto ouvi-lo quando o tema em aula era a Guerra do Paraguai. Só ele se referia à Batalha de Tuiuti, a mais sangrenta de todas, com tanta vibração, com tanto enlevo nos gestos. Osório, o vencedor de Tuiuti; Caxias, o comandante vencedor das forças brasileiras, em Itororó, Avaí, Lomas Valentinas e Angostura. Vibrava quando se referia aos Voluntários da Pátria, à armada brasileira, às famosas retiradas, aos ataques majestosos do exército imperial. Tudo, na voz desse saudoso professor, mexia com o nosso ufanismo. Só ele esparramava latim com tanta propriedade. A nossa atenção às suas explanações sempre valiam boas notas, muito mais que as sabatinas. Como causídico, também brilhava com seu latim pelos plenários de Júri. Num deles, no Herval, em que abraçava uma tese de legítima defesa, o Doutor Lauro exaltava, em latim, um episódio sobre Assis Brasil, tido em seu tempo como um exímio atirador de arma de fogo: Atacado em campo aberto por um touro, errava os disparos contra o animal. – E olhem que era o Assis Brasil – repetia o orador... O plenário silencioso escutava atento. Atuava na parte contrária o Doutor Cândido Norberto que, em dado momento, lá pelo quinto tiro errado, não se conteve e lascou a pleno pulmão: - Eh! Touro de sorte!... Assim era. Vagam pela nossa lembrança, ainda com o mesmo vigor daqueles tempos ginasianos, as expressões latinas que ele tinha paixão em apresentar com as prontas traduções. Brocardos que ele cultivava, além das suas lides forenses, nas aulas de história, no encontro com amigos. Aforismos que brotavam com naturalidade, com exagero, até. In illo tempore, dizia, quando se referia ao passado. Se alguém o cumprimentasse, quando a caminho do Foro, lá vinha latim: Hoc opus, hic labor est. Frente às situações ou provocação entre estadistas, nas notícias de jornal, nascia um abyssus abyssum invocat... Contava o poeta Lauro Machado, que estando um dia o seu cunhado Mário à porta de casa, ao sol, cumprindo a tarefa de colocar remédio no nariz do Paulinho Carriconde, à época um menino de cinco anos, foi surpreendido pelo cumprimento do Doutor Lauro, que por ali passava: - Bonus pater familiae, que fazes? O Doutor Mário, sem largar o queixo do filho, espremendo o conta-gotas, calmamente respondeu, em bom latim: - Butare remedius nauseans infantibus. Só para argumentar...Quem sou eu
Al Di Lá
Você se lembra do filme Candelabro Italiano?
quinta-feira, 26 de junho de 2008
O latinista (Ad argumentandum tantum)
O Doutor Lauro Medeiros de Albuquerque, advogado, professor, criador, pessoa de proeminência na cidade, era um apaixonado por história e por latim. Dava gosto ouvi-lo quando o tema em aula era a Guerra do Paraguai. Só ele se referia à Batalha de Tuiuti, a mais sangrenta de todas, com tanta vibração, com tanto enlevo nos gestos. Osório, o vencedor de Tuiuti; Caxias, o comandante vencedor das forças brasileiras, em Itororó, Avaí, Lomas Valentinas e Angostura. Vibrava quando se referia aos Voluntários da Pátria, à armada brasileira, às famosas retiradas, aos ataques majestosos do exército imperial. Tudo, na voz desse saudoso professor, mexia com o nosso ufanismo. Só ele esparramava latim com tanta propriedade. A nossa atenção às suas explanações sempre valiam boas notas, muito mais que as sabatinas. Como causídico, também brilhava com seu latim pelos plenários de Júri. Num deles, no Herval, em que abraçava uma tese de legítima defesa, o Doutor Lauro exaltava, em latim, um episódio sobre Assis Brasil, tido em seu tempo como um exímio atirador de arma de fogo: Atacado em campo aberto por um touro, errava os disparos contra o animal. – E olhem que era o Assis Brasil – repetia o orador... O plenário silencioso escutava atento. Atuava na parte contrária o Doutor Cândido Norberto que, em dado momento, lá pelo quinto tiro errado, não se conteve e lascou a pleno pulmão: - Eh! Touro de sorte!... Assim era. Vagam pela nossa lembrança, ainda com o mesmo vigor daqueles tempos ginasianos, as expressões latinas que ele tinha paixão em apresentar com as prontas traduções. Brocardos que ele cultivava, além das suas lides forenses, nas aulas de história, no encontro com amigos. Aforismos que brotavam com naturalidade, com exagero, até. In illo tempore, dizia, quando se referia ao passado. Se alguém o cumprimentasse, quando a caminho do Foro, lá vinha latim: Hoc opus, hic labor est. Frente às situações ou provocação entre estadistas, nas notícias de jornal, nascia um abyssus abyssum invocat... Contava o poeta Lauro Machado, que estando um dia o seu cunhado Mário à porta de casa, ao sol, cumprindo a tarefa de colocar remédio no nariz do Paulinho Carriconde, à época um menino de cinco anos, foi surpreendido pelo cumprimento do Doutor Lauro, que por ali passava: - Bonus pater familiae, que fazes? O Doutor Mário, sem largar o queixo do filho, espremendo o conta-gotas, calmamente respondeu, em bom latim: - Butare remedius nauseans infantibus. Só para argumentar...O Mediador
O desfecho da briga do Otacílio da Currucha com o Cabeça, na década de cinqüenta, serviu de mote para terminar outra encrenca que aconteceu, muitos anos mais tarde, entre contendores diferentes. O motivo desta desavença foi um comodato de terreno entre o Velho Pereira e a Dona Joana, mãe do Ataíde Pipoqueiro. Quando ela ficou velhinha o filho pipoqueiro resolveu por em dia os teres e haveres da mãe. E, dentre eles, havia uma nesga de terreno que ela cedera ao Seu Pereira, para que o caminhão deste pudesse manobrar melhor ao entrar na garagem. Ora, o Velho, já não tendo mais o caminhão, acreditava que o terreno, que nunca tivera cerca, pela perda da serventia, também estivesse fora de sua posse, sem necessidade de entrega solene. O outro, preocupado com o patrimônio da mãe, acreditava que o Velho ia ficar de dono do terreno. E foi assim, num clima de animosidade por parte do Ataíde, que ele procurou o Velho para por em dia a questão. Com conversa daqui, conversa dali, num rodeio verbal já indo longe, o Ataíde enfim entra no assunto que o Castelhano Pereira já esperava. Não terminou de falar e começou a xingação em portunhol, e dali foi tudo rapidinho para as vias de fato. Depois de dar uns quantos tapas no Ataíde, o Velho se enfureceu e passou a atacá-lo com pedaços de tijolos que havia no aterro da rua. Com um último tijolaço no peito e todo lanhado no rosto o Ataíde Pipoqueiro acabou indo para o plantão da Santa Casa. E foi lá que o Tité, sabedor da briga do pai e preocupado com a confusão que redundaria em processo, foi levar seus cuidados e apoio ao infeliz pipoqueiro. Prontificou-se a acertar despesas com curativo e analgésico tudo para ver se dourava a pílula. Mais, queria levar o ferido para casa poupando-o de uma dolorida caminhada. Desculpava-se pela ação errada que o pai praticara, e, sobretudo, enaltecendo a harmonia que sempre existiu entre vizinhos, aplicou um golpe de misericórdia no Ataíde: Agradecia-o por ele não ter sovado o Pereira, que já era um velho e coisa e tal. Resultado, dando uma bomba dessas no Ataíde, a coisa morreu por ali, sem inquérito, sem polícia, numa boa... Tio Julio
Tio Júlio, ou Vô Júlio, como o chamava. Na verdade era um tio-avô. Da sua figura o que mais lembro eram os óculos parecidos com os que imortalizaram a figura do John Lennon: lentes redondas e com um aro fininho. Ah! Não esqueci também o permanente uso de colete. Num bolso ele trazia o relógio com a corrente de ouro, presa na casa do botão e, no outro, a faquinha para picar o fumo crioulo. E dá-lhe palheiro! Até hoje, ao lembrar a sua figura bonachona, meus sentidos parecem entrar em contato com o agradável cheiro daquela fumaça e o aroma daquele pito. Era criador e, como paixão maior, gostava de lidar com Frutos do País, como eram chamados os couros e pelegos que ele saía a comprar pelo interior do município. Tinha como ajudante o Cirilo, um dos filhos solteiros que estava sempre à sua volta. Certa feita, quando o Seu Amaro Caetano, também comprador de couros e pelegos, comprou um Modelo A, da Ford, para substituir a carroça, o Vô Júlio observou ao Cirilo, apontando o cano da descarga do automóvel: - Vês, Cirilo, aquela fumacinha? Pois ali vai todo o dinheirinho dele! Mas, uma semana depois da observação, quando pai e filho puseram o faeton na estrada para comprar couros sentiram a dura realidade dos tempos: O Seu Amaro, no guarda-louça, já tinha comprado primeiro tudo que era pelego e couro da campanha, numa passadinha, já que agilizara o modo de negociar. Não deu outra. Foi de imediato que o Vô Júlio mandou o Cirilo para a cidade, com dinheiro no bolso e uma recomendação: - E não volta sem me trazer um automóvel do ano, e faeton, para a gente driblar a concorrência. Comprado o carro os negócios prosperaram, por anos a fio. O Cirilo foi o seu motorista, também, quando adquiriu um moderno caminhão da marca Fargo para continuar envolvido nos negócios de Barraca, como ele dizia. Lembro o dia em que o Cirilo, já madurão de idade, casou. A Cerimônia foi na Igreja. Na hora H chegaram para o casamento os dois, pai e filho, acompanhados do Tio Olívio. Desceram a calçada da Praça e o Vô Júlio, manheiro, ainda deu uma fumada no puxo de palha, antes de amassá-lo na areia da rua. Atravessaram na diagonal e subiram, proseando, os degraus da Igreja. Quando entraram, ai Minina! O Vô Júlio, cara-a-cara com aquela imensidão do templo, admirado, olhando a nave arredondada, lá em cima, não se segurou: Mas, Olívio, que Barraca bem linda dava isso aqui! O que ia caber de couro e pelego... Já viste, tchê?quinta-feira, 19 de junho de 2008
CAFÉ CAPRI
Anos sessenta. Estávamos reunidos numa mesa ao canto, com o janelão à nossa frente, numa roda de cafezinhos e martelos. À espera, claro, dos bolinhos de carne da Maria da Currucha que o Dé trazia, costumeiramente, ainda bem quentinhos, aos fins da tarde. No balcão não estava nem o Tritri, nem o Aldi para atender-nos. Apenas o proprietário, o Seu Ciro, a olhar para a nossa mesa com um olhar perdido. Nada falava, nem nada perguntava. Nós, também em flirt, nada solicitávamos embora precisássemos de um pequeno abastecimento de água ardente. Foi quando surgiu uma idéia: Vamos fazer um requerimento pedindo mais outro martelinho? E, nele, dando ao Seu Ciro um largo tempo para nos servir? Dito. Feito. Com o escritório bem pertinho do Café, em minutos o documento foi elaborado e protocolado no balcão: Ilmo. Sr. Ciro.... Nós (Sérgio Canhada, Marta Rocha, Renato Müller, e Outros), vimos pelo presente, respeitosamente, perante Vossa Senhoria, requerer, dentro das próximas quarenta e oito horas, se não for incômodo, seja trazido até nossa mesa mais um martelinho. Pedem atendimento, Arroio Grande, etc... À medida que lia o velho foi perdendo a cor e, brabo, deixando o papel em cima do balcão, saiu para os fundos do salão. Para a nossa cabeça estava a porqueira feita... Voltaria armado para uma briga? Era esperar para ver no que daria a picardia. Minutos depois, quando voltou, para a nossa surpresa, trazia um copinho que encheu com a branquinha. Depois, vindo em direção à nossa mesa, antes de colocar o martelinho sobre ela - e olhando, justamente para mim -, lascou: Isso só pode ser coisa tua!... Mais outra doma ali no Café?... Bem, aquela tinha passado! Mas, aconteceram outras passagens, inúmeras... Como a da noite em que tinha baile no Doca e o Aldi estava de atendente. O Macksoud, sabendo que o Arnaldo se dirigia para o Café, sem um tostão no bolso, avisou-nos - os mesmos de sempre -, da molecagem: atara numa nota de dinheiro, à época de importância considerável, um fio de náilon, quase invisível de fininho. Abrira uma fresta nas portas internas do balcão que tinha vidro na sua frente e, dali, observaria a nota de dinheiro no chão de jeito a pescá-la antes de ser agarrada e acabar em prejuízo a brincadeira. Não deu outra. O Pila chega, avista a nota no chão, espertamente segura no osso do peito, e pede um cafezinho. Em seguida, disfarçando ajeitar a meia, faz a primeira tentativa. Dali donde fresteava o desfecho o sacana, vendo a mão do outro aproximar-se da nota, dá uma puxadinha no fio e coloca-a mais para baixo do balcão. Mais um trago no cafezinho e o Pila dá a segunda investida: Disfarça para arrumar a outra meia e passa a mão no chão. De novo, não vem com nada... O bandido, lá do outro lado do balcão, tinha dado mais um puxãozinho para dificultar a manobra. Resultado: Não demorou muito e o coitado, noutra tentativa desesperada, tendo perdido toda a noção do ridículo, estava, de terno e gravata, como viera vestido, deitado no chão, agora, com todo o braço embaixo do balcão, procurando a nota que salvaria o seu baile no Doca. Não lembro quem não agüentou, e riu. Mas, não esqueci a cena. Ofendido, o Arnaldo foi para a porta do Café. De lá, brabo, numa sujeira lamentável, bradava: Aqui não tem homem... Se tiver que saia que ele vai aprender a não fazer gracinhas... Filhos disto, filhos daquilo, e mais uma centena de frases impublicáveis. Saiu alguém? Não saiu ninguém. Que ninguém era bobo, mesmo. Éramos só moleques e tínhamos acertado outra.MEUS TIPOS (Yo quisiera...)

O Gilberto Alves foi a pessoa mais alegre e brincalhona que conheci. Foi funileiro e latoeiro naqueles tempos em que o plástico ainda não tinha invadido nossas vidas. Canecas, bacias, calhas e uma série de objetos, que hoje encontramos em matéria plástica nas prateleiras das lojas, saíam de suas mãos, em folha de flandres ou zinco, com um perfeccionismo impressionante. O Gilberto era mais conhecido pelo seu apelido de Picão. Sempre tinha uma história engraçada para contar e quando a iniciava, já rindo, preparava a gente para o seu desfecho hilário. Mesmo quando um causo merecia seriedade ele inseria, sério evidentemente, aquela graça que cativava os ouvintes. Figuraça. Nas suas histórias, quando os olhinhos brilhavam, podíamos esperar que vinha chumbo, e do grosso... Foi um dos melhores amigos do Papaco Velho. Juntos aprontaram à vontade e cultivaram a irreverência por esta terra do Irineuzinho. Desses dois, uma das simploriedades que mais apreciávamos era um ajudando o outro a relembrar as comemorações pelo fim da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente o discurso do Seu Miguel Aliodes. Contava o Picão que quando noticiaram a Paz, o povo foi para as ruas fazer o carnaval de sempre. Justo nesse dia, o 14 de agosto, o Prefeito Mário Correa inaugurava um gerador a diesel na Usina. E foi depois de cortar a fita que o povo se manifestou, num púlpito colocado na esquina sextavada do prédio. O Seu Miguel, que era desembaraçado para qualquer coisa, pediu a palavra e lascou um discurso: Quando Mussussolini (o Duce) invadiu a Missisalbânia (Abissínia), em el año de mil ciento e siete... Nesta altura da louvação havia a intervenção do Papaco para dizer que, fazendo as contas direitinho, havia um erro de data de oitocentos e tantos anos. Mas, o discurso inflamado prosseguia: Em esta hora, em esta hora, yo quisiera ser la gran cachorra de la Inglaterra para pisotear los alemanes y para dar uma mordida no calcanhar del Japon... E se entusiasmava o Seu Miguel exibindo a sua careca: Yo quisiera... Yo quisiera... Do jeito que discursava ele deixou a bola quicando, quicando. Quando repetiu Yo quisiera... pela terceira vez, lá do fundão, sabe? O castelhano Espanton, entrando de gaiato completou: Uma peruca postiça... E detonou o célebre discurso que ficou gravado, até então, na oralidade, como uma das mais bonitas peças do nosso anedotário.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
Meus Tipos
O Rosalvo Pitanga, negro retinto, como o apodo explica, prestou serviços, por muitos anos, na Wilson & Sons, multinacional inglesa que operava com Barraca em nossa cidade (para os mais novos, as atividades destas barracas consistiam em comprar couros vacuns, pelegos e lã de ovinos denominados de frutos do País). Rosalvo, após desligamento do emprego, ganhou de presente dos ex-colegas uma carroça bem pintadinha, com os letreiros de “Faço Frete”, nas laterais, com a qual se iniciou no ramo de fretes. Assim, passou a ganhar seu sustento, e mais o da sua prole, ali mesmo, defronte à casa que lhe empregara por longos anos, onde faria fretes para a casa de materiais de construção do Andres, que ficava, à época, a bem dizer, porta com porta. Corriam os dias... Diariamente, o Rosalvo estacionava seu veículo na calçada e ali ficava, sempre vigilante, lagarteando ao sol, à espera dos fretes. Certa vez, manhã linda de sol, com a carroça, por um motivo desconhecido estacionada um pouco adiante, à porta da garagem do Jorge Soares, acabou vítima de uma molecagem que ilustra o anedotário da cidade: O Rosalvo Pitanga, encostado na janela da barraca, observava seu veículo. Petiça atrelada, com os corriames ainda em forma, e as letras que anunciavam a sua atividade. Distraído, apreciava o presente ganho e matutava sobre o futuro... Sorria, mostrando a quantidade imensa de dentes que - como dizia o Seu Venâncio - Deus lhe dera por natureza. Foi, assim, que o Jorge, vendo que ele estava meio longe, saiu à porta, quase de costas para ele, como se ninguém estivesse na calçada e se chegou para perto da carroça. Com a mão na testa, como se o sol o atrapalhasse, e simulando dificuldade em ler o que estava escrito na lateral do veículo, soletrou, em voz alta, para que fosse ouvido pelo Pitanga: “Es-ta-ca-rro-ça-é-de-um-vi-a-do. Dito, sem se virar para o lado onde estava o Rosalvo, entrou para sua garagem. Entrou e ficou esperando o efeito da frase que soletrara. Não deu outra. Foi prá já e o Rosalvo, de fininho, subiu na carroça e deitou o cabelo em direção à oficina do Adão Bidiva. Sumiu por coisa de meia hora. Na volta estacionou a carroça no mesmo lugar. Mas, agora, com os letreiros todos borrados e apagados com tinta preta: O Rosalvo Pitanga, por não saber ler, tinha embarcado na gozação do Jorge e tirado o letreiro que, supunha, dizia muito mal do seu estado de feliz carroceiro!!!A Visita
Figueirinha, manhã bonita. O cordeiro mamão recém carneado esfriava enganchado na trave do galpão. O Velho Lauro fazia uma enorme fogueira de branquilho à espera da carne e o Nitinho, o aniversariante, falquejava uns espetos de pitangueira. Tinham combinado um churrasco e a canha já rolava a bom pedaço. Nisso, numa falha do valo de árvores da beira da estrada, deu pra avistar o Irani, conhecido deles e morador lá do Quilombo, montado no rosilho magro. Chegaria, como sempre, para matar a bóia. Acostumado no expediente, ele era useiro e vezeiro em dar uma passada na casa dos vizinhos, ou conhecidos, da beira da estrada, perto da hora de almoço. Então, quando tinha milharal na vizinhança, disfarçadamente, ele metia o matungo numa lavoura alheia e se chegava com as garras nas costas, com a desculpa de que o animal ficara pastando no corredor. Nesse dia, os amigos, que broma! Olharam-se no maior desânimo do mundo pela inusitada visita. O Irani, faceiro por ter enxergado fumaça, e a cachorrada brigando por uns bofes perto da mangueira, se chegava para a sombra da figueira onde se pendurava o charque. Desceria do cavalo e afrouxaria o basto, devagarinho, sem muita pressa... O Velho, amuado com a visita, não pensou duas vezes e arriscou um plano: recepcionou o Irani com dois latões de querosene, daqueles de vinte litros, dizendo: Que bom! Foi Deus quem te mandou, cara! Vamos matar a porca – e deu uma olhada em direção ao chiqueiro -, estamos precisando de ajutório... E saiu com as latas à espera do resultado. O Irani, paralisado, olhando para o chiqueiro, para a enorme porca, que não caminhava de tão gorda, pegou o peão na unha e emendou uma saída honrosa: Tchê! Cheguei só pra dar um cumprimento e apertar a cincha, tenho de chegar à cidade antes do meio-dia... O Lauro, no açudezinho, fazendo que enchia as latas de água, por cima do ombro apreciava a cena... O Irani nem chegou a ver o Nitinho e já estava na estrada... Com o rosilhinho a trote frouxo, de certeza certa, foi matar a bóia logo ali, no primeiro conhecido que tivesse milharal por perto. Eta, Figueirinha!Os Macacos
Apelidos. Aqui, onde existe uma grande diversidade da fauna com ratos, gralhas, galos - vários deles suficientemente repetidos -, temos muitos macacos: o louco, o gordo, o pedreiro, o rabão e outros... Pois, para supremo gozo da molecada, o Seu Alvim tinha dois apelidos: Um da fauna e outro da tecnologia da época: Macaco e Caminhão. E nós, que, seguramente, não o poupávamos, temos muitas histórias na lembrança. Uma delas:Domingo. Fim de uma invernada braba, tapete verde completamente encharcado, no campo de futebol do Esporte Clube Arroio Grande. O Seu Belinho Hernandez, debruçado na cerca do campo, olhando uma partida do seu time, que enfrentava um adversário castelhano daqui da Coxilha, vendo que o Alvim Caminhão se aproximava devagarzinho, como era costume, cumprimenta-o muito respeitoso. Ato contínuo, com o humor, olhando para o chão, avaliando aquele imenso lodaçal, aquele barreiro de dar medo em galochas, lascou: - tu deves ter chegado aqui com muita facilidade, Alvim... Prestou atenção para uma jogada em que o Tritri atrasou a bola para o Jamel, e completou: Foi só colocar umas correntes nas rodas e vieste no bem bom... Ao que o Alvim Caminhão, em enorme desamparo, se lamentou: - Pô! Até o senhor, Seu Belinho!
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Negro, com tez amulatada, vindo das bandas do Herval, o Alvim era maleiro na estação rodoviária e tinha como paradeiro uma pequena peça cedida no Hotel do Seu Chico Bonneau. O Alvim era baixo, gordo, com a testa achatada e os braços pendidos ao longo do corpo. Suas pernas tortas em ganchos, em tudo davam razão ao outro apelido, principalmente por seus olhinhos pequenos e redondos, muito juntos do nariz, no meio dum carão imenso. Sempre com as mãos torcendo pedaços de arame a envelopes de sonrisal jogados fora. Xingava meio mundo quando era chamado por apelido. Às vezes, com preguiça de soltar o verbo – por que não havia nenhuma mulher por perto, para ouvir as bandalheiras que saiam da sua boca - até deixava passar nossas brincadeiras quando buzinávamos a sua passagem. Mas, para nossa saudade - saudade mesmo -, se o chamássemos de Macaco Rabão, ele diminuía o passo e se postava virado para o rumo da zombaria, desfiando uma infindável coleção de bandalheiras... Minha Nossa! Valia a pena!
quarta-feira, 21 de maio de 2008
A Lixa
O Cidoca, a despeito de não saber ler nem escrever, tinha como recurso uma muito boa memória. Seguidamente ajudava o Jaime, seu cunhado, no armazém que este tinha na rua Dr. Dionísio. Neste mister, as latas de compotas, sardinhas, leite em pó e outros artigos, quando as prateleiras eram arrumados pelo Cidoca, corriam o risco de se apresentarem de pata para cima, posto não ter ele a mínima idéia de que as letras tinham uma determinada regra para serem lidas. Para ele o que bastava para conhecer o produto era o desenho da lata. E, neste particular, a figura de um pêssego, duma sardinha, ou de uma rodela de abacaxi, sempre estaria corretamente disposta em qualquer sentido que se apresentasse o que não deixava de ser lógico, em se tratando de estampas. E, no affair de caixeiro, quando se enquadrava de apontar os pedidos de livreta, ele usava o recurso da boa memória e ditava, para o Jaime, quando este voltava ao armazém, sem errar tin-tim por tin-tim, qual cliente e a mercadoria que deveria ser anotada. Vai daí, o Cidoca, além da memória, como atributo, era muito brincalhão e não era avaro em esparramar seus chistes no trato com as pessoas. Prova disso, um dia, a Dona Tetê, vizinha e freguesa da venda, aproveita a oportuna presença do seu afilhado Toquinho, que lhe acompanhava em casa, para que ele fosse até a venda do Jaime para trazer, na livreta, um rolo de papel higiênico - e que fosse correndo. Pede e se manda para o banheiro, dor de barriga, sei lá... O guri, bem mandado, chegando à venda, faz o pedido ao Cidoca, que no momento estava de balconista. Sem calcular a pressa do Toquinho, que viera em correria, o balconista improvisado enrola uma lixa de madeira, nº 100, e lhe alcança. Assim que botou a lixa na mão o Toquinho deita o cabelo de volta como viera, sem dar tempo ao Cidoca de desfazer a brincadeira que iniciara. Bem, o guri, chegando dentro de casa, com a encomenda, bateu na porta do banheiro e entregou o pedido para a madrinha... O resto da história conte o afilhado da Dona Tetê que está aí, são de lombo e foi o protagonista!A Rifa
O Dé foi garção, por anos, no Restaurante da Dona Maria Camerini. E, como havéra de ser, muitas vezes, incontáveis vezes abusávamos da sua ingenuidade. Mais, abusávamos da bondade dele. No entanto, diga-se, a bem da verdade, ele também se aproveitava da situação e tirava a sua casquinha. Constantemente, ora apresentando um Livro de Ouro, ora oferecendo uma rifa para ajudar o Clube Guarani, ou fosse promovendo um evento que exaltasse as mulatas - sempre lindíssimas -, ele chegava e dava a facada. Certa feita, hora de almoço no restaurante, ele já tinha vendido vários números de uma rifa e eu estava sentindo que chegava a minha vez de também marchar com um número, sem que me assaltasse uma idéia para fugir da situação. Lá pelas tantas, às escondidas do Dé, perguntei ao Zé Antônio Franco, que na oportunidade tinha a rifa na mão, fazendo seu palpite, se o treze já estava vendido. Estava. Avaliada a informação, antes que chegasse a minha vez de comprar, chamei a atenção do Dé para que ele reservasse o treze para mim, e esperei. Quando a rifa chegou às minhas mãos, enquanto dava a desculpa de que o único número que me servia já estava vendido, li o nome da compradora: Maria do C. Rosado - com o prenome abreviado -, pessoa a quem eu não tinha a mínima idéia de quem fosse. Vendo o nome, tão sugestivamente grifado, perguntei ao Dé, sacanamente, fazendo um gesto de rosquinha com o polegar e o indicador, quem era a compradora que tinha o cê rosado, que eu gostaria de conhecer. Lembro que fui levando na brincadeira e acabei não comprando nenhum número daquela rifa. Passaram-se os anos... um dia, prestando favor a uma amiga, busquei uma torta de amendoim na casa da Dona Carminha, que morava na esquina da Praça da Matriz. Foi bater na porta e ela, atendendo, olhou-me, surpresa, e lascou: u quê?! Ainda ti animas a pisar no meu portal? - Esqueceste aquela vez que o Dé veio chorando me contar aquela sem-vergonhice tua? -Eu, Dona Carminha?... E ela: - Sujera, no meio de um mundo de gente, lá no restaurante do Caixeiral, mexendo que eu tinha aquilo vermelho?! Ti manda daqui!... Maria do Carmo Rosado, Dona Carminha, número treze naquela rifa... (Depois me queixava que as coisas estouravam sempre em mim...).domingo, 27 de abril de 2008
Destinos
O Seu Alcidezinho foi famoso como relojoeiro na cidade. Sua primeira pergunta de cunho profissional ao cliente com o relógio emperrado tinha três partes: Este relógio caiu no assoalho, no chão duro ou na areia? Frente a qualquer das respostas vinha à luz, invariavelmente, sempre o mesmo diagnóstico: - Então, enredou o cabelo... E, assim, não havia surpresa nenhuma quando um gozador saía com uma sugestão de colocar um pouco de glostora, de óleo de mocotó ou da seiva fervida de babosa, para ver se a máquina desempacava. O relojoeiro ficava amuado, mas não repugnava o ministério se atirando com suas ferramentas ao conserto da máquina. Fuçando daqui e dali, fosse ou não fosse o cabelo, cada vez que um relógio botava para funcionar o cliente saía elogiando, cada vez mais aumentando a fama profissional do Seu Alcidezinho. Mas, deixa, que certa feita, a compostura de relógios andou por baixo e o nosso amigo teve que inventar um bico para sair da situação. Deu-lhe na telha, pois, de fazer baile de campanha. Tudo num belo salão de leiva que construiu para tal fim, lá no Passo do Simão, bem ali na entrada do Corredor da Dona Bibica, meio de esguelha com a venda do Telista. Num dos bailes, lá pelas tantas da madrugada, com o lampeãozinho Colemann afiadíssimo, como ele mesmo dizia, depois de um check up, e os pares levantando a poeira do chão batido, ele notou que uma rapaziada dali mesmo do Passo fazia algazarra em tom de deboche. Não deu outra. Irritado, pede para o Planchão parar a gaita de botão em que fazia dupla com o Bernardo ao violão. Pôs bem no centro do salão uma barrica de rapadura que ganhara na venda do Miguel Aliodes, subiu nela e começou um interminável discurso em que descascarreava os moços inconvenientes. Súbito, o Nenê do Abílio, de conversa com o Volmer, debochando do chazinho, deu uma gaitada, a todo pulmão, que ressoou pelo salão. Foi a deixa para que do discurso em que falava no benefício que o divertimento de um baile fazia aos pobres, o Seu Alcidezinho se enfurecesse soltando impropérios ainda hoje impublicáveis. Foi tamanha a virulência do discurso e os pulos que ele dava que a barrica acabou desfundando. Baixinho do jeito que ele era só ficara aparecendo seu corpo dos ombros para cima. Na ridícula posição em que foi parar, tendo as pernas e braços imobilizados, de dentro da barrica lançava aos circunstantes um olhar de súplica por socorro. Em sua ajuda uma boa alma teve a idéia de virar a barrica. Deu certo. Ele se safou rastejando, fazendo senha e gritando para os músicos: Dê-lhe uma valsa. Aquela do Pedro Raimundo... Depois, ante as perguntas que lhe faziam sobre o incidente do baile - cumprindo um destino inexorável - ele acomodava a resposta: - Aquele baile não foi nada disso. Ele tava que era um relógio, com o cabelo bem azeitadinho...Doutores
Determinadas expressões que foram corriqueiras num passado não muito distante, ditas hoje, decerto, nos causariam estranheza. Também determinadas palavras fazem parte deste rol de coisas fora de uso. Estão aí, por exemplo, fazer nome ou, mais propriamente, nome feio. Outra, fazer arte. Como se dizia, mesmo? Que guri arteiro... Isto sem se estender muito e ficar apenas nas expressões. E as palavras? Mambira, mascamba, boko moko... A primeira nos remete para os tempos em que nos desfiles de Sete de Setembro apareciam na cidade os nossos conterrâneos da campanha. Quem diz que a blusa daquela mulher combinava com o vestido? Aquele verde estranho misturado com um amarelo berrante, justamente defronte o Altar da Pátria... Como ela é mambira! E a calça de correr pinto em banhado que aquele lá está usando, que despautério... E aquele de botas e bombachas que desceu do ônibus? Como é esquisito. Como é mascamba! Como é boko moko o fulano usando aquela volta ao mundo cor-de-rosa (não existia a expressão pink para essa cor) com uma calça de tergal boca-de-sino... Tudo com direito ao espelhinho, ovaladinho com moldura de plástico verde musgo, e o pente da marca Flamengo no bolso transparente da camisa. Gasosa e espírito, então, estas chegam a doer. Era assim que nossos avós chamavam ao refrigerante, perdão, o refri e o álcool. E quando um guri se entonava? Lá vinha a taxação: Como tá doutor! Pois, certa ocasião, o Seu Donor, passando por uns probleminhas de reumatismo, procurou o consultório do Doutor Dionísio atrás duma poção, daquelas da Pharmácia Maciel. Esperando ser atendido ele, vigilante, cuidava a carroça que estacionara no fio da calçada. Justo quando o médico abriu a porta para atendê-lo o cavalo, embora maneado, inquieto, teve de ser cabresteado numa árvore do outro lado da rua, na calçada do Mojinho. De lá o Seu Donor voltou renegando com o animal, já quase entrando no consultório, dizendo: Que alimal que tá doutor... Foi o que bastou! Não chegou a consultar dada a reação do Doutor Dionísio: Olha, ô Donor, vai consultar então com o teu cavalo. E deus as costas...Redação
Naqueles idos dos anos cinqüenta, do século passado, a nossa Estação Rodoviária estava estabelecida na Avenida Visconde de Mauá. Na esquina onde, até pouco tempo, foi a Livraria da Gia. O concessionário era o Seu Hermógenes, avô do Plínio e o agente o Seu Chico Balbi, pai do Dilermando. Os ônibus tinham como itinerário, quando vinham de Pelotas, em direção a Jaguarão, a estrada que passa pelo Parque Guilhermino Dutra e dobravam numa estradinha que passava onde hoje está a Capela da Santa Casa. Daí, pela Dr. Monteiro até dobrarem na altura onde hoje se encontra a nossa primeira (e única) sinaleira. Uma das empresas se chamava Delgado e a outra a Frederes. A primeira, depois, foi trocada, se não me falha a memória, pela atual Rainha, à época com o nome de Princesa. A Frederes tinha umas limusines, uns baratões, as vans de hoje. A Rainha, de então, teve como motorista, e depois fiscal, o Seu Indalécio. Como eram raros os táxis, ou carros de praça, como eram chamados, havia vários maleiros. Também, não sei se eram poucos os táxis, ou se eram muitas as malas. Mas, para nós, guris, valia a pena ver o Seu Agapito com seu carrinho de mão, o João Barbela com a sua carrocinha e o Alvim Caminhão no muque, mesmo, carregando as bagagens. As partidas para Jaguarão tinham como saída a Rua da Igreja, descendo até a Sanga do Cilinho para alcançar a nossa velha Ponte (que os caminhões de grande calado estão destruindo). Caramba! Por que esta crônica se arrasta, assim, tão preguiçosa e tão parecida com aquelas composições de terceira série primária? Puro rodeio. Rodeio para contar que foi por essa época que a Onila (o nome é fictício, mas é muito parecido) inventou um tratamento médico na vizinha Jaguarão. Dia sim, dia não, lá estava ela, na porta da Estação, aflita, olhando em direção à sinaleira que ainda não existia, esperando o ônibus do Seu Indalécio, já fiscal, dobrar na esquina. Mais esperando o fiscal do que o veículo, diziam. E, se não há exagero na história, contam, um dia, a Onila, toda pintada, empoada, oxigenada e em cima dum sapato de salto dez, pronta para por o pé no estribo e entrar no ônibus, com a passagem na mão, em súplica sincera, pede: - Andalécio, por favor, me bota na frente... O motorista deste ônibus faz dias que me põe atrás eu já ando toda doída. Levou. Si non é vero...Meus Tipos
Diomésia. Tinha, também, o apelido de Biruta. Figurinha miúda, tronco magro, pernas cambotas e cabelos brancos à moda sura, com se fosse um menino. Nariz helênico, levemente apapagaiado. Olhos baços, cinzentos, a noticiarem que eles foram verdes na sua juventude. Na boca pequena nunca ninguém viu uma nesga de sorriso. Nunca ria. Parecia estar sempre de mal com a vida, embora seu olhar denunciasse o contrário. Nenhum adereço a enfeitar seu manequim. Nada nos cabelos, no pescoço, nos pulsos, nos dedos... Compartilhou um terreno com o Guanaco, como era chamado o Adeodato Velho, naquela esquina onde o Doutor Roquete veio a construir sua casa. Figura pitoresca que, para sua perambulação diária pelas ruas da cidade, usava vestidos de cor verde. Viveu sem ter sido jamais vista com outro tipo de roupa ou outra cor que não fosse essa. Usava uns sapatinhos maria-mole - pintados de verde - em combinação com o resto do figurino. Vivia de donativos. Em uma época que não havia indigentes, duas ou três casas de famílias abastadas supriam as suas necessidades. Raramente carregava alguma coisa nas mãos que não fosse a sua niqueleira. Só com a chegada da velhice foi que se apoiou em um pequeno cajado. Já então não saía mais de casa. A Diomésia era um dos passatempos da garotada. Inticávamos com ela que, braba, muitas vezes investia com pedras contra a zombaria. Os adultos também se aproveitavam para tirar uma casquinha quando a chamavam de Biruta e implicavam com a altura dela, com a cor das suas vestes, dizendo que estava parecida com uma caturrita. Davam-lhe namorados. O chiste não lhe agradava como não agradava nenhum dos consortes que sugeriam para lhe fazer par: Era o Maneca Louco, o Caminhão, o João Barbela, o Cotó... Aí, sim, ela entristecia. Ficava amuada, com um filete de ruga, de cada lado da boca, descendo pelo queixo cheio de fiozinhos brancos. Não lembro qual reação tomava quando contrariada pelos mais velhos, mas, seguramente, não lhe acudia a mesma fúria que usava contra nós, os moleques. Deixou-nos ainda na década de sessenta. Partiu vestida de verde, evidentemente.
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