Al Di Lá

Você se lembra do filme Candelabro Italiano?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Leão da Vila Foot-ball Club

No Princípio era o Verbo…? Não, não. Antes, eram os bailes do Celedino, pai da Carola e os da Dona Chiquinha, mãe do Julinho do Pedetê. Local dos bailes? Vila São Gabriel, à época em que ela só tinha um corredor que atualmente é a Rua Borges de Medeiros, bem mais alargada. O acesso se dava pela estrada do Porto, hoje engolida pela Avenida Maria Pereira das Neves. Sempre às tardes de domingo. Tinham, em ambos os bailes, lá pelo meio da tarde, as polcas da vassoura e a do verso. Naquela, o dono, com uma vassoura na mão, virada o cabo para baixo, batia-a no chão de terra batida do salão. Quando parava era a hora dos pares se trocarem. Admirável a ingenuidade dos moços de então (à vista dos de hoje éramos uns abombados)... Mesmo assim, já na chegada ao recinto, dávamos um jeito de ver onde estava colocada a vassoura. A partir daí cuidávamos o momento em que ela era buscada e nos posicionávamos perto das moças desejadas, e bem escolhidas previamente. O moço do par que se atrasasse levava a multa de não dançar as próximas três marcas. Tempo suficiente para roubar-lhe o par até o fim da brincadeira, sem dar chances (as feias que nos perdoassem, mas não iríamos nunca, nem mortos, juntar a fome com a necessidade de comer). Na outra modalidade de polca havia um outro tipo de castigo aos moços: faziam-se e refaziam-se os pares, e sempre restando um moço que deveria por multa dizer uma trova, a cada marca, para pegar, então, a moça que sobraria. Nesta troca, para dizer o versinho, procurávamos nos posicionar, também, perto da mais linda. Tudo muito bem decoradinho. Foi num destes bailes da Dona Chiquinha, com o piso já pedindo uma aguinha para baixar o pó entranhado nas narinas, com quase todos os pares consolidados, que o Tité, dançando já meio cansado da moça que escolhera, para poder dizer um verso debochado, inventou de sobrar. Num canto do salão o Alcides Furão, que nunca dançava, quieto, como era o seu jeito, a tudo assistia atentamente. Ele era presidente, tesoureiro, massagista, guarda-esporte e dono da sede do famoso time de futebol Leão da Vila, primeiro time de subúrbio da cidade (o técnico era o Julinho do Pedetê). Tinha o apelido de Furão, por conta de seu nariz adunco, o que deu mote para a glosa lascada pelo Tité: “Alecrim da beira d’água/não se cria de raiz/nunca vi moço bonito/com três palmos de nariz...”. Não prestou. A carapuça já existia há séculos e o Alcides não se fez de rogado. Vestiu-a. Num agarra daqui, agarra dali, terminou o baile e o baile ía em direção à casa do Castelhano Pereira, com a coisa osca para o lado do versejador. Foi com a turma do deixa disso agarrando o ofendido, que pedia briga, e numa saída parecida com a do Camerini tirando o band-aid que pusera na cara do Doca, que o Tité, também ainda agarrado, berrava sentenciando o Furão: Não jogo mais no teu time... Tu não sabes brincar... Não jogo mais no Leão da Vila!

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