Al Di Lá

Você se lembra do filme Candelabro Italiano?

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Aparências
Os dois pontinhos pretos no horizonte, via-se agora, eram dois cavaleiros que desciam a encosta para alcançar uma picada do Simão. Margeado o corguinho que se formava no campo quando havia enxurrada, aproximaram-se e desapareceram em meio à mata de tarumãs, coqueiros e guajuviras. Vencido o arroio ressurgiram alguns instantes depois, num devagar preguiçoso, para transpor a coxilha ao longe. A luminosidade do campo só perdia para o azul do céu. Mesmo fosse inverno fazia uma tarde maravilhosa. O dia parecia de primavera – com uma tepidez que convidava para abraçá-lo, bebê-lo, enlear-se... Com a proximidade da dupla dava para ver no primeiro gaúcho que cavalo e cavaleiro traziam um porte garboso. Dir-se-ia do primeiro que era o Senhor da Mancha no seu Rocinante - saltava aos olhos o que escrevera o cearense famoso quando definiu o gaúcho como o Centauro dos Pampas: fosse ele o rei da criação, seria o cavalo o seu trono... Montaria ele um cavalo de raça e estirpe talvez descendente do La Invernada Hornero, ou outro BT, abrindo caminho e primeriando à lida? Ao menos parecia... Já com o de atrás se agigantava a triste imagem do fiel escudeiro espanhol montando seu burro orelhudo se arrastando aos trancos, lerdo, jururu e dolentemente... Os dois juntaram o gado e encerraram-no na mangueira para a vacina. Terminada a lida soltaram os bichos quando o poente já se avermelhava com o sono do dia. Com o serviço terminado eles partiram pelo mesmo caminho que vieram. Lá na coxilha, imitando a bela, mas irritante e recorrente silhueta dos tuaregs e seus dromedários nas faldas das areias saarianas, a dupla seguia distanciando-se dos nossos olhos. Difícil acreditar, mas, definitivamente, naquela dupla os papéis estavam trocados... O Nenê, que vinha no cavalo indolente, a tranco, fora criado na lida do campo desde que se conhecera por gente. Mais: domador conhecido nesta zona da Figueirinha. Seu companheiro, e meu vizinho, o Júlio, embora soubesse montar bem, conheceu cavalo quando já era taludo. A nós as aparências não estavam enganando. Lá, Cervantes, quando escreveu sua obra de ficção criou dois tipos: um era o Ideal (Quixote) o outro o Real (Sancho). Cá, para nós, o do cavalo garboso – citadino - era o Ideal. O outro, - exímio cavaleiro - que simplesmente andava a cavalo, sem fleuma nenhuma, era o Real. Tal crônica está sendo feita ao ensejo das festas que se aproximam. Nestes tempos de festejos da epopeia farroupilha de “35”, em que desfilam altaneiros cerros e cerros de gaúchos vergamotas, quem diria que Cervantes está mais presente nas nossas festas do que o General Netto, que o Silva Tavares ou que o Pedro Canga...
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Só o Martín, criança ainda, que desde nosso alpendre, cuidava o movimento do Nenê e do Júlio, desde o início, ingenuamente, quando eles desapareceram no horizonte, sussurrou baixinho no meu ouvido, perguntando: - Vô! O tio Nenê é maturrango?

Jessie J - Price Tag ft. B.o.B. Legendado


Merengue

- Tempos bons aqueles... Disse, com o olhar perdido na tijoleta da calçada. – Aquilo é que era tempo... - repetiu -. E eu, admirado - admirado, mesmo -, pensei com meus botões se teria o meu interlocutor com tal estultice sido assaltado momentaneamente por uma doença chamada saudositite? Divagaria sobre aquelas raríssimas quermesses que se realizavam sempre entre o clima ameno de um fim de primavera e o início do outono, lá no Colégio das Freiras? Seria a lembrança daqueles esporádicos bailes do Beca, ou da Casa Queimada, que turbinava sua saudade? Será que recordava as matinés ou as antigas sessões de domingo no Cine Marabá? Estaria se transportando - no tempo - à descalçada Doutor Monteiro com o Izidoro, ou o Boquinha, tapando-o na poeira de um Gordini 1093, a coqueluche da época? Definitivamente, eu tinha achado um tipo à moda antiga. E o que fazer, senão obrigá-lo a por o Tico e o Teco que havia dentro daquele mogango em cima dum pescoço a espernearem em busca de uma luzinha? Ponderei, então: - Não via ele que a gurizada dos points de hoje faz de três ou quatro quadras da via central da cidade, de quarta-feira a domingo, uma média de duzentas e tantas quermesses, por ano. Não via ele que somando os bailes do Babalu (também chamado de Porta da Esperança), os de terceira idade (que são dois ou três grupos diferentes - num deles chega a ser proibida a entrada para menores de vinte e cinco anos), os do Buraco Quente (apelidado, carinhosamente, de UTI: Última Tentativa dos Idosos), chegam a mais de quatrocentos bailes por ano. Tudo sem falar em festividades paralelas ligadas ao tradicionalismo. Mais, como o nosso interlocutor enfrenta a dura realidade de uma comparação daquelas antigas sessões do Cine Marabá com os filmes que nos oferecem hoje: Várias locadoras (com milhares de filmes a escolher); Temos o cinema em casa com transmissões via internet, via parabólicas (diversos satélites à disposição)... Milhares de filmes por mês. Ainda, nos transportamos por toda a cidade, asfaltada ou calçada, tão confortavelmente, que é baixíssimo o índice de pessoas que chegaram a conhecer o uso da galocha para os dias chuvosos e barrentos daquele tempo do pesco. Ah! Bichão! Não. Não quero tripudiar em cima dessa tua ingenuidade extemporânea, mas, repara naquela esquina do Clube Caixeiral, aos domingos, à noite: São cinqüenta e dois merengues, por ano, para as crianças dançarem das quatro horas até a meia-noite. Tudo, contra três bailes infantis que tínhamos, naqueles tristes tempos... Sempre depois de esperar o corso da duquesinha e sempre terminando às dez da noite. - Olha, cara, vai te catar... Põe essa tua viola no saco... Deus nos reserva, ainda, um tempo melhor que o de hoje... Repara, que Ele está só nos mostrando aos pouquinhos... Como quem come mingau quente: pelas beiras... É esperar e ver...

sábado, 27 de agosto de 2011

A Outra Sete Portas

Já escrevemos, tempos atrás, sobre a Sete Portas que existiu na Rua Doutor Dionísio. No entanto em nossa cidade havia outra Sete Portas cujo dono era o Seu João Rodrigues. Ficava no cruzamento das atuais ruas General Osório com Gumercindo Saraiva. Esta edificação tinha como vizinho o primeiro Cabaré da Tia Rosa. Moramos na nossa meninice no quarteirão que era assim formado: Numa esquina a nossa casa, na outra a Tia Rosa, noutra a casa da Castelhana Casemira e bem na esquina (onde hoje é o Açougue Rodrigues), com frente para a Rua General Osório, o famoso Bar do Timotéo. Ali se vendia de tudo: tinha gibi do Xuxa, disco 78 rotações do Chico Alves, os primeiros long-plays do Cauby Peixoto e da Ângela Maria, pneu com aro e câmara, montado, pronto para uso em Ford Bigode, rádio à válvula, pão, relógios (dos empenhos), botas campeiras, esporas, velas, sardinhas em lata e o que mais se possa imaginar. Era o boteco em que entrava o maior número de borrachos por dia. Ali o gambá não precisava de dinheiro para comprar canha: deixava o que tivesse: nos pés, no pulso, na cabeça, no bolso e, assim, o escambo corria a frouxo. O boteco era, seguramente, o mais sujo entre os sujos que pudessem existir na Terra. O mais fedorento e o mais apertado, também. Com as prateleiras cheias de garrafas de bitter, vermute, tequila, rum, cerveja, tudo misturado com sabão, telha francesa, cano de fogão, lata de querosene, fumo em rama, tecido em peças, mostrador de linhas Corrente, chinelos coloniais, alpargatas Roda, tijolos refratários... No chão, sacos de amendoim com casca, açúcar, arroz, feijão, batata inglesa, bateria de carro, pá de corte, macaco de manivela, lona de caminhão... Sobre o balcão, um baleiro com balas e pirulitos, pentes de plástico, Leite de Rosas, queques e rapadurinhas diversas: de leite, coco, amendoim, abóbora, tudo em comunhão com a cachaça esparramada no balcão pelos clientes. Numa das portas morou o seu Agapito que foi maleiro na Estação Rodoviária e se distraía, entre uma chegada e outra de ônibus, tocando uma gaita piano de 48 baixos. Noutra, depois de ser quarto de aluguel, veio a ser o último Bar do Pardinho. Noutra uma churrascaria que foi do Martin Ligeiro e depois Bar da Vera do Nenê Balhego. As outras três portas pela Rua Gumercindo até recentemente eram alugadas no sistema de Casa de Cômodos. A famosa Teixeirinha – que veio a ser dona de um cabaré que marcou época na cidade -, quando veio morar por aqui, habitou um dos quartinhos. Dos outros dois quartos – socorro! - quem lembra os moradores? Além das portas existia um portão que dava para um pátio onde moravam várias famílias nos quartinhos de aluguel do seu João Rodrigues. Defronte à Sete Portas (onde hoje está a quadra de futebol do Lui), um grande campinho, bem cercado, onde o Seu Pindoca, pai do Garoto e da Negra do Seu Dário, cuidava de suas vacas. Lembranças, lembranças...

sexta-feira, 26 de agosto de 2011







Seu Sejanes


O castelhano Sejanes pôs um pequeno cabaré. A filha mais bonita fazia parte do harém e ele tirava vantagem do fato dela estar entre as putas. Tinha ele lá os seus modestos conhecimentos sobre negócios da noite - afinal, nada juntara até então do dinheiro ganho com seu ofício de alambrador – e por isso se arriscava sem piedade no ramo do lenocínio. Conhecia o freguês fazendo associação com o tipo de patrão que ele servia: Gente que vinha dos Conceição tinha dinheiro. Se viesse do lado da Costa, lá dos Bandeiras, na certa vinha pelado. Da zona da Palma, se não viesse da granja dos Helgas havia perigo. Da Serra, então, só vinham os chorões, regateadores, canguinhas... Nesse andor iam o dono e o cabaré quando o Mulita, vindo lá das Cacimbinhas, recém-chegado na cidade, soube destas histórias e procurou passar a perna no Seu Sejanes. Apresentado pelo Chico da Currucha ele conversou muito no cabaré naquela noite. Tomando uma cerveja fresquinha com a melhor percanta – filha do dono, por sinal - garganteava o Mulita como nunca. Passava por guarda-livros duma granja da vargem e lascava falar em trilhadeiras, tratores, comparsas vindas de Canguçu e Piratini para o corte de arroz. Muitas outras coisas ele dizia sobre a empresa onde prestava seus serviços. E, pelo que segredara o Chico no ouvido do Seu Sejanes, o freguês era um dos melhores salários da Granja Soares & Conceição, firma conceituada à época. Lá pelas tantas, depois de terem dado um tempo para os dois cevarem o inocente comerciante, aparecem o Papaco e o Molho para completar o trio de pícaros. O Chico - leitão vesgo -, fez as apresentações combinadas e abriram mais cervejas por conta do novo empregado lá das bandas das Capoeiras. Já ia a noite se estendendo para o horário em que desligavam o gerador da cidade quando o Mulita se recolheu para um quartinho nos fundos do salão para o instante. Dentro da alcova, luz do lampião já apagada, a quenga, de bico tramado com o pai e dono do puteiro, arranjara a cadeira no cantinho onde os amantes colocavam as roupas. Por uma fresta adrede preparada, mal os casais trocavam as primeiras carícias, ou preliminares, como queiram os leitores, o dono da pensão metia a mão pela fresta e revisava os bolsos dos fregueses para ver às quantas eles vinham de plata e afanar alguma se se enquadrasse. Afinal, além das consumações etílicas, havia o pagamento da mulher e o aluguel do quartinho. Pois, remexe os bolsos daqui, remexe dali, constatando o Seu Sejanes que o Mulita ia aplicar um grande beiço, ainda com as mãos na fresta, sem largar as roupas, resolveu dar um basta, a toda voz: Hija!!!... O sem-vergonha não tem dinheiro! É um baita alarife! Se ele não meteu, não deixa meter...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Nelson Gonçalves e Tim Maia: Renúncia

Os Palíndromos.

Deve estar na memória dos que assistiram ao Big Brother Brasil 7, a inversão da palavra feita com o nome da Iris, uma das participantes. Simplesmente, como sem querer, a Iris, que foi tomando conta do público que assistia ao programa, quando da sua eliminação, tinha seu nome firmemente trocado pelo de Siri. Ainda agora, nas suas andanças, parece que esqueceram o seu verdadeiro prenome e a tratam, carinhosamente, pelo da forma invertida. Ora, ao tratar deste assunto, pode-se dizer que não são raras as inversões de palavras, de frases, e mesmo de versos. Sejam lidos da direita para a esquerda como da esquerda para a direita - o que tanto faz - eles trazem uma enorme carga de humor. Da palavra amor, sai Roma, capital italiana e de outras tantas palavras ou frases saem outras inversões a que damos o nome de Palíndromo. Algumas valem a pena citá-las por serem engraçadas. É famosa a frase que diz: Otó come mocotó... Bem como outra, vinda da língua espanhola, e de facílima compreensão: Dábale arroz a la zorra el abad. Pela amostra se vê que estamos tratando de criação de sentenças feitas com altíssimo apuro intelectual. Gramáticos, artistas, amantes das belas letras e da sabedoria em geral dedicam-se à criação destas joias literárias. É infinita a possibilidade, se não for exagero dizer, de se criar frases ou versos que aceitam a inversão. Vejam mais estes: Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos; A droga da gorda; Assim a aia ia a missa; A Diva em Argel alegra-me a vida; Anotaram a data da maratona; A mala nada na lama. Quantos! Não temos notícias sobre a dificuldade em criar tais sentenças. Até pode, sem nosso conhecimento, termos entre nossos amigos pessoas com capacidade de criação e tempo suficiente, evidentemente, para se atirar nessa tarefa de garimpagem. É admirável a capacidade intelectual de quem cria frases passíveis de leitura inversa. Só para terminar, vale a pena deixar transcrita uma frase que ficou famosa ao tempo em que Ronald Reagam era presidente dos Estados Unidos da América do Norte: Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta... Gostaram? Pois, este palíndromo foi composto pelo - nada mais nem nada menos - talentoso Chico Buarque de Holanda guru maior da nossa geração.

Valsinha ( Nelson Gonçalves e Chico Buarque De Holanda )

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Cena de "Antes.do.Amanhecer".

Aula no DETRAN

É ponto pacífico e todos sabem, que foi assistindo torturantes aulas, rabiscando, desenhando e divagando que a humanidade tentou vencer o enfado formando, ao longo da história, grandes chargistas, caricaturistas, desenhistas, quadrinhistas - quiçá colunistas - e todo o tipo de cidadãos íntimos das artes. Pois, dia desses freqüentamos um curso relâmpago que nos tomou uma semana. Tivemos, por contingências do destino que voltar nesta provecta idade, a sentar num banco escolar e ouvir lições ministradas por um jovem professor. Como já não se faz mais alunos como antigamente não é novidade dizer que passamos por uma verdadeira tortura chinesa. No nosso primeiro dia de aula, de meio turno diário, sentíamos estar pagando pecados de natureza grave. Média ou levíssima, não eram. De certeza, cumprindo um o que aqui se faz aqui se paga, conseguimos levar os ossos intactos até a final sineta passando a pronto para a primeira aula. Depois, para comer a massinha que seria a segunda aula, preparamo-nos para enfrentar o jovem mestre com o espírito mais armado. Sentados numa daquelas incômodas carteiras escolares, tentando fazer do limão uma limonada, levamos uma agenda e uma lapiseira para analgésicos rabiscos. Foi assim que durante o desenvolvimento da aula, procurando uma forma de passar o tempo, redescobrindo, então, o tal drible ao enfado, escrevemos a crônica da semana passada. De sobra, como fruto da terceira aula, como assunto para uma próxima crônica, mudando de tática, passamos a contar, do início ao fim da aula, o número de vezes que nosso jovem mestre repetia a palavra “EU”. Assim, no estilo queremos ficar cegos se faltarmos com a verdade, computamos esse triste e antipático pronome pessoal reto da primeira pessoa do singular por sessenta e três vezes, por fração de cinco minutos. Coisa, como se vê, de deixar até psicanalista em parafuso. Nesta altura dos fatos, sem informar a quantidade total de “EUs” pronunciados, já que as aulas tiveram várias horas por três dias, só à altura em que foi gestada esta crônica, contabilizando direitinho foram pronunciados mais de quatro mil (4.000) vezes o nefasto pronome. Pior que isso só aqueles “NÉÉÉÉÉs?” usados como muletas nas constantes entrevistas radiofônicas. Três palavras e um “NÉ?” Três palavras e um “EU”... La nave vá... Pode? Bem, por Deus! Não pensem que estas linhas têm sabor de vingança... Embora tenha sido!

Fafá de Belém - Confesso - Programa Todo Seu / Tv Gazeta

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Navidinha

Para o Valdir Veiga Pereira

Meu pai, nascido na região do Rincão Feliz, foi vizinho e amigo do Navidinha e dele contava coisas que, aos meus ouvidos de menino, tinham o mesmo sabor das contadas pelo Blau Nunes, das atribuídas ao Pedro Malasartes ou ao Bocage. Causos, ditos, passagens da vida deste cidadão, negligentemente, tive a desdita de esquecer. Quando professor em Herval, por diversas vezes, viajei de ônibus com o Navidinha e a Dona Chininha, sua mulher. Conheci, ainda, seus filhos Nair, Natália, Emília (a do Girdo, se não me falha a memória) e o Aldrovando, meu amigo, morador na Airosa Galvão, que vem mensalmente ao Arroio Grande, onde recolhe, com religiosidade, a sua aposentadoria. Além das célebres rosquinhas com glacê, lembradas numa excelente crônica do Jarbas Acevedo para o jornal O Herval em certa ocasião, e mais duas ou três histórias que, contadas por meu velho pai, consegui guardar, tudo o mais perdi. Muitas passagens sobre a vida do Navidinha estão soltas, pois, na oralidade dos seus conhecidos e vizinhos, prontas e à espera de compiladores. Personalidade ímpar - com um linguajar inusitado -, ele foi esquilador, montava carpas em ocasiões festivas, vendia produtos da sua chácara e tinha lá a profissão de produtor rural. Numa ocasião, embarcou ele com a mulher trazendo cada um uma lata com ovos para vender na cidade. O ônibus era da Rainha, o motorista o Darinho Carriconde e o cobrador o Dalmo. Atrapalhando a entrada dos passageiros já estava o tarro do leite que o Cilzo Freitas embarcava diariamente. Pois, ao lado, quis o Navidinha colocar as duas latas de ovos quando já não havia mais espaço. Ante a negativa do Darinho ele sentou-se com a Dona Chininha lá nos últimos bancos do ônibus ambos levando no colo as latas. Mas, antes, se queixara: - Pô! Seu Darinho, o leite do Cilzo o senhor leva na frente e os meus ovos o senhor bota atrás! Era assim! Quando ensinou os filhos a esquilar dizia ser a Natália a de mais talento. Tudo por que ela pegava uma tesoura do Chico das Puas e se atirava de talho aberto quando pegava uma ovelha bem lanuda. Quando o acompanhava o filho Aldrovando em alguma comparsa, ele orientava o aprendiz. Num dia de tosquia em que o Aldrovando beliscou demais uma ovelha, o Navidinha professorou: - Não, assim não! Capiça mais Drovano, capiça...

NO MEIO DO CAMINHO na voz de Drummond

Lilian Wite Fibe cai no riso ao vivo

Lucho Gatica - Tu me acostumbraste

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Silvio Caldas canta "Chão de Estrelas" - 1978

Diálogos (Infames)

Diálogos (Infames)

Encontro de dois amigos sessentões na esquina da sinaleira, depois de anos sem se verem: - Pô, cara! Tu tá inteiro! Ao que o de bigode e cabelo com aquela tintura indefectível, se solta: - Se tô... Ainda meto o meu nariz em tudo que é boca noturna que vejo! – Bom – responde o outro – o nariz até eu meto...


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O baile do Glamour Gay já estava no adiantado das horas quando um guri, muito entusiasmado, se vangloriava de estar no lucro por já ter apertado e beijado até então, várias garotas, quase todas elas candidatas. Ao que o outro perguntou: - E tu ainda achas que isso é lucro?

Benzedura

Benzedura

Pouco a pouco, as palmas se misturavam com uma voz gritando: Óh! De casa! O desconhecido chegara pedindo licença para se aproximar. Boleou a perna na cerca de arame e se apresentou dizendo que se chamava Feliciano e que cortava lenha nas redondezas, que era gente séria; conhecida e tal e que só viera por que lhe disseram que possuíamos um violão. Dizia que tinha uma vontade tão grande, tão grande mesmo, de tocar um tango que, em troca, de presente, pela satisfação que lhe daríamos emprestando o pinho, varreria nosso terreiro de paga, cortaria lenha, até. Confirmando que havia um violão em casa à disposição de quem quisesse aproveitar, o nosso visitante pediu para tocá-lo. A princípio causou surpresa a inusitada figura que chegara, mas, a bocado, o jeito engraçado do Feliciano me cativou e dei-lhe o violão para que satisfizesse seu desejo. Para surpresa, realmente ele tocava alguma coisa. Tocou um tango, uma ou duas milongas e uma música do Roberto Carlos todinha. E, só. Acho que terminavam aí seus conhecimentos musicais... Acabou amigo da casa e, vez que outra, aparecia para um pernoite e depois da refeição pegar o violão para repetir as mesmas músicas de sempre... Um dia, no meio da tarde, o céu se encardia lá para os lados do Cerro dos Mulatinhos. Minuto a minuto aquele paredão escuro, prenunciando temporal, se aproximava. A coisa vinha feia para os lados da nossa Figueirinha... Por acaso, naquele momento, contávamos com a visita do Feliciano que, jogando conversa fora, começou a dar palpites sobre o tempo. Frente ao que poderia acontecer toureava o Nenê para uma jogada: Que a chuva e o vento não nos pouparia e que cairia pedra, que vinha chuva lavada, ou o que fosse, e por aí, ia... O outro dizia que o negrume ia se afastar lá para os lados da Airosa Galvão, passando ao largo. Acabaram apostando uma garrafa de vinho e eu fiquei de juiz... Esperávamos o desfecho, quando o Nenê parecendo amenizar a espera, pegou o machado e foi até o picador rachar lenha. Cuidando a faina do Nenê, picando acha a acha, enquanto se amontoava a lenha, o Feliciano fingia estar distraído embora estivesse atento. Quando cessaram as batidas no picador e o Nenê não apareceu, o nosso visitante levantou-se, à moda de quem espreita alguma coisa, e fez a volta no galpão, à procura dele, que havia sumido disfarçadamente. Ai, minina! A cena que se desenrolou, então, foi memorável... Naquele curto espaço de tempo, o Nenê, escondido, virado para o horizonte enfarruscado benzia o mau tempo, fazendo cruzes no espaço com o machado, cortando o vento. Não deu outra: O Feliciano vendo a benzedura que o outro fazia para afastar o temporal correu em minha direção, desorientado, aos berros, pedindo para abrir a aposta: Assim não vale! Benzendo não vale, é roubo, é roubo!

Eliana e Adelaide Chiozzo - 'Beijinho Doce' (1950)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Meus Tipos

Meus Tipos
Notável, mesmo, foi a tentativa de suicídio do Gabriel. Três horas da tarde. Verão. Pegou um revólver trinta e oito, depois de uma tremenda borracheira, e simulou um tiro nos miolos. Com o estampido, e a gritaria dos familiares acorreram os vizinhos mais próximos, ali do Passo do Simão. O Nelson Lima, o Negrito e o Lalau foram os primeiros e esperaram a chegada do Turco e do Nei do Abílio que vinham em desabalada correria. Na porta da garagem, aberta, um motor oito cilindros sem a tampa. Juntos, uma latinha de carburundum e as chupetas, davam a entender que estiveram no amacio das válvulas e aquela máquina saíria, logo, logo, rosnando da oficina. Sobre a calçada, o Ford do Gabriel, com banco no porta-malas. Dentro de casa, deitado na cama, vestido – e pelado por baixo - com um sobretudo preto, velho e puído, calçado com as tamancas coloniais, o Gabriel... Com a chegada de gente, parara a ronqueira e os olhos estavam semi cerrados, como se vigiassem o ambiente. O exame feito com o bafo, diretamente no espelho, indicava que ele ainda respirava. Quando os vizinhos se afastaram para um canto do quarto, para deliberarem sobre o que fazer, o Negrito, que escutava atento, mas não tirara o olho da cama onde estava o castelhano, comentou que o Gabriel abriu um olho e revirou-o. Viu, mais, que ele mexeu com a cabeça em direção à porta onde estavam à espera do desfecho. O Negrito, se afastou então dos outros, chegou mais perto do Gabriel e foi no ouvido dele: Tu tá te fazendo, Castelhano plévia, isso só pode ser borracheira!!! Foi, então, que, ante o fiasco que patrocinara, ele deu uma levantada do corpo e confessou, baixinho, choramingando, ter brincado de se matar para ver se a velha dele ia chorar.
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Na mesma época, não muito longe da casa do Gabriel, na Costa do Arroio, o Ramão patrocinou outra não menos patética cena. A mulher dele, estranhando o barulho de um copo que caíra, tirando o silêncio do quarto, acendeu o lampeão. O marido, com o braço direito caído para fora da cama, revirando os olhos, deixava cair pelo canto da boca uma espuma cor-de-rosa. Foram socorridos pelo Tomás do Pichinango, patrão do Ramão e dono da granja onde este trabalhava de puxador da água. Ante a hipótese do doente falecer a caminho, o que seria uma broma a mais, por ser empregado, preferiu o Tomás, no seu jipe, buscar o médico na cidade. Ali do Empedrado era um tirinho de quinze minutos. Foi um vapt – vupt e o Doutor Nilo já estava à beira da cama do paciente. Sobre o bidê uma lata de veneno com tarja vermelha e a figura clássica da caveira com as tíbias. Acordado e auscultado, o doente nada tinha que justificasse a soneira e a espuma sangüínea que lhe saía das entranhas. O médico fazia conta de cabeça para um diagnóstico preciso quando, observando o chão do quarto, viu uns papeizinhos de embalagem de Melhoral Infantil. Será???... Era!!!... O Ramão tinha tomado um copo de cachaça, com uma pilha de comprimidos, porque a mulher dissera que não o queria mais. O Nilo, de saída, ficou uma fera. Depois, já mais de meia-noite, quando o Tomás deixou-o de volta em casa, e quis pagar a consulta, desceu do jipe, e, casmurro como era, bateu a porta com força, dizendo: - Olha, Tomás, de simplidade eu tô até aqui!!! E, com vontade de rir: - Soca o dinheiro da consulta...

Genoca

Maria Eugênia... apelido Genoca, morava na esquina da Dr. Monteiro, na calçada da Igreja, defronte à praça. A casa - que até hoje existe - pertenceu a seu pai, o Doutor Salvador, que fora Juiz de Direito da Comarca. Foi musa do Pedro Bitencourt que, um dia junto com o Elias e o Oscarzinho, colocou um piano na carroceria da camioneta do Avião e lhe deu uma memorável serenata. Coisa de loucos? Talvez! Menos para o Pedro, nosso eterno, poeta que, à época, era escrivão no Foro. Pois bem, o que se conta agora, sem tirar nem pôr, é uma das muitas histórias que tem o destino de consagrar tudo o que tinha de magistral, aos nossos olhos a beleza da Maria Eugênia... Um dia, numa tarde tépida de verão, vindos lá das bandas do Passo do Simão, o Vilmar da Célia e o Nenê do Abílio, passavam pela frente da casa da Genoca, na calçada onde ela caminhava perfumada do banho recém tomado. Linda, distribuindo a exuberância dos seus vinte e poucos anos. O momento ensejou olhares de soslaio do Nenê para o Vilmar, e vice-versa, quando este, friccionando os dentes no lábio superior, fazendo aquele barulhinho que identifica o desejo, e meneando a cabeça, soltou o elogio: Que tesão!!! Não prestou... A Genoca, com a calma e o espírito mais indiferente do mundo, fazendo um muxoxo, lascou: É??? E, milimetricamente, deu a receita ao Vilmar: Dá o fiofóóó que passa!!!
A Permissão
Os namorados, entre um afago e outro, curtiam a paisagem que um dia, malgrado a modernidade, desapareceria com a Barragem do Chasqueiro. Entre carícias de mãos perdidas, também, noutra paisagem, a da anatomia de um corpo jovem e sedutor, as mãos do Toneca buscavam todos os não sei quês do corpo alvo e curvilíneo da Dirinha, como a chamavam. Pois, num clima que misturava romantismo e possibilidades de um rolar-rolou, que se arrastava sem muita ousadia, ante a exagerada cautela do Toneca, Dirinha, náufraga de desejo, na solidão do seu imenso oceano de excitação, como quem procura uma pequena tábua que lhe possibilite sobreviver, enxerga, no campo ao longe, um touro namoricando demais, demais mesmo... a sua vaca amada. Cena adrede preparada pela natureza, inspirou uma das mais célebres saídas - ou entradas: Ela, ansiosa e já ofegante, revirando os olhinhos – que só quem ama sabe e entende, e como entende... - numa enorme expressão de ternura e desejo, melosamente, arrisca uma pergunta ao Toneca (quem sabe???...): Bêeeêm, tu ti animas a fazer aquilo que o touro tá fazendo? Silêncio... - um grande silêncio, e um enorme e sufocante calor naquele silêncio que tudo dizia, e pedia... - Então, o Toneca, terno (e frustrante), responde: Uéééé, Dirinha, se a vaca deixá!!!!!!
12/01/2006

AGUSTÍN LARA - María Bonita

Cine Marabá

O Cinema Marabá e algumas coincidências
Paul Muriat, Miguel Aceves Mejía, Mário Zan, Jack Palance, Francis Girod, Robert Altman, Philippe Noiret e Jece Valadão. Esta é uma lista com pessoas que tinham muita coisa em comum entre elas. Todas partiram na corrida deste último mês de novembro. Num espaço de vinte dias. De 08 a 28 do mês elas fizeram parte da seção de necrológios da Zero Hora. Todas elas artistas. De todas elas, se fizermos um pouquinho de exercício de memória nos lembraremos. Foram íntimas no nosso dia-a-dia e na história do Cinema Marabá. Era escutando os magníficos arranjos de Paul Muriat que esperávamos em som ambiente o início dos filmes. Quando não era ele era o Ray Coniff. E, fora do cinema, num alta falante que anunciava o elenco dos filmes, ao cair das tarde, a música de fundo era uma canção que o Agustin Lara compôs para a sua amada Maria Félix, interpretada pelo mexicano Miguel Aceves Mejia. Miguel também foi protagonista de diversas fitas rancheiras da Pelmex que rodavam constantemente nas telas do Marabá. Sempre fazendo poses com seu cavalo negro e suas roupas de mariachi. Também quem nos deixou foi o famoso sanfoneiro Mário Zan. O Mário Zan desceu com o seu acordeão na mão, na nossa rodoviária, e foi para o Hotel da Dona Leonídia, antes de se apresentar no palco do cinema. Compositor que nos deu mote para, quando crianças, parodiar seu mais famoso dobrado, feito para o quarto centenário de São Paulo: São Paulo, quatrocentão, baixei as calças... e por aí ía. Lembram? Partiu, também, o vilão dos filmes de faroeste Jack Palance. Quantos e quantos filmes no cinema Marabá... Ele era sempre o bandido, com cara de mau. Falando em cara, quem esqueceu o rostinho da Romy Scheneider, a dos filmes em série sobre Sissi, a Imperatriz da Áustria. Pois a Sissi, em muitos filmes cult ou noir, daqueles que passavam nas quartas-feiras, por ser barato o aluguel da película, foi dirigida pelo Francis Girod, que nos deixou no dia 18. Em seguida compareceu nos necrológios o Robert Altman. Outro monstro sagrado dos filmes americanos que passavam na tela do Cinema Marabá. Sempre com filmes impactantes, sendo talvez o mais famoso o M.A.S.H, sobre o tema Vietnan. Outro: Philippe Noiret, que vimos há alguns anos atrás no filme o Carteiro e o Poeta, que contava um pedaço da vida do Pablo Neruda, participou de muitos fiilmes que rodaram nos anos sessenta e setenta, nas telas do Marabá - naqueles tempos de Brigite Bardot, do Alain Delon, do Jean Paul Belmondo. E, finalmente, partiu na semana passada, o famoso artista cafajeste Jece Valadão que sempre foi protagonista, quase nunca coadjuvante. Sempre fazendo papéis de vilão nos filmes de produção nacional. Pois bem, ninguém inventou o tema desta crônica senão, o destino, a coincidência de todos os listados acima terem sido íntimos do Cinema Marabá. Foi ou não foi? (02-12-2006)

Yesterday, The Beatles - 1966

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Meus Tipos

Meus Tipos
Poucos guardam na lembrança a grande amizade que unia o Castelhano Gabriel e o Padre Neves. Figuras que fazem parte do meu imaginário como uma das coisas mais gratas que guardo.
Amigos inseparáveis o Castelhano e o padre desde as memoráveis pescarias semanais até o joga-fora de assuntos aos fins de tarde. Além, é claro, do testemunho que o sacerdote carregava das memoráveis bebedeiras do Gabriel. Tratavam-se como compadres que eram. Era compadre prá cá e compadre prá lá.
Não era raro o castelhano, sem olhar para o amigo, fazer uma pergunta começando com um tratamento mais reverencial: - Seu Padre..., e começava a indagação de uma simploriedade qualquer em que a resposta sempre vinha acompanhada da indulgência do interlocutor... Dir-se-ia que o clérigo elegera a oficina mecânica do Gabriel como seu refúgio das agruras existenciais. Nos frequentadores da oficina tinha o padre o rol de pessoas simples que lhe faziam companhia e casavam com a sua humildade. O Padre Neves, ou Padre Análio, foi uma das pessoas mais marcantes que nasceu por estas paragens.
Moço ainda, tendo ido para o seminário, de lá voltou formado como o primeiro padre nascido em nossa cidade. Verdadeiramente ele era uma figura impar a viver em um meio agreste culturalmente. Por aqui, os letrados de plantão hostilizavam-no por suas ideias de cunho extremamente avançadas, já que trazia, com uma anterioridade surpreendente, tudo aquilo que é pregado atualmente pelo Padre Leonardo na sua Teoria da libertação.
Mas, deixemos destas delongas para tratar da fiel amizade destes meus dois tipos. Lembrar as pescarias que eles temperavam de forma sublime: o Padre, com suas linhas e o Gabriel com sua inseparável caninha da marca Brasa (depois de sair do mercado a famosa cachaça de nome Atitude, que fez furor tempos antes). Padre Análio com seu jipe ano cinquenta e quatro, americano, de cor verde, daqueles que sobraram da Guerra da Coreia e vieram abastecer o mercado brasileiro e o Castelhano Gabriel com suas fubicas.
Na oficina nasciam as pescarias nos açudes do município, nas Três Bocas do Bretanhas, ou na Barra, na Costa do Arroio... Além do padre e do castelhano faziam parte como comparsas o Seu Idalino, lá do Herval, que vinha sempre no seu jipe americano, de capô alto. Fazia parte da confraria, também, o João Carpinteiro, sempre quietão, abstêmio. Tinha o Nei do Abílio, moleque que comparecia para os mandaletes no acampamento. Tudo sempre rolando a Brasa do castelhano misturada com mel.
Que vida... Tudo numa grande amizade, com muita conversa, bastante peixe, que naquela época havia abundância e muita graça patrocinada pelo Gabriel e sua irreverência desmedida, folclórica, até.
Pode-se dizer que o castelhano era a espinha dorsal do grupo. Toda a graça partia dele e seu conluio com a indispensável caninha Brasa. Brasa com mel. Eram pescarias para ninguém botar defeito. Principalmente quando o castelhano fazia questionamentos ao Padre Neves.
E o vinho do Padre Análio que suscitava curiosidade no Gabriel? Certa vez, o Padre, distraído com uma traíra beliscando na linha, não viu o castelhano dar um talagaço no vinho dentro da canequinha de alumínio, daquelas que milico usa no quartel: - Compadre, este meu vinho desceu uma barbaridade... – Fui eu Seu Padre. Eu queria ver se ele era forte como a minha Brasa...
Um dia, todos sentados numa barranca e o castelhano, já á meia-guampa, arriscou uma pergunta: - Seu padre, eu tenho uma coisa comigo que inquieta a minha cabeça. Se o compadre não se ofender eu vou perguntar. Posso? Silêncio da turma. Vinha chumbo grosso, turbinado pela Brasa com mel... E o Gabriel soltou a pergunta: – Compadre, vigário fode? Silêncio sepulcral... O Seu Idalino, olhando para o Padre Neves, envergonhadíssimo, dado o respeito que nutria pelo amigo religioso, chamou a atenção do castelhano: - Mas Gabriel, que comportamento é esse? Em ato contínuo, o Padre Análio, com uma bondade infinita, desconversou: Não reparem, não... O compadre é assim mesmo, ele é engraçado quando toma Brasa com mel. Ele diverte a gente. Faz parte da natureza dele...








domingo, 14 de agosto de 2011

Os amigos


Franz Liszt e Frederic Chopin, gênios da música, foram grandes amigos. Por muitas vezes disputaram a mesma mulher. A mais famosa delas foi a escritora George Sands - que dizia ter Chopin feito um instrumento falar a linguagem do infinito. Esta, eles disputaram com outro gênio das artes, o escritor francês Alfred de Musset. Há, ainda hoje, um cantinho na Place Vendome onde está fixada uma placa alusiva à moradia de Chopin e Sands. Os músicos, embora a grande amizade que os ligava como irmãos, eram rivais e adversários nas composições e não se poupavam nos desafios. Chopin, certa vez, pregando uma peça em Liszt, compôs uma peça musical em que este deveria interpretá-la ao piano. Na peça, colocou uma quantidade tão grande de dificuldades que quase o obrigou a capitular na execução. Contam, como registro anedótico, que Liszt, para se vingar da molecagem, em troca, compôs outra para que Chopin a interpretasse. Com a pauta a sua frente, Chopin tocava a composição, quando, de forma inusitada, suas mãos ficaram impossibilitadas de continuar a música. Parou. Argumentou, então, que parava de tocar por existir uma nota impossível de executar. Liszt, para provar que era possível, sim, executar a música, senta-se ao piano. Quando chega àquele ponto em que tinham se paralisado as mãos de Chopin, abaixa-se e, com o nariz, toca uma só nota: era a nota que paralisara as mãos de Chopin.

Simply Red - You Make Me Feel Brand New

Hipnose

Houve uma época, lá pela metade da década de cinqüenta e início da de sessenta, em que existiam na cidade dois concorridos Cafés: o Rex, que chamávamos de Café do Deca, e o Marrocos, que pertenceu ao Manoel Português. Naquele, se reuniam os que gostavam dos jogos de carteado e turfe. No outro, que chegou a ser restaurante, e teve a primeira boate da cidade, reuniam-se os freqüentadores mais ligados ao futebol. São deste último estabelecimento a maioria e as mais caras das nossas recordações. Seu Dono, por conta de uma grande ingenuidade, era vítima constante de engraçadas e exemplares peças. Certa feita, a inseparável dupla Oscarzinho e Prego aplicaram uma farsa ao Manoel: estava a dupla desfeita, e um de mal com o outro, por conta de uma travessura que o Prego praticara ao amigo. No recinto do café, sempre bem combinados de antemão e com jogos de cena, ambos se faziam de inimigos. Era só um sentar ao redor de uma mesa que o outro procurava sentar bem longe, numa mesa mais distante. O Manoel, que gostava dos dois, indagava ao Prego, constantemente, o porquê da encrenca e este nada contava. Apertava com o outro e este também nada dizia. Nesse tranco passavam-se os dias e os ex-amigos não se olhavam quando o Português estava por perto. Quando a bobagem amadureceu e já era chegado tempo de contar ao Manoel a causa da briga, o Prego, chamando-o para uma confidência, confessou que tempos atrás hipnotizara o Oscarzinho e este tinha ficado de mal por conta disso. Ora, daí, para alimentar a molecagem, foi um vapt-vupt. Pois, num belo dia, o Oscarzinho chegou ao Café e já se sentando fez a senha pedindo um cafezinho. O Prego, tomando o seu café, no balcão, conversando com o Manoel, chamou-o como se fosse dizer um segredo, e partiu para o ataque: - Olha Manoel, disfarça que eu vou hipnotizar o Oscarzinho quando ele pedir outro café... Dito e feito. O Oscar fez a senha pedindo outro cafezinho. Quando recebeu a xícara, o Prego esperou ser observado pelo Manoel e disse baixinho, olhando, ora para um, ora para o outro: - Levanta Oscarzinho... No que foi prontamente atendido. Continuou: - Pega a xícara de cafezinho que está na mesa... Novamente foi atendido. - Agora, solta essa xícara... A xícara, ainda com café, estilhaçou no mosaico e o Manoel colocou as mãos na cabeça... Bem, muitas vezes, durante dias, nas sessões de hipnose do Prego, o Oscarzinho quebrou as xícaras do Manoel. Coisa de três a quatro xícaras quebradas, por dia, até o Português reconciliar os amigos.

sábado, 13 de agosto de 2011

You Make Me Feel Brand New - Tradução

Teste

Teste
Embora a vida comece aos quarenta, como dizem, é bom saber que qualquer objeto de nossos dias será antiguidade em 2051. Da mesma forma, qualquer fato passado lá nos idos de sessenta, ao menos para gurizada de hoje, é coisa jurássica. Dito isto, vamos a um teste. Se você não for alvo de cinqüenta por cento destas lembranças, parabéns... Se passar, paciência, não perca a esportiva. Isso é coisa que acontece. E, não é nada, não, mesmo por que você não é mais adolescente. Tendo crescido, ainda que não seja senil, aceite que você é alguém que já entrou na madureza. Vamos lá, então? Você lembra onde era a Rua da Morocha, (a ruazinha onde morava a Morocha)? A Avenida do Amor (ou Motel do Zoca, ou Dozocaliptos, como queiram...)? A Coxilha do Fogo? A Vila da Palha? A Travessa dos Bidivas? O Colégio das Irmãs ou a Cancha dos Bonneau? Viu? Você tá bem na foto, ainda... Você está se saindo bem, já de início. Mas, continuemos: Conheceu o Luís dos Burros, O Basílio da Bicicleta, O Zé Balhego, O Idílio Tetinha, o Arlindo Garua, o Menandro dos Ovos, o Alécio das Verduras e o carteiro de nome Emílio Caturrita? Viu? Olhe, sem crueldade nenhuma ( até por que não é do nosso feitio ), vamos ter que continuar este teste: Conheceu o cavalo do Graúdo? O macaco do Ernesto? O caminhão do Antônio? A égua do Bidoca, A Verruga do João Rodrigues? A carpintaria do Ondino? O Bar da Noca, a venda do Apolino, a churrascaria do Pedro Leitão, a Churrascaria Nascib e o bar da Dalila? E os carros de praça do Seu Venâncio, do Seu Alvim, do Zézinho e o do seu Nelson? Chegou a andar neles? Então, descontraiu? Chegou no pedaço? Ah! Sei. Começou a bater uma pequena deprê? Fique firme, tudo se acomoda. Não se entregue. Cantarole baixinho aquela sua velha e conhecida música portuguesa “Só nós dois é que sabemos”... Seu teste tem tudo para dar certo... Ainda que sejamos daquele tempo em que cruzávamos na rua, no inconsciente esplendor da nossa juventude, pelo Gilberto da Tica, pelo João do Cantalício, pelo Chico da Currucha, pelo Censinho do Euzébio, pelo Tenente Cibeira, pelo João do Pereca, pelo Zecão da Anita, pela Nair do Lolo (a Nair que vendia balas nos recreios do Vinte), pelo Adão da Pepita, pelo João Ticató, pelo Martin Ligeiro, pelo Zé do Julião, pelo Paulo do Picão, pelo Zé da Coxilha, pelo Ari da Pendica, pelo Adão da Cizica, pelo Padre Thomé, pela Piola do Ondino, pelo João do Vida, pela Lota do Budanha, pelo Lauro Surdo, e tantos outros. Tá, agora, relaxe que a crônica está no fim. Deixe a leitura do jornal para mais tarde, abra a porta da rua e tome um solzinho na calçada indagando por tudo e a todos. Vá. Sua idade o autoriza a viver indagando o nome dos vizinhos, dos forasteiros, de todo mundo ao seu redor – tudo bem longe dos filhos e dos netos para que eles não paguem mico, evidentemente. Não tenha pejo de ficar xeretando para saber o nome dos outros. Afinal, como se viu, (faça suas contas...), você pode estar correndo o risco de ter mais conhecidos lá em cima, do que aqui em baixo. Não é?

Don Silvestre

Don Silvestre

Para o Sérgio Silveira Canhada

Década de sessenta. Nosso amigo se chamava Dário Maciel Costa e foi tabelião e notário da Comarca até sua aposentadoria. Seu cargo abrangia o Registro de Imóveis e Documentos. Deste cartório o substituto era o Osório. Já o Tabelionato ficava sob encargo do Levi. Por aquela época, se alguém precisasse de um reconhecimento de firma ou marcar uma escritura, e ocorresse não estar no Cartório o Seu Dário, de certeza certa, ficava esperando pelo seu retorno. Até houve quem, ante a sua ausência por motivo de viagem, com ombros no balcão e mãos na cabeça, proferisse frases que ficaram no anedotário da cidade: - O Seu Dário não tá?... Viajou!!!... Bahhh!, me quebraram as pernas!!! E não adiantava explicar que tanto um substituto como o outro tinham autoridade para firmar assinaturas notariais. Não estava o Seu Dário, estava criada a broma... Vai daí, os poderes dele não só eram solicitadíssimos para chancelar todo e qualquer papel que garantisse uma transação, como também estendiam-se às raias da paranormalidade, segundo seus idólatras. E, neste particular (haverá quem lembre?), imputavam ao nosso amigo tabelião poderes até para fazer desaparecer verrugas. Havia, crença das crenças, a de que verrugas em que ele colocasse os olhos caíam de imediato. Era tiro e queda. Com tal lenda que corria a frouxo não foi uma ou duas vezes que os pais levaram os filhos ao cartório na esperança de que o Seu Dário, por um acaso..., sem se dar conta..., sacumé? fizesse desaparecer as verrugas que tanto enfeiavam mãos. Os pequeninos iam de colo e manuseavam os documentos no balcão à sua vista; os mais taludos botavam as mãozinhas à mostra sobre o balcão; os outros, os maiores de todos os tamanhos e verrugas, assinavam os documentos com uma calma de dar espanto, enervando quem estivesse apreciando a manha. Nós, os mais chegados à sua amizade (a crase eu estou colocando por birra), sabíamos que quando o amigo flagrava esta segunda intenção fazia uma oração, baixinho, quando os verruguentos se iam: Deus queira que te nasça mais verrugas no..., na..., e vão todos para... seus filhos da... e por aí, ía... Mas, não adiantava, as verrugas caíam mesmo, uma a uma, acreditem! Nós o chamávamos de Coronel. Mas o nome que ele gostava e tinha escolhido para si, era bem criollo: Don Silvestre de Ávalos, que era padrinho de um neto do Martin Fierro, o Sejanes. É..., só quem viu... Só quem foi seu amigo...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O burro é burro?

O tema é antigo e recorrente e trata de uma séria injustiça para com um animalzinho tão dócil, tão esperto e resistente. Por aqui lembramos os burros do Luís dos Burros. O Luís, lá da Coxilha do Fogo, carroça carregando areia para as construções, pingando água rua a fora... Seus animais, invariavelmente carregavam nomes de políticos. Nomes que eram engraçadamente trocados ao sabor dos tempos: os burros Meneguetti, Peracchi, Guazelli (nunca se soube se teve burro com nome de político local) e a mula Castorina que nunca trocou seu nome, pois eram raríssimas as mulheres que entravam na política naqueles tempos. Aproveitando o assunto, parecido com um burro do Luís, um deles, de nome Platero, alavancou um Prêmio Nobel para Juan Ramon Jimenez, em 1956: Platero pequeno, peludo, suave, parece feito de algodão, sem ossos, mas com um olhar duro, escreveu o poeta espanhol. Célebre também é o burro de Balaão. No Livro dos Números, 22:23 a 22:33, escrito por Moisés, em 1400 A.C., o burrinho que passou a vida inteira transportando Balaão, por três vezes foi duramente chicoteado (num dia de patetice deste Profeta). O Anjo, depois, envergonhou Balaão jogando na cara dele a estultice de castigar um animalzinho tão inteligente e tão fiel. Temos, ainda, os burros falantes do Velho Machado de Assis: Numa crônica publicada n’A Semana, de 16 de outubro de 1892, tratando do tema sobre a inauguração dos bonds elétricos na cidade do Rio de Janeiro, o narrador surpreendeu a conversa de dois muares que filosofavam sobre o destino deles (conversa que foi à luz porque os animaizinhos, tanto quanto quem os ouvia, também eram versados na língua dos houyhnhnms, aqueles da última viagem de Gulliver e que eram inimigos dos Yahoos). E os Burros de Buridan? Será a indecisão dos animais um copy desk desastrado em cima das divagações aristotélicas de dois mil e trezentos anos atrás? Escolheram bichos errados para a demonstração correta do determinismo moral proposto por Jean Buridan? E a velha história do Burro do Camponês que caiu num poço. E, em sendo impossível resgatá-lo para o chão plano, resolveu seu dono, ajudado por outros campônios, jogar terra no buraco e enterrá-lo para que morresse. Foi então que, pá após pá de terra jogada, o bicho foi subindo, subindo espertamente, até a borda do poço. Ah! Os burros... Pedro Malasartes - segredando ao asno a morte da sua mãe (dele burro) - socou-lhe um charuto aceso no ouvido. O Barão de Münchausen (o Malasartes germânico) montava a metade da frente de um burro na sua inverossímil história da fonte. Bocage (Manuel Maria Barbosa du Bocage, o Elmano Sadino da Nova Arcádia, maior poeta da língua portuguesa – que nestas paragens é conhecido somente por ter sido pândego) montava um burro quando chegou à casa do camponês, para ensinar a fazer uma sopa de pedra. Outro pícaro, célebre na literatura da Idade Média: Till Eulenspiegel. Tinha um burro falante e com ele entulhou o anedotário do Sacro Império Romano-Germânico com suas picardias. Ué! Desviei do assunto... Perdi o fio da meada... Justo quando me ocorria dizer uma coisa pitoresca sobre os burros. Ou sobre os burros? Pô!

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